ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

VALÉRIA FERNANDES

ENTREVISTA

Por Fernando Passarelli

Para muitos alunos, Valéria Fernandes pode ser a professora dos sonhos. É doutora em história, especializada em Idade Média, fã de seriados e cinema, e uma das maiores conhecedoras de mangá e anime do Brasil. Imagina só quanto repertório para fazer uma aula cheia de conteúdo e atraente! Cristã batista, Valéria tem uma extensa produção acadêmica. Nessa entrevista, ela explica as características básicas de um mangá, apresenta dicas valiosas para quem produzir esse gênero de quadrinhos e fala sobre a resistência às HQs em sala de aula – por parte de professores e estudantes.

DEUS NO GIBI – Um dos objetos de sua pesquisa são os shoujo mangá – voltados para um público jovem, feminino. De que forma esse tipo de história pode contribuir para formação das meninas e jovens que leem quadrinhos?

VALÉRIA FERNANDES – Considero que todo quadrinho, na verdade, toda e qualquer mídia, é pedagógica. Não no sentido tradicional do termo que associa práticas educativas ao ambiente escolar, mas de forma mais ampla. Quadrinhos, sejam eles quais forem, ensinam sobre muitas coisas, desde valores, até conteúdos acadêmicos. Shoujo Mangá, independente de seu gênero (romance escolar, histórico, ficção científica, musical etc) normalmente tratam de sentimentos, de como se relacionar com o outro, não somente o ser amado, mas com os amigos, a família. Outra característica marcante é o fato da maioria das protagonistas serem adolescentes. Daí, ainda que em outra cultura, ainda que em um ambiente ficcional, as experiências, algumas delas, são compartilhadas de certa forma, universais.

DEUS NO GIBI – Qual título brasileiro se encaixa, ou melhor se aproxima, dessa categoria?

VALÉRIA FERNANDES – Faz tempo que deixei de ser purista, mas, a rigor, mangá é o quadrinho feito no Japão. Esticando a corda, a gente pode dizer que mangá é um tipo de quadrinho que domina aspectos da narrativa e outros traços presentes nos quadrinhos japoneses. Só que há um fator importante a se levar em conta: no Japão, quadrinhos são produzidos de forma industrial, aqui, não. Feitas essas ressalvas, quem mais se aproxima do que é produzido no Japão, especialmente, quando se fala de shoujo, é o pessoal do Studio Seasons. Apontaria a adaptação de “Helena”, de Machado de Assis, como um bom exemplo, dentro das limitações estabelecidas.

“Helena”, do Studio Seasons

DEUS NO GIBI – Levando em conta o interesse da atual geração pelos mangás, por que existem poucos títulos com conteúdo cristão?

VALÉRIA FERNANDES – Há ainda uma resistência grande ao quadrinho em si. Se formos procurar nas grandes livrarias cristãs, é raro encontrarmos quadrinhos, sejam eles de qualquer formato. Há livros ilustrados em grande quantidade; quadrinhos nem tanto. Daí, não acho que o problema seja o mangá. O que não existe é uma indústria nacional de quadrinhos, menos ainda, nos meios cristãos. Material importado, e eu nunca fui pesquisar sobre isso, talvez nãos seja abundante, também. Daí, ainda que fosse uma oportunidade e tanto, afinal, os jovens se interessam por quadrinhos e por mangá especificamente, as editoras não invistam no nicho.

DEUS NO GIBI – Você recomendaria algum mangá de conteúdo cristão, daqueles que existem no mercado?

VALÉRIA FERNANDES – Não trabalho com quadrinhos cristãos. Na verdade, fiz um artigo sobre hagiografia em quadrinhos, material antigo, no geral, coisa feita pela EBAL. Tenho, portanto, pouca familiaridade e até interesse por materiais do tipo. Agora, há alguns materiais no mercado brasileiro que trazem “mangá” no título. Falando francamente, alguns que olhei tem traço ruim, narrativa ruim, e usam “mangá” no título somente para angariar a atenção dos interessados por quadrinhos japoneses. De qualquer forma, o material que me pareceu mais interessante, como mangá, foram os títulos lançados pela Editora Vida Nova: “Mangá Messias”, “Mangá Metamorfose”, “Mangá Motim”, “Mangá Mélek” e “Mangá Mensageiros”. Eu tentei rastrear sua origem, infelizmente não tenho nenhum deles em casa, mas parece coisa feita por encomenda no Japão por editora norte americana. Não são desenhistas de ponta, mas, pelo menos, dominam a narrativa e sabem fazer mangá. Queria realmente ver bons materiais cristãos em quadrinhos que fugissem do proselitismo raso.

DEUS NO GIBI – Ainda existe resistência aos quadrinhos, por parte dos leitores?

VALÉRIA FERNANDES – Tive vários alunos nos últimos anos que não tinham familiaridade com quadrinhos e traziam esses (pre)conceitos. Professores reclamam de alunos e alunas lendo quadrinhos durante a aula, ao invés de se aproveitarem desse gosto para ajudar na sua própria prática em sala de aula. Mas eles e elas também não são leitores de quadrinhos, guardam no máximo as lembranças remotas da infância… Não somos uma nação de leitores, livros são caros e quadrinhos são livros. Junte-se a isso os (pre)conceitos arraigados contra essa mídia e temos aí uma série de barreiras a superar.

DEUS NO GIBI – Entre os títulos de mangá à venda hoje, quais você indicaria aos professores e para qual aplicação?

VALÉRIA FERNANDES – Eu sou professora de História. É possível, por exemplo, utilizar Rurouni Kenshin para falar de Revolução Meiji. Adolf, Gen Pés Descalços, 1945, Zero Eterno, podem ser usados para discutir questões relativas à II Guerra Mundial. Vitamin pode ser usado para debater sobre bullying. Há bons títulos disponíveis e mesmo materiais aparentemente sem “função” pedagógica podem ajudar a aprender alguma coisa.

DEUS NO GIBI – É mais difícil aplicar as HQs nas disciplinas ou convencer alguns professores sobre o potencial dessa mídia?

VALÉRIA FERNANDES – Convencer os professores, sem dúvida. Gerações de professores cresceram sem ler quadrinhos para além de Turma da Mônica e Mafalda. Alguns, que iam além, escondiam seu gosto por HQs, porque, bem, é coisa de criança, de desocupado. Os mais velhos podem ser ainda da geração que acreditava que quadrinhos corrompiam a juventude. Falta familiaridade com a mídia e perdemos grandes oportunidades com isso.

DEUS NO GIBI – Qual é a dica de ouro para quem quer fazer mangá?

VALÉRIA FERNANDES – Ai de mim… Takemiya Keiko, acho que foi ela, uma das grandes mangá-kas de todos os tempos, disse que se você não consegue resumir em cinco linhas a sua história, ela não é uma boa história. Será que é assim mesmo? Talvez você simplesmente não saiba contá-la. Mangá é roteiro e desenho, nem todo mundo domina os dois fundamentos. Eu recomendaria não forçar a barra e buscar uma parceria. Também recomendaria que a pessoa, ao se decidir a contar uma história, usasse o coração, os sentimentos, mas, também, que buscasse estudar não somente roteiro e desenho, mas o período histórico, as tecnologias da época, o lugar, as leis da ciência envolvidas… Enfim, o que quer que fosse o caso para que sua história pudesse ser rica e bem fundamentada.

DEUS NO GIBI – Se você pudesse ter um super-poder, qual seria?

VALÉRIA FERNANDES – De ser capaz de lembrar de tudo, sem esquecer detalhes.

Para conhecer mais o trabalho da Valéria visite o Shoujo Cafe.

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