ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

HENRIQUE MAGALHÃES

KPAFOTOHENRIQUE

ENTREVISTA

Por Fernando Passarelli

Antes da Internet, a produção independente tinha nos fanzines a sua chance de sucesso. Jornais, revistas e livretos eram feitos em folhas de sulfite, reproduzidos em copiadoras e trocados pelo correio. Só assim era possível conhecer autores que não tinham espaço nas grandes editoras. Naqueles anos, Henrique Magalhães conquistou o respeito pelo material que publicava – a revista em quadrinhos “Maria” e os fanzines “Nhô Quim” e “Marca de Fantasia”. Na faculdade, defendeu uma dissertação sobre fanzines e quadrinhos no Brasil e uma tese sobre fanzines da França e Portugal. Em 1995 fundou uma editora independente dedicada aos quadrinhos e cultura pop. Muito antes do financiamento coletivo, a “Marca de Fantasia” já trabalhava com esquema de produção artesanal, distribuição própria e pequenas tiragens.

DEUS NO GIBI – Os autores que a “Marca de Fantasia” publica teriam outro espaço no mercado, outra forma de transformar seus projetos em realidade?

HENRIQUE MAGALHÃES – Teriam, se as editoras comerciais investissem ao menos um pouco em novos autores. Os trabalhos que publico são inovadores, o que limita o alcance do público, mas é preciso trabalhar com uma visão de futuro, na formação do público e no desenvolvimento da produção dos autores, o que os editores comerciais não estão dispostos a fazer.

DEUS NO GIBI – Como foi o começo do trabalho da editora e a negociação com distribuidoras? Houve algum tipo de dificuldade, pelo ineditismo dos autores e pelo gênero dos títulos?

HENRIQUE MAGALHÃES – A editora foi criada em 1995, quando estruturei um projeto editorial. Anteriormente eu lançava minhas próprias revistas e fanzines, o que me deu um certo domínio no modo de produção. Não trabalhamos com distribuidoras, nossa produção é divulgada pela internet, vendida diretamente aos leitores e enviada pelos Correios. Isso reduz o custo em quase 50% e me permite fazer pequenas tiragens progressivas. Foi uma estratégia para tornar o material mais acessível e poder diversificar e ampliar o número de títulos.

HENRIQUE2DEUS NO GIBI – Você desenvolve esse trabalho na Paraíba, longe do eixo São Paulo – Rio. Que desvantagens e vantagens você vê nessa localização?

HENRIQUE MAGALHÃES – Hoje não é preciso migrar para os grandes centros para desenvolver seu trabalho artístico. A comunicação global nos abre portas inimagináveis há poucos anos. Sem sair da Paraíba, tenho contato com autores e leitores de várias partes do Brasil e até de outros países. Desenvolvo uma sólida amizade com alguns autores argentinos e franceses, além de uma relação pessoal muito estreita e afetuosa com os autores que publico. A única desvantagem de estar longe dos grandes centros é não poder participar dos eventos que se promove aí, como as exposições, palestras, premiações e o próprio contato direto com os amigos.

DEUS NO GIBI – A “Marca de Fantasia” é uma editora independente, sem fins lucrativos. Qual a fórmula mágica para se sobreviver dessa forma?

HENRIQUE MAGALHÃES – A fórmula mágica é o prazer em editar e fazer circular trabalhos tão interessantes como os dos novos autores. É isto o que me move a fazer um trabalho voluntário e sem interesses comerciais. O espírito comunitário pra mim é um valor incontornável. Se fossemos mais companheiros e desenvolvêssemos mais projetos juntos, certamente estaríamos num outro nível de civilidade. Esse trabalho só é possível porque tenho minha fonte de renda à parte. Sou professor da Universidade Federal da Paraíba e incluo a “Marca de Fantasia” como uma de minhas atividades de extensão. A viabilidade da editora se dá pela parceria entre editor, autores e leitores. Se não viso o lucro, ao menos os custos devem ser cobertos com as vendas, para que eu possa manter o ritmo de produção.

HENRIQUE1DEUS NO GIBI – Os seus fanzines sempre foram uma referência, pela qualidade. Naqueles anos ‘de ouro’ dos fanzines havia um respeito maior pela produção cultural alheia. Parece muito distante do que vemos hoje com a Internet, com a proliferação dos “scans”, a pirataria de quadrinhos e as críticas mordazes. Isso ameaça o trabalho de uma editora pequena, como a “Marca de Fantasia”?

HENRIQUE MAGALHÃES – Já tive um dos livros que editei completamente escaneado e disponibilizado na internet. Isso me surpreendeu, mas não me assustou. Esse trabalho de socialização do conhecimento e da cultura é um dado próprio de nossa era de comunicação globalizada. Não tem como impedir isso, por mais que a indústria cultural esbraveje contra. Os meios técnicos para se fazer as cópias estão à disposição de todos, então porque não aceitar que se partilhe tudo? Se fosse para impedir o que chamo de “partilhamento”, e não de “pirataria”, que não se criassem os meios. O contraditório é que a mesma indústria que cria os recursos para se fazer as copias é a que tenta impedir que se copie. Eu mesmo já coloquei edições inteiras de meu fanzine “Top! Top!” na internet, em formato PDF. Não me importo que se veja o conteúdo do que edito. Mas se o leitor quiser a edição impressa, bem acabada, com capa colorida e plastificada, vai ter que comprar, pagando o custo de produção.

HENRIQUE3DEUS NO GIBI – Você também ajudou a criar uma Gibiteca. Que dica você daria para quem deseja montar uma, para divulgar os quadrinhos?

HENRIQUE MAGALHÃES – De início, ter uma boa coleção de gibis, diversificada em gênero, origem e cronologicamente. Mas se não tiver tudo isso, com algumas revistas já dá pra começar o acervo, que deve crescer com a colaboração dos leitores. Se o trabalho for bem estruturado, com uma boa sala e disponível ao público, há leitores que doam suas coleções com o intuito de socializá-las. Esse é mais um dado positivo de se abrir uma gibiteca, o de tornar público e acessível as preciosidades que se costuma guardar de forma egoísta. O resultado é gratificante. Nascem boas amizades e se geram conhecimento a partir da criação de uma gibiteca.

 

Conheça mais sobre a editora Marca de Fantasia no site www.marcadefantasia.com.br

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