ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

RENATA FARHAT

FOTORENATAFARHAT

ENTREVISTA

Por Fernando Passarelli

No começo dos anos 1940, quem tinha um aparelho de televisão em casa, nos Estados Unidos, só podia assistir programas em preto-e-branco. Nessa época, Walt Disney já era o milionário pai do Mickey e preparava as malas para sua primeira viagem ao Brasil. Por aqui, o que fazia sucesso ainda era o rádio. A música mais tocada era “Que

saudade da Amélia”, de Mário Lago – “Amélia é que era mulher de verdade…” Nem Coca-Cola se vendia por essas bandas. Mas o jornalista Adolfo Aizen, fundador da editora EBAL, já estava encantado com uma publicação americana recém-lançada. Uma revista que trazia obras da literatura e trechos da Bíblia adaptados para os
quadrinhos. Aizen gostou tanto da Classics Illustrated que fez uma cópia brasileira, a RENATAEDICAOEdição Maravilhosa.

Essa tradição de transformar os clássicos em narrativas visuais continua até hoje. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Renata Farhat Borges responde por um desses projetos. Com uma trajetória de mais de vinte anos como editora, ela está por trás da Peirópolis, que tem se destacado na publicação de clássicos em quadrinhos. Nessa entrevista, ela fala sobre o processo de seleção dos títulos publicados e dos desafios de aproximar o jovem estudante das quadrinizações literárias. “É necessário investir na formação do mediador de leitura para que ele possa aproveitar ao máximo a disponibilidade dos acervos (de quadrinhos) nas escolas. “, explica. Confira a seguir.

DEUS NO GIBI – Você participou do livro “Quadrinhos e Literatura – Diálogos Possíveis”, com um estudo sobre a Classics Illustrated. Como surgiu o seu interesse por essa publicação?

RENATA FARHAT – Confesso que não conhecia a Edição Maravilhosa até quatro anos atrás. Começamos a quadrinizar clássicos e demos os primeiros passos na coleção Clássicos em HQ pela Editora Peirópolis de forma intuitiva, sem olhar para o passado, sem qualquer perspectiva histórica desse tipo de dispositivo editorial. Não imaginava a existência, por exemplo, de uma coleção tão emblemática como a americana Classics Illustrated, que foi publicada em 36 países e 26 idiomas. No Brasil, foi Adolfo Aizen, da Ebal, pioneiro na publicação de quadrinhos, que trouxe para cá a coleção com o nome de Edição Maravilhosa, e nela incluiu a quadrinização de obras clássicas brasileiras, como as de José de Alencar. A descoberta me encantou e até hoje me fascina a pesquisa na qual me lancei desde então, pela ECA-USP, com o objetivo não apenas de conhecer a trajetória desse dispositivo cultural no século XX no Brasil, mas mapear as quadrinizações publicadas neste século. Os primeiros resultados desta pesquisa acadêmica me fazem crer que não estou sozinha como editora que se debruça sobre o cânone literário das nações para selecionar obras para quadrinização.

DEUS NO GIBI – Quantos títulos da série Clássicos em Quadrinhos sairam pela Peirópolis? Qual tem sido a reação do público-leitor?

RENATAPEIROPOLIS2RENATA FARHAT – Já saíram 14 títulos e lançaremos até abril de 2016 no mínimo mais 3 quadrinizações: “Fausto”, de Goethe, “Os sofrimentos do jovem Werther”, também de Goethe, “Macunaíma”, de Mário de Andrade, dentre outros. Nosso maior contato com o público leitor é nos eventos, feiras do livro etc. E é realmente uma delícia
presenciar o encontro do leitor com a coleção. É um misto de espanto e encantamento!

DEUS NO GIBI – Como é feita a escolha dos títulos e dos autores que irão desenhá-los?

RENATA FARHAT – Este é o encanto da trajetória da coleção. De início, fizemos uma lista das obras a quadrinizar, mas aos poucos fomos percebendo que o trabalho de quadrinização de uma obra clássica é resultado das impressões de leitura de um artista gráfico que é, antes de mais nada, uma apaixonado pela obra. Percebemos que era mais importante perguntar aos quadrinistas qual a obra mais importante na sua formação como leitor e então convidá-lo a quadrinizá-la. Lógico que houve ocasiões em que propusemos ao quadrinista que ele fizesse a sua primeira leitura de uma obra clássica – mas a opção por quadrinizá-la ou não dependia principalmente do quanto o artista havia se envolvido ou sido tocado pela leitura. Depois, fui à universidade mais uma vez buscar diálogo, referências e caminhos de reflexão. E a conclusão a que cheguei é que intuitivamente eu havia feito a opção mais acertada para a coleção, Ou seja, ao invés de impor uma lista de obras que nós – editores e reescritores da cultura, como uma comunidade – julgávamos importantes para a formação cultural da geração atual, ter uma escuta sensível às obras que os artistas estavam lendo era como que validar uma nova lista de obras que os leitores contemporâneos consideravam relevantes, pois haviam se proposto a buscá-las, de uma forma ou de outra, em sua trajetória como leitores.

