ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

ED SARRO

FOTOEDSARRO

ENTREVISTA

por Fernando Passarelli

Numa dessas ironias da vida, o jovem Ed Marcos Sarro fez o curso de mecânica do Senai, lá no ABC paulista, e foi parar numa montadora. Poderia ter ficado na linha de produção e feito carreira, se não fosse o sucesso dos seus desenhos. Os chefes reconheceram o talento dele e o convidaram para trabalhar em outro setor, o de treinamento, mais precisasmente no desenvolvimento de material didático. E Ed Sarro, que desenhou desde criança, teve a oportunidade de seguir carreira usando sua criatividade e humor. Formado em Desenho Industrial pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, ele já tem um mestrado em design e agora caminha para o doutorado. É professor universitário e já publicou seus desenhos nos jornais O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e Diário do Grande ABC (SP) e nas revistas Oriundi, Imprensa, CADesign e MAD. Em 2008, os desenhos do Ed foram expostos em San Donà di Piave, Itália. Confira a entrevista a seguir:
EDSARRO1DEUS NO GIBI – Você tem um traço muito seguro e um trabalho com excelente acabamento. Chama a atenção porque é o oposto de muitos desenhistas que, a partir de um certo tempo de carreira e de idade, abrem mão de uma boa finalização. Você gosta desse capricho nas tiras e cartuns?
ED SARRO – Agradeço a observação e fico até um pouco surpreso porque de fato eu reputo meu traço como normal. Geralmente as pessoas me consideram um bom desenhista, mas eu particularmente sei que tenho pontos a melhorar e outros que não vou alcançar porque não tenho me focado nisso. De fato, eu procuro experimentar outras formas de executar o desenho e de usar a cor, de modo a tornar meu trabalho mais interessante e eficaz em comunicar e expressar conteúdos. Às vezes, isso pode significar tanto um tratamento mais esmerado quanto uma finalização mais despojada, em ambos os casos pode ou não haver uma intenção.

DEUS NO GIBI – Como foi o seu começo de carreira?
ED SARRO – Comecei a desenhar ainda criança e publiquei minha primeira tira aos 12 anos, no extinto jornal “Folha de São Caetano”, de São Caetano do Sul. Desenhei muito em jornais de escola e em produções caseiras que na época eu não sabia que se chamavam fanzines. Eu comecei a trabalhar com desenho profissionalmente mesmo em 1985, quando terminei o curso profissionalizante de mecânico geral no Senai e fui trabalhar na General Motors do Brasil. Lá, um dos coordenadores dos aprendizes viu uma caricatura que eu fizera de um colega e me convidou a colaborar com o Departamento de Recursos Humanos, na adaptação de material de treinamento que estavam trazendo da matriz nos Estados Unidos. Eu costumo dizer que sou um cartunista bissexto e meio “chapa branca” porque minha carreira não foi construída no mercado editorial convencional, mas dentro dos escritórios de uma montadora de automóveis como parte da comunicação oficial da empresa. Por um lado era uma situação cômoda e de certa liberdade, pois não havia mais ninguém na empresa que fizesse o meu trabalho e ele era geralmente bem aceito e sofria pouca censura. Por outro lado, eu era um ferramenteiro que desenhava e minha condição era vista como uma adaptação de funções, o que me limitava em termos de acesso a recursos e de reconhecimento profissional. Isso também dificultou um pouco minha inserção no mercado de trabalho quando deixei a companhia, em 2004, porque eu não tinha a vivência dos estúdios e das agências. Acabei me especializando num segmento parecido com aquilo que eu fazia na GM: ilustrações para publicações didáticas e para material de treinamento. Também acabei encontrando o filão dos autores independentes, que precisam de um ilustrador, mas geralmente têm orçamentos pequenos.

DEUS NO GIBI – Vendo a sua experiência na General Motors é impossível não lembrar que o mestre dos quadrinhos Will Eisner também fez, no exército, desenhos de instrução. Fale um pouco dos resultados que o humor e os quadrinhos podem trazer na transmissão de conhecimento técnico.
ED SARRO – Eu menciono Eisner na minha dissertação de Mestrado (“Estruturas icônicas nas cartilhas de treinamento quadrinizadas”) e no doutorado devo aprofundar o estudo do seu legado. Infelizmente, na minha vivência profissional não houve a iniciativa de criar métricas para avaliar os resultados obtidos pelo meu trabalho no uso do humor gráfico e dos quadrinhos na comunicação organizacional. Apesar disso, ainda que de forma empírica, pude comprovar que mesmo que o conteúdo de uma mensagem veiculada por meio do desenho não seja de todo assimilado, a memória visual leva ao resgate da mensagem. Eu lembro que quando já não estava mais na ferramentaria da montadora alguns cartazes que eu produzi ainda estavam nas oficinas e eram preservados pelos colegas, tanto por conta do aspecto afetivo quanto pelo resgate dos temas, por meio da memória visual.

