ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

GREG GARRETT

FOTOGREGGARRETT

ENTREVISTA

Por Fernando Passarelli

O que é melhor; um filme “de crente” ou filme “do mundo”? E se o filme não falar explicitamente sobre a Bíblia, ainda é pode “abençoar” o público? Para Greg Garrett, autor do livro “The Gospel According to Hollywood” (“O Evangelho Segundo Hollywood”), é possível aprender muito sobre Deus com os filmes de sucesso – mesmo aqueles que não falem dEle. E Greg já abre o livro elogiando “Pulp Fiction – Tempos de Violência”. Ou seja, vale até tiro, porrada e bomba. O foco do trabalho de Greg é o cinema americano, mas ele sabeGREGLIVRO que tem muita coisa boa pelo mundo: “Gostei muito de filmes recentes da Alemanha, da França e de outros lugares, mas eu só sou uma autoridade nos filmes que falam inglês”. Nos últimos anos ele trabalhou como professor da Baylor University, uma universidade batista localizada em Waco, no estado americano do Texas. Confira a entrevista a seguir:

DEUS NO GIBI – Havia um época em que, nas comunidades cristãs, qualquer filme cristão ruim era encarado melhor que um bom filme contemporâneo, que não tratava explicitamente de temas ligados ao evangelho. Esse conceito mudou?
GREG – Algumas pessoas mudaram, mesmo assim muitos cristãos na América continuam boicotando a maioria dos filmes de Hollywood e preferem ver um filme evangélico ruim, do que um bom filme secular. Um movimento emergente na Igreja tem colocado um grande foco no poder da cultura para falar com as pessoas, e muitos novos cristãos são mais progressistas nesse sentido. Porém, são raros os títulos, como “A Paixão de Cristo”, que alcançam tanto evangélicos como os católicos conservadores.

DEUS NO GIBI – No caso de “A Paixão de Cristo”, o estouro do filme de Mel Gibson significou a reconciliação da indústria do cinema com a Igreja, depois de tantos anos sem nenhum título religioso bem produzido? Outros sucessos vieram depois.
GREG – O Mel Gibson fez um filme para agradar os cristãos conservadores. Os líderes religiosos que assistiram o filme espalharam sua opinião ou trouxeram toda sua congregação ao cinema, e a coisa explodiu. Então, centenas de pessoas que normalmente não assistem aos filmes de Hollywood viram esse, algumas mais de uma vez. Eu acredito que o sucesso do filme foi mais uma questão de relações públicas que algo cultural ou religioso.

GREGPAIXAODEUS NO GIBI – Curiosamente, alguns cristãos conseguem ignorar a violência das narrativas do Velho Testamento – de olho na mensagem da vinda do Messias, mas não conseguem ignorar elementos de num filme, para destacar uma boa mensagem que ele possa trazer.
GREG – A violência no cinema é muito mais poderosa que a violência na Bíblia. As pessoas sentem isso e algumas tem reações viscerais. A linguagem e a sexualidade nos filmes só confirmam a opinião, que alguns cristãos têm, que o cinema é uma coisa pecaminosa e que eles não devem assistir os filmes. O cinema mostra um mundo sujo e desagradável, e não um lugar onde essas pessoas querem viver.

DEUS NO GIBI – É possível conciliar ou substituir musicais e audições, que temos nas igrejas, pela exibição de filmes, com a interpretação adequada?
GREG – Algumas igrejas e denominações já estão fazendo isso. Muitos cultos contemporâneos usam filmes e diversas igrejas tem sessões de cinema e discussões sobre filmes. Isso é muito atrativo para as pessoas. Frequentemente quando sou convidado para falar sobre cinema e fé eu me deparo com um grande público, porque as pessoas conhecem e gostam de cinema, mesmo que elas não saibam muito sobre fé. Se você tem condições de fazer isso como parte do seu ministério, numa Igreja, eu digo que sim. Qualquer ação que traga as pessoas para conhecer a Jesus é um fim valioso.

DEUS NO GIBI – Ações humanitárias de astros do cinema parecem ter mais impacto que a mensagem de muitos pregadores.
GREG – Foi São Francisco de Assis que disse: “Pregue todo o tempo, e quando necessário use as palavras”. Celebridades como Angelina Jolie e Bono Vox, que usam seus nomes para chamar a atenção do mundo para problemas que necessitam de solução, estão pregando através de suas ações e seus discursos.

DEUS NO GIBI – Por que é difícil para alguns cristãos acreditar que ensinamentos profundos podem existir em muitos filmes normais, comerciais – e não somente naqueles produzidos para “crentes”?
GREG – Eu acho que para alguns cristãos é mais fácil observar isso do que para outros. Muitos cristãos na América tem uma ideia muito limitada sobre encarnação e criação, e acreditam que as coisas desse mundo são naturalmente inferiores às coisas do céu, ou são pecaminosas. Desde que a natureza humana é considera caída e que as pessoas vivem num mundo pecaminoso, como pode Deus ser encontrado aqui? Eu acredito que Deus habitou e habita na sua criação, então nós podemos ver Deus junto com o que Ele criou, inclusive naquilo que o homem faz. Então eu penso que alguns filmes têm valores sagrados, se você souber procurar por eles, e muitas pessoas que não fazem parte de uma tradição religiosa podem ser inspiradas e confortadas pela santidade que experimentam na arte e na cultura.

DEUS NO GIBI – Tem algum filme não-cristão de sua preferência, que você acredita que traga muitos ensinamentos do evangelho?
GREG – Um dos meus favoritos é “Magnolia”, de Paul Thomas Anderson, um filme que poderia ser muito desafiador para muitas pessoas porque fala da importância do amor e do perdão. Eu acho que é realmente um filme cristão, com um dos meus personagens cristãos favoritos, interpretado por John C. Reilly.GREGMAGNOLIA

DEUS NO GIBI – Para finalizar, como seria uma lista dos filmes que representariam os quatro evangelhos?
GREG – Seria a seguinte… Mateus: “Matrix”; Marcos: “Rebeldia Indomável”; Lucas: “Superman Returns” e João: “E.T.”. Eu acredito que esses quatro filmes dão um sentido perfeito do Jesus que nós encontramos nos evangelhos.

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