ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

FLÁVIO CALAZANS


ENTREVISTA

Por Fernando Passarelli

Chama-se propaganda subliminar a mensagem transmitida de forma oculta por qualquer mídia, com a intenção de influenciar atitudes do público. Ela pode existir no cinema, na TV, na imprensa, na campanha política, nos desenhos animados, nos quadrinhos e até na igreja. E quem realmente entende disso no Brasil é Flávio Calazans – Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo e Livre Docente pela Universidade Estadual Paulista. Seu livro “Propaganda Subliminar Multimídia” (Editora Summus) está na sétima edição. Ele também é o autor de “Histórias em Quadrinhos na Escola” (Editora Paulus). Na entrevista abaixo, Calazans fala da perseguição que sofre por causa de sua pesquisa de subliminares, da mitologia dos super-heróis e do uso dos quadrinhos na formação do senso crítico.

DEUS NO GIBI – Dentro das igrejas evangélicas brasileiras existe muita preocupação com as mensagens subliminares. Há pessoas que enxergam o diabo em quase tudo que não é explicitamente cristão. Você tem conhecimento disso?

FLÁVIO CALAZANS – Lamentavelmente. Há seitas na Internet abusando. Basta digitar “mensagem subliminar” e surgem diversos sites com as mesmas imagens e textos. Já soube de uma tentativa de linchamento de uma professora provocada por missionários de uma seita, e eles já tentaram calar-me até com processos criminais.

DEUS NO GIBI – Você poderia falar mais dessa pressão que sofreu por parte de grupos religiosos, pela sua pesquisa sobre mensagens subliminares?

FLÁVIO CALAZANS – Algumas seitas sempre tentam me calar, impedir que eu divulgue as pesquisas verdadeiras. Já tive muitos processos judiciais criminais destes auto-intitulados “homens de Deus”, “missionários”, “irmãos obreiros” e “bispos”, acusando-me de terrorismo com bombas, de usar satélites da NASA para perseguir os pastores e missionários da seita, de usar o Exército para intimidar os membros com tanques de guerra, e muitas outras barbaridades. Fui absolvido de todos os processos mas tive o aborrecimento de ser réu, da tentativa de intimidar-me. Estas denúncias deles são crimes contra o poder judiciário e são pecado de perjúrio contra a lei de Deus, pois levantam falso testemunho. Só falam de diabo, nada de Deus nos discursos deles. Deus não tem vez nas suas bocas e corações. E se o diabo te seduz com algo subliminar, isto vai contra o livre arbítrio, e sem livre vontade não há pecado, e então o diabo não pode levar tua alma. É um contra-senso o diabo usar subliminares, na verdade esta gente nunca estudou teologia pra falar estes absurdos!

DEUS NO GIBI – Houve um período, dentro da igreja evangélica brasileira, no qual as pessoas eram aterrorizadas pelas mensagens reversas ocultas nos LP’s, o “backward masking”. Até hoje há sequelas desse período, que sufocou a cultura dentro das comunidades cristãs. Que visão você tem do evangélico-médio e de sua relação com a arte e o entretenimento?

FLÁVIO CALAZANS – Não posso generalizar sem pesquisar cada seita, só sei que estas seitas do “backward masking” sempre gritam, ameaçam com inferno, exigem dízimos. Localizam-se em comunidades pobres e com pouca cultura, indefesas. Praticam um estelionato espiritual e usam errado o termo subliminar. E sabem que estão usando errado, pois subliminar sonoro é em nível sonoro diferente nada de invertido. Já publiquei vários artigos desmascarando isto, o ódio às fábulas de animais falantes e sua origem, as seitas neo-neo-pentecostais que envergonham os esclarecidos como Batistas, Metodistas, Presbiterianos, Luteranos, Calvinistas, etc, que são sérios e não se prestam a estas palhaçadas para explorar coitados indefesos. Uma ex-aluna minha quase foi linchada por tocar primavera de Vivaldi numa classe para relaxar os alunos estressados. O grupo de “povo de Deus” cercou a escola com garrafas de gasolina gritando “queima a bruxa”, “noiva de satan” e outras ignorâncias. O diretor teve de chamar o camburão para tirar a moça em choque e dizer aos evangélicos que ela estava sendo presa. Iam queimar a moça e a escola insuflados por um “missionário” muito conhecido na internet e que andou me processando também. Esta é a impressão que ficou em mim destas seitas, o que elas mostraram serem capazes. Tive de me mudar, pois atiravam animais mortos no meu jardim, invadiam a casa e quebravam o medidor de água e os vidros da janela, pisoteavam o jardim que minha avó cultiva com carinho, mataram meu cachorro a pauladas… enfim, deram muitas mostras de atitudes opostas a palavra, de não ter amor ao próximo, de não trazer o perdão, de ter Deus na verdade bem longe de seus corações.

DEUS NO GIBI – Como orientar os pais, que temem que seus filhos sejam vítimas de mensagens subliminares?

