ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

GIAN DANTON

FOTOGIAN

ENTREVISTA

Talvez seja um daqueles casos nos quais a criação sobressai ao criador. Gian Danton já é um nome reconhecido nos quadrinhos brasileiros e no meio acadêmico que estuda a nona arte. Por trás desse pseudônimo está Ivan Carlos, mineiro de Lavras, formado pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp). Não é possível dissociar um do outro. No amálgama está uma carreira de roteirista e escritor. É dele o livro brasileiro (e um dos poucos do mundo) dedicados a analisar e ensinar roteiros de quadrinhos. Morando em Macapá, onde trabalha como professor da Universidade Federal do Amapá, Gian Danton é uma figura premiada no universo das HQ’s. E explica que um dos problemas que enfrenta para o maior envolvimento com o mercado é o custo da viagem de avião. “Já me convidaram para vários gibicons, mas o preço da passagem sempre se torna um entrave”. Leia a entrevista a seguir.

GIANDANTON2DEUS NO GIBI – É raro encontrar no mundo – e o que diremos, então, no Brasil – um livro que trate de um assunto tão específico como o roteiro de histórias em quadrinhos. Qual a reação do público ao seu livro?

GIAN DANTON – A reação ao livro tem sido muito boa. Claro que não é um estrondo de vendas, até porque não é todo mundo que se interessa pelo assunto, mas mesmo assim muita gente entra em contato comigo e diz que gostou, que ajudou muito. Hoje mesmo um rapaz conversou comigo no Facebook e disse que pretende fazer mestrado sobre o assunto. Aliás, antes dessa versão impressa eu disponibilizei uma versão digital, lá pelo ano 2000, que serviu de referência para toda uma geração de roteiristas. Um dos roteiristas que se formou lendo o meu texto foi o baiano Marcos Franco, que faturou o prêmio Ângelo Agostini em 2011.

DEUS NO GIBI – Quando houve necessidade de se mudar para Macapá, pensou que poderia haver algum prejuízo no seu contato com as HQ’s? Muitos educadores que moram fora do eixo São Paulo – Rio podem enxergar isso como uma dificuldade para obter material didático e usar quadrinhos como ferramenta de educação.

GIAN DANTON – Eu comecei a fazer quadrinhos quando morava em Belém. Eu e o Bené, desenhista da DC Comics que assina Joe Bennett. Era muito difícil naquela época porque todo o contato tinha que ser feito via carta. Além disso, longe dos centros de produção, muitas vezes perdíamos oportunidades. Nós só sabíamos que uma revista nacional tinha sido lançada quando ela chegava às bancas de Belém. Hoje com internet é tudo muito mais fácil. Você tem acesso a muita informação e pode manter contato rapidamente com editores, artistas. Até para adquirir material se tornou mais fácil. Assim, compro muita coisa pela internet, inclusive em sebos.

DEUS NO GIBI – Temos tantos problemas de roteirização nos quadrinhos atualmente?

GIAN DANTON – A situação já foi pior. Na época da (editora americana) Image os roteiros não tinham um mínimo de profundidade, os personagens eram todos planos, unidimensionais. Era como um bolo com cobertura linda, mas sem recheio. E isso se espalhou até pelo Brasil. Hoje parece que existe uma revalorização do roteiro. Mas mesmo assim há quem escreva quadrinhos como quem escreve novelas, como é o caso do Brian Bendis. No Brasil há toda uma geração nova aí de grandes roteiristas. Eu não me espantaria se eles começassem a invadir o mercado internacional.

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“Exploradores do Desconhecido”, roteiro de GIAN DANTON e arte de JEAN OKADA

 

DEUS NO GIBI – Quem não gosta de ler livros pode escrever roteiros de quadrinhos?

GIAN DANTON – Em hipótese alguma. Todo bom roteirista de quadrinhos é um leitor voraz. É condição básica para escrever.

DEUS NO GIBI – Nesses anos de envolvimento com os quadrinhos, você observou alguma mudança de perfil no público de quadrinhos?

GIAN DANTON – O Brasil passou por uma mudança demográfica: deixou de ser um país de jovens e se tornou um país de adultos. Na década de 1980 o maior público consumidor estava na faixa de 10 a 20 anos. Hoje está na média dos 30 a 40 anos. Um dos resultados disso é a valorização de quadrinhos de luxo, vendidos em livraria. O problema é que estão esquecendo a criançada, que tem pouco dinheiro para comprar gibis e que frequenta bancas de revistas. Parece que só o Maurício de Sousa consegue ter uma verdadeira visão de marketing: ele quer atingir crianças, jovens e, agora, adultos.

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“Turma da Tribo”, de GIAN DANTON e RICARDO MANHÃES

 

DEUS NO GIBI – Se um professor tiver interesse em começar a usar os quadrinhos como ferramenta pedagógica, qual gênero deveria escolher – infantis, super-heróis, mangás ou históricas?

GIAN DANTON – Depende do público. Se for crianças, aconselho Turma da Mônica. Se for adolescente, mangás, heróis ou séries como a Turma da Mônica Jovem e Luluzinha Teen. O importante é conversar com os alunos e descobrir o que gostam de ler.

DEUS NO GIBI – O twitter, com seus 140 caracteres, é como um balão de fala dos gibis ou o roteiro de uma história em quadrinhos em constante desenvolvimento, mas sem desenho?

GIAN DANTON – Verdade. Escrever quadrinhos é cortar palavras. Você tem que ser muito bom para conseguir sua mensagem com pouquíssimo texto. Atualmente estou investindo em uma carreira literária e confesso que os anos escrevendo quadrinhos me atrapalham: sintetizar virou uma norma, de modo que procuro escrever o máximo com o mínimo.

Se quiser conhecer mais sobre a obra e o trabalho de Gian Danton comece pelo site
http://ivancarlo.blogspot.com

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