ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

“IMPERIUS REX”

NAMOR

Num planeta formado por 3/4 de água, fica difícil negar que Namor esteja entre os seres mais poderosos.

Imperador de Atlântida, um reino nas profundezas dos mares, ele tem força sobre-humana forjada pela vivência em grandes profundidades, sob intensa pressão; habilidade de se comunicar com peixes – e comandá-los; capacidade de vôo (provida por um par de asas no pés… sem comentários) e uma raiva natural, contra todos que vivem na superfície.

É difícil até entender contra o quê Namor se revolta. Se está debaixo d’água, reclama, com razão, da poluição lançada pelos seres humanos no oceano – e lá vai ele declarar guerra…

Se está na superfície, reclama da invasão de Atlântida pelo adversário Atuma, e lá vai ele partir para a briga. Na cara dura, fica dando em cima das mulheres e não se cansa de dizer que é o mais forte, o maior líder, o mais invencível. Quanto tentam dialogar com ele, o rei de Atlântida geralmente… parte pra briga!

Namor é um “mala”, pra falar o mínimo. Difícil achar quem vá com a cara dele. O personagem foi criado desse jeito, para incomodar mesmo. Nunca esboça um sorriso, não reconhece a necessidade de ajuda, não se cansa de humilhar as pessoas.

Até o seu grito de guerra demonstra soberba – “Imperius Rex” ou “O Rei do Império”, numa tradução livre. Ah tá, tá bom. Nem seus parceiros de luta parecem levar isso muito a sério. Na melhor das hipóteses, evitam contrariar o moço.

O resultado é que sempre está sozinho, mesmo quando comanda um exército pelos oceanos. Ninguém fica ao seu lado por amizade ou prazer da companhia. Tão somente por respeito ou medo. Quando está debaixo d’água, é uma força de destruição, a fúria encarnada.

Já na superfície, Namor corre risco de morrer. Ele não consegue ficar tempo demais longe da água, sem perder suas forças. Desidratado, enfraquece. É preciso que seu corpo seja molhado, nem que seja com um copo d’água, para resistir.

De um certo ponto de vista, há muito de Namor nos seres humanos. Quando estamos dentro do nosso reino, do nosso oceano, temos a coragem necessária para encarar os inimigos e a força descomunal para comandar um exército. “Imperius Rex” gritamos também, e partimos para o ataque.

Longe do nosso reino – seja ele trabalho, escola, lar, família, bairro, cidade, país, igreja – é difícil manter a aparência por muito tempo. Enfraquecemos, “secamos”, e não conseguimos sustentar essa condição.

A criança muda de endereço e passa da posição de capitão do time de futebol da rua para a reserva dos desconhecidos. O profissional em ascensão na carreira troca de emprego e terá que provar sua capacidade diante da nova chefia. A mãe, acostumada à rotina na pequena cidade, terá que se adaptar à limitações e pressões que uma metrópole impõe à recém transferida família.

Com o tempo, todos podem se recuperar, “hidratar”, e voltar ao ponto onde estavam. Mas não será a mesma coisa, não estarão no mesmo reino de antes, terão que se adaptar.

Namor também passou por isso, quando foi expulso de Atlântida. Obrigado a vagar pelos oceanos, sem pátria, sem súditos, sem um propósito, o rei teve que refletir sobre as suas atitudes. E até tentou melhorar…

Que lições tiramos? A liderança deve ser exercida com sabedoria, sem soberba. Ninguém gosta de viver comandado por um Namor – pai-Namor, mãe-Namor, irmão-Namor, parceiro-Namor ou líder-Namor. Gente orgulhosa, dona da verdade, explosiva, inflexível. Nessa relação, tudo sempre vai acabar em briga – como nas histórias em quadrinhos.

Em segundo lugar, viver como Namor é reinar num mundo próprio. Fora dele, o risco é de morte em pouco tempo, se não houver ajuda. Precisamos uns dos outros, precisamos aprender a receber os estrangeiros em nosso mundo e a sermos recebidos no mundo deles.

Por último, se nossas origens são boas, não há vergonha na dependência ou ligação com elas. Qualquer um se sente “secando” longe da família ou dos amigos por tempo demais. Parece que a bateria está chegando ao fim, as energias desaparecendo. Olhar fotografias não basta, reviver lembranças na mente não adianta. Então, é preciso “um copo d’água”, como uma ligação telefônica, uma mensagem no computador ou – o melhor – uma visita pessoal.

Quem sabe até um mergulho mais profundo, uma grande reaproximação, para “hidratação total” da alma. Ao contrário do Namor, passar por isso não é nossa fraqueza. É nossa força.

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