DEUS NO GIBI – Você tem publicado cartuns e tiras traduzidas para o inglês. Como está a aceitação do seu trabalho pelo público que não fala português?
ED SARRO – Quando deixei a GM e passei a dividir meu tempo entre as aulas, o mestrado e o trabalho como ilustrador freelance, consegui alguns projetos no exterior via internet. Inclusive publiquei um livro como co-autor/ilustrador nos Estados Unidos. Mas, com a crise de 2008 os trabalhos no exterior foram minguando. De qualquer forma, o meu blog é uma espécie de portfólio. Eu às vezes coloco material em inglês para facilitar o acesso de eventuais clientes do exterior, não só ao desenho mas ao conteúdo que produzo. Também verifiquei pelas estatísticas do blog que ele é visto por pessoas de várias partes do mundo, sendo que numa semana ele foi acessado por mais que o dobro de internautas dos Estados Unidos, em relação ao Brasil.

DEUS NO GIBI – Você já expôs na Itália. No Brasil está mais difícil para um desenhista conseguir abertura para apresentar o seu trabalho?
ED SARRO – Acho que sim e não. Com a internet, as mídias sociais e os blogs de autor, hoje é possível fazer-se conhecido com certa facilidade. Logicamente que a qualidade dessa exposição pode ser questionável. Comentava com minha esposa outro dia que quando eu colaborava com um grande jornal de bairro, na Zona Leste de São Paulo, meu trabalho era mais visto no meio impresso do que pela internet. Chegamos a ter 100 mil exemplares por semana, ao passo que a melhor marca que consegui no Facebook foi pouco mais que 2.500 visualizações de um post. Essa mostra que eu fiz na Itália foi apresentada aqui no Brasil também, em pelo menos mais dois lugares: a Sociedade Ítalo-Brasileira de Santo André (SP) e a Faculdade de Belas Artes de São Paulo. A questão é que esse tipo de ação não gera dinheiro, mas sim exposição na mídia a um custo baixo. E a partir disso você pode tornar sua obra conhecida, com alguma possibilidade de render algum convite para projetos.

EDSARRO3DEUS NO GIBI – Fale um pouco da sua formação cristã.
ED SARRO – Meus pais tornaram-se evangélicos quando eu tinha entre 8 e 9 anos de idade. Fui criado num contexto pentecostal relativamente severo – e que tinha restrições à minha inclinação ao desenho de quadrinhos – mas com 18 anos achei que deveria procurar uma outra expressão de fé. Participei das Assembleias de Deus por alguns anos e também frequentei uma grande igreja batista em minha cidade, sempre colaborando de alguma forma na produção de boletins, ilustrando material de educação cristã ou criando cartazes para congressos de jovens e conferências missionárias. Também frequentei o seminário teológico por um ano e meio, mas entendi que meu chamado era outro. Quando ainda frequentava a igreja dos meus pais eu li a biografia de John Wesley, fundador do movimento metodista, e me identifiquei bastante com sua história e pensamento. Só em 2004, quando conheci a Catedral Metodista de São Paulo, por ocasião de uma apresentação do grupo Vencedores por Cristo, me dei conta que sempre fora metodista e não sabia. Fiquei ali até 2013, quando nasceu meu filho, e passei a congregar numa igreja metodista mais perto de minha casa, para dar maior assistência à minha esposa e ao bebê. Na Igreja Metodista também tenho colaborado com meus talentos, sempre que possível.

DEUS NO GIBI – Você conhece revistas ou tiras cristãs, publicadas no Brasil?
ED SARRO – Conheço pouco ou quase nada. Nos anos 80 houve uma tentativa de se publicar uma revista evangélica de quadrinhos e humor, mas não emplacou porque era – e ainda é – um tema controvertido. Conheço um pouco do trabalho do Pastor Jasiel Botelho e sei que o João Montanaro é evangélico, mas ele não publica nada com teor religioso de fato. Vez por outra vejo aqui e ali alguém tentando fazer um trabalho com quadrinhos evangélicos, mas ainda não encontrei algo que me convença. O recém falecido Renato Canini, que desenhou por anos o Zé Carioca e colaborou com a Imprensa Metodista por algum tempo, era um cristão consagrado, mas não misturou as coisas. Outro exemplo é o Sergio Cariello, que mora na Flórida e produziu uma versão em quadrinhos da Palavra de Deus, a “Bíblia em Ação”, de mais de 700 páginas – notável mas que tem alguns pontos discutíveis enquanto arte engajada. Agora, se olharmos para os Estados Unidos, teremos alguns artistas que conseguiram um certo equilíbrio nisso durante algum tempo, como Charles Schulz, que foi evangélico boa parte de sua vida e expressou isso nas entrelinhas das histórias de Charlie Brown e sua turma. E ainda o Johnny Hart (“B.C.” e “O Mágico de Id”), que também foi um cartunista evangélico sem ser de fato panfletário, exceto em uma ou outra ocasião.

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DEUS NO GIBI – O que anda lendo, de quadrinhos?
ED SARRO – Estava lendo “O livro de dez anos do Calvin” que ganhei de presente da minha esposa, mas parei por conta das leituras e dos trabalhos do doutorado.

DEUS NO GIBI – Por último, se você tivesse um super-poder, qual seria?
ED SARRO – Gostaria de ter uma super velocidade de leitura, para ler todos os bons livros e álbuns de quadrinhos da minha estante que não tenho conseguido ler, além dos textos para minha tese.

Para conhecer mais do trabalho de Ed Sarro acesse:
http://edsarro.blogspot.com.br/

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