DEUS NO GIBI – Qual o papel da escola para fazer com que as histórias em quadrinhos sejam vistas como ferramentas para se aprofundar em outros tipos de arte – desenho, literatura, cinema etc?

RENATA FARHAT – A escola de hoje tem desafios homéricos na formação do leitor literário. Depois da universalização do acesso à educação, todos sabemos que deve se seguir a elevação da qualidade do ensino. A escola de hoje ainda se mostra incapaz de formar um jovem com capacidade de ler e escrever adequadamente, como se pode verificar nos resultados das redações do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Várias metodologias e dispositivos de avaliação têm sido propostos desde a década de 90 e percebe-se a ampliação do conceito de letramento nas políticas públicas que convergem para a formação do leitor e da competência leitora nos jovens que saem do ensino médio. Nós que produzimos clássicos em quadrinhos acreditamos que esse dispositivo, por sua capacidade quase imediata de empatia com o jovem, emprestada pela linguagem visual dos quadrinhos, pode conquistá-lo o suficiente para que ele tenha seus primeiros contatos com obras que representam a identidade de muitas culturas e nações, com mitos literários que ajudam a entender e explicar o mundo, com enredos que são criados e recriados a cada nova geração de leitores.

DEUS NO GIBI – Qual resistência é mais difícil de vencer – a do aluno, em se dispor a ler uma HQ baseada num livro, ou a do professor, quando tenta comparar as versões originais de um livro com sua adaptação em quadrinhos?

RENATA FARHAT – Os clássicos em quadrinhos têm chegado às bibliotecas das escolas por meio do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), a partir de 2006. Há pesquisas acadêmicas sobre a recepção do acervo do PNBE nas bibliotecas que apontam para a necessidade mais do que urgente de formação do mediador de leitura, a fim de prepará-lo para o desafio de usar bem o acervo distribuído por meio do programa. Em alguns estudos, percebemos que os clássicos em quadrinhos são lembrados espontaneamente por alunos frequentadores de bibliotecas. Mas não temos estudos que nos ofereçam conhecer se os professores na sala de aula indicam os clássicos em quadrinhos como recurso de aproximação do jovem da leitura – seja ela a leitura em quadrinhos propriamente dita, ou a leitura da obra clássica por meio da quadrinização. Entendemos que a distribuição pura e simples do livro, embora tenha sido um avanço fundamental nas políticas de formação do leitor, não basta por si só, é necessário investir na formação do mediador de leitura para que ele possa aproveitar ao máximo a disponibilidade dos acervos nas escolas.

DEUS NO GIBI – O que anda lendo de quadrinhos e o que recomenda?

RENATAPEIROPOLIS1RENATA FARHAT – Os quadrinhos que li e gostei recentemente: a quadrinização de “Dois irmãos”, por Fábio Moon e Gabriel Bá, pela capacidade de me trazer de novo a obra matriz, “Cumbe”, de Marcelo d’Salete, pela liberdade na arte, “Tungstênio”, de Marcello Quintanilha, com sua exploração bem cinematográfica da linguagem dos quadrinhos, “Você não é minha mãe”, de Allison Bechdel, pelas infinitas camadas de leitura que proporciona, a trilogia “Yeshua”, de Laudo Ferreira, por captar lindamente em sua versão da vida de Jesus Cristo, a força da mensagem de amor.

DEUS NO GIBI – Muitos professores usam dinheiro do próprio bolso para investir em recursos na sala de aula, no Brasil. E não são todas as escolas que conseguem receber livros doados pelo governo. Se tivesse que recomendar uma bibliografia mínima para o uso de quadrinhos em sala de aula que aula, que obra teórica e qual adaptação literária indicaria?

RENATA FARHAT – Nessas condições, eu sugeriria e leitura de “Desvendando os quadrinhos”, de Scott McCloud, e a quadrinização de “Os Lusíadas”, por Fido Nesti, que, juntamente com “Dom Quixote em Quadrinhos”, é a quadrinização de mais sucesso na coleção Clássicos em HQ da Peirópolis, e a mais adotada em escolas particulares de todo o País. Para convencer os educadores de que há algumas premissas básicas sobre o trabalho com clássicos em quadrinhos, nós editamos o catálogo “Clássicos em HQ”, que tem três artigos teóricos: um sobre a importância de ler os clássicos; outro sobre a história da quadrinização de clássicos no Brasil, mostrando que a moda é antiga, e outro sobre as relações entre a obra literária e a quadrinização com base no conceito de tradução. Além disso, há entrevistas com os quadrinistas dos 14 títulos já lançados pela coleção, biografias dos artistas e dos autores clássicos que eles escolheram adaptar, e depoimentos sobre o processo de leitura e adaptação da obra clássica. Além dos 1,5 mil exemplares impressos, que já se tornaram item de colecionador, a versão digital está disponível em

http://www.editorapeiropolis.com.br/2013/12/02/classicos-em-hq/

 

Para conhecer mais dos títulos publicado pela Editora Peirópolis, visite
http://www.editorapeiropolis.com.br/

 

Baixar em PDF