ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

FEROMÔNIOS, ALGORITMOS E PÚLPITOS

HERA VENENOSA

Hera inglesa, hera verdadeira, hera venenosa ou, simplesmente, hera. O nome científico é Hedera helix. É uma planta ornamental, da família Haraliaceae, muito usada em arranjos ornamentais e cercas vivas. A característica dela é a toxicidade. Qualquer parte, se tocada, pode provocar irritação oral e ocular, coceira, dificuldade para engolir e até para respirar. Nos casos mais graves, o toque da hera afeta o funcionamento dos rins e o sistema neurológico.

Nas histórias em quadrinhos do Batman, a Hera Venenosa é a bióloga Pamela Isley, que se dedica a defender todo o ecossistema do planeta – mesmo que, para isso, tenha que cometer atos terroristas. A Hera, dos gibis, consegue se comunicar com as plantas e influenciar o comportamento delas. Estimula o crescimento de qualquer árvore, flor ou grama. Pode até fazer um jardim florescer no meio do deserto. Mas a sua habilidade mais ameaçadora é a capacidade de controlar as atitudes de qualquer pessoa pela produção de feromônios – aquelas substâncias químicas que promovem atração sexual.

A hera venenosa verdadeira.

Basta um beijo ou um toque de pele para qualquer ser humano – por mais resiliente que seja – obedecê-la. Pode ser um poderoso meta-humano ou um rude capanga do crime; ninguém consegue resistir. Batman e outros já descobriram esse risco e evitam qualquer aproximação de Pamela sem a proteção adequada.

O poder da Hera Venenosa é como os algoritmos das internet. Você não percebe que estão lá, agindo, até que influenciem totalmente a sua navegação.

Nem precisa de um beijo.

Basta um toque virtual. É só clicar na pesquisa sobre um produto, uma viagem ou uma dúvida e logo suas redes sociais serão inundadas de sugestões sobre o assunto. Até os resultados de suas buscas serão influenciados. Como disse o cronista Antonio Prata, é capaz de você escrever “ser gauche na vida”, numa referência a Carlos Drummond de Andrade, e ficar o resto da vida recebendo ofertas de tinta guache.

“Faça o que eu ordeno, eu mando aqui!” – diz a Hera Venenosa.

“Comporte-se como eu sugiro, eu sei o que você quer!” – diz o algoritmo.

E a igreja? A igreja parece uma mistura da Hera Venenosa com os algoritmos.

Atrás de um púlpito, frequentemente alguém vai tentar dizer a você o que fazer, como fazer e qual o castigo que sofrerá se desobedecer.

“O cristão tem que ofertar! E tem que dar tudo! E se não der, vai perder o que tem!”

“Tem que vir todo domingo! Bem-vestido! E se não cantar direito, se não chorar, se não se emocionar, vai sofrer!”

“Se você desobedecer, Deus vai ter amar menos! E vai ser expulso da comunidade, porque aqui as regras são assim!”

Sabe o que é pior? É que essa estratégia do mal não é improvisada, uma fala impensada. É um arranjo intencional. Porque alguém pensou em criar uma organização que funcionasse com base no medo e no rigor da lei. Gente que, assim como os algoritmos das redes sociais, percebeu do que o povo cristão gosta, como se comporta e de que forma pode ser ‘fidelizado’. Exatamente como acontece no mundo dos negócios, do marketing.

Então, antes da cobrança, aparece um ambiente desenvolvido para agradar – e tem para todo gosto. Tem aquela comunidade com luz indireta, penumbra e até gelo seco; e tem outra com muita luz branca. Tem igreja que só louva com hinos tradicionais, tem outra que só com “atmosferas da adoração”. Aqui, é com liturgia e um senta-e-levanta sem fim. Ali, é na base da informalidade. Num lugar, se canta e se dança de olhos fechados. No outro, só o ombro pode subir, no ritmo do piano. Nessa aqui, pode beijar, vestir o que quiser e beber até cair no chão. Na outra, só um futebol de domingo já é garantia de ir pro inferno.

E tem gente que gosta dessa vida em comunidade – tanto numa, como na outra. Cristãos que já não conseguem se comportar longe do rigor absoluto das regras – ou sem a flexibilidade delas. Irmãos e irmãos que sentem, sinceramente, que o papel da igreja é agradá-los, desenvolvendo um conjunto de regras que vá de encontro com aquilo que acreditam.

Mesmo que não haja base bíblica alguma…

Assim, a igreja cristã vai vivendo – como os algoritmos da internet e os feromônios da Hera. Cercando, hipnotizando. E iludindo, fazendo as pessoas se sentirem felizes, satisfeitas.

Totalmente diferente daquilo que Deus nos ensinou.

É óbvio que o Senhor poderia obrigar toda humanidade a seguir Jesus conforme aquilo que Ele, o supremo Criador, desejasse. Poderia ainda modificar o coração do sumo-sacerdote Anás. E até influenciar o julgamento de Pilatos. Mas não fez nada disso.

Cristo disse que jamais vai arrombar a porta de um coração, obrigando que alguém O aceite.

Deus também poderia inundar a nossa rotina só com aquilo que nos faz bem. Estaríamos protegidos, isolados! Numa bolha… Mas não fomos chamados para viver assim. Pedro também caiu nessa ilusão. Achava que poderia permanecer, pra sempre, ao lado de Cristo, Moisés e Elias. Cada um em uma tenda! (Mateus 17:4). Ficou tão empolgando que perdeu a razão.

Não só ele. A igreja cristã também. Não existe evangelho sob medida, nem liderança para agradar a todos. E se o povo de Deus precisa ser influenciado é na busca de justiça social e da transformação desse mundo. Sem hipnose hormonal, sem inteligência artificial.

Baixar em PDF