ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

PIZZA DO QUE, MESMO?

HUGUINHO, ZEZINHO E LUISINHO

 

Houve uma época em que as pizzas só podiam ser de um sabor.

Acredite, era assim no passado.

Não existiam muitas opções: muçarela, calabresa, atum e uma meia dúzia de outros sabores, no máximo. E era preciso um acordo entre as pessoas: “Hoje todo mundo vai comer pizza de… muçarela!” Assim mesmo. As primeiras que abriram no Brasil só estavam acostumadas a oferecer um sabor por vez. Se fossem várias pessoas à mesa, até dava para pedir duas pizzas, cada uma de um sabor. Era o máximo da variedade!

Nem sempre a escolha era simples. Rolava uma discussão e muita reclamação. Mas, naquele tempo, a opinião dos mais velhos prevalecia. Se o seu pai e a sua mãe gostavam mesmo é de atum, era grande a chance de todo mundo comer pizza de atum. E tudo bem, assim era a vida.

Não demorou muito para que as pizzarias oferecessem a possibilidade de escolha de dois sabores de uma só vez. E foi uma revolução! Mesmo nas famílias pequenas, dava para comer um pedaço de portuguesa e outro de peperoni, na mesma refeição! E quando tinha muita gente à mesa, que paraíso! Três pizzas eram seis sabores! Que sensacional!

Os anos seguiram, e vieram também as opções de massa (fina ou grossa), de borda (recheada ou não), de cobertura, de restrição alimentar, de adicionais e etc.

Atualmente o cliente não precisa se preocupar.

Tem pizzaria que faz até cinco sabores numa pizza de tamanho normal – transformando o pizzaiolo no maior especialista em frações do mundo, capaz de dividir por 5, de cabeça, os 360 graus de um círculo! Isso sem falar que, entre os vários sabores disponíveis para uma só pizza, tem aqueles que pedem um pedaço com borda recheada, outros com recheio duplo, um com pouco molho, outro sem cebola e aquele outro pedaço com queijo sem lactose. Uma salva de palmas para os garçons que conseguem anotar tudo direitinho. E dez salvas de palmas para os pizzaiolos que realizam esses clientes detalhistas e específicos!

Essa história de pizza simples versus pizza personalizada parece até a história dos 3 sobrinhos do