FLÁVIO CALAZANS – Todos somos vitimas de subliminares o tempo todo. Meu livro “Propaganda Subliminar Multimídia” fala disto. Ter medo e pagar uma seita não resolve nada, estudar e saber mais do assunto é o que ajuda. Há que se refletir antes das compras por impulso, refrear desejos e cortar supérfluos, ter educação para o consumo. Subliminar só pega quem fraqueja e só funciona com bem de conveniência, coisa barata, de compra por impulso.

DEUS NO GIBI – Você também tem um conhecimento grande de mitologia. Esses personagens e heróis que estão presente nos quadrinhos, na TV e no cinema, em nossa cultura pop, são o “folclore” do mundo pós-moderno? Quem já disse isso foi Denny O’Neill, da DC Comics.

FLÁVIO CALAZANS – Concordo, Batman, noturno, é um mito lunar, já o Super-homem tem a força vinda do sol, é um mito solar. São arquétipos do inconsciente coletivo, como dizia Carl Jung. Joseph Campbel fala disto em “O Poder do Mito”. Estas forças inconscientes sempre se manifestam, é uma necessidade coletiva do mito, do herói.

DEUS NO GIBI – John Shelton Lawrence e Robert Jewett defendem que essa figura super-humana que luta pela fé, esperança, crença, justiça e combate o mal é uma releitura da história judaico-cristã da redenção. Ou seja, voltamos às escrituras sagradas. É uma regressão maior que, por exemplo, o modelo proposto por Vladimir Propp na “Morfologia do Conto Popular Russo”. Então, sempre fazemos uma releitura de redenção?

FLÁVIO CALAZANS – Concordo na necessidade psíquica do mito protetor, a figura paterna ou materna. Na Mesopotâmia temos a epopeia de Gilgamesh, onde tem um dilúvio com um Noé chamado Uptnatchim, anterior à Bíblia; o Hércules grego, o Sansão bíblico, o Arjuna hindu… Em todos os povos temos isto.

DEUS NO GIBI – Você acredita que as tradições religiosas tem medo da figura do “mito”, dentro e fora da leitura da Bíblia? Se não existe comprovação histórica, por exemplo, da existência de Jó, podemos trazer outros mitos para o aprendizado religioso.

FLÁVIO CALAZANS – Subjetivamente, acho que depende da maturidade emocional ou intelectual da cada um. Há fundamentalistas que queimam tudo e ficam só com a Bíblia ou Corão. Lembra do califa que queimou a biblioteca de Alexandria? Ele disse: “Se estes livros dizem o mesmo que o Corão são inúteis e posso queimar, se dizem o contrário estão errados e devo queimar, de toda resposta serão queimados”. Pessoas estáveis, adultas, maduras podem saber de Uptnatchim e seu dilúvio, dos maias e seu dilúvio, entender metáforas. Outras são como criancinhas que precisam do Papai Noel trazendo presentes para se comportar, do coelho da Páscoa etc… Depende do desenvolvimento psicológico, da maturidade de cada um. Veja que na era Bush os Estados Unidos proibiram de falar de Darwin e da evolução nas escolas de vários estados.

DEUS NO GIBI – Você conhece muito bem a publicação de quadrinhos em outros países. Em quais já observou uma utilização maior deles como recurso pedagógico?

FLÁVIO CALAZANS – França, Espanha, Portugal. E no Japão todo mangá, fora o hentai, tem na lombada a série escolar recomendada e é paradidático. Espanha e Portugal tem histórias em quadrinhos com a vida de qualquer santo ou beato que você deseje, caderninhos a cores muito baratos. Os quadrinhos podem ajudar a aprender a ler e escrever, como descrevo no meu livro, e tem zero porcento de rejeição pelos alunos. Eu mesmo aprendi a ler em gibis. Em “História em Quadrinhos na Escola” proponho que os alunos façam histórias em quadrinhos em classe, mesmo que recortando Mônicas e Hulks dos gibis e os grudando em flanelógrafo, criando histórias que subvertem a violência. Olhe que o Batman comete mais crimes que o Coringa em cada história, é só contar. O Coringa furta uma joia, o Batman vai surrar informantes, invadir domicílios e empresas, colocar escutas em telefones, arrombar carros e cofres, espancar muita gente. Eu proponho que o aluno imagine que seu pai está vindo cansado do trabalho e o Batman o espanca e quebra seus dentes para obter a informação de um cara que joga sinuca com ele às vezes… Assim trago a realidade fascista violenta e cruel para a realidade do aluno, para ver o mal. Imagine o Homem-Aranha na janela do prédio vendo sua mãe tomar banho nua, o Hulk esmagando o carro usado que seu pai ainda está pagando, e assim por diante. É Paulo Freire libertando da ilusão do salvador mascarado.

Conheça mais sobre Flávio Calazans no site http://calazanista.blogspot.com.br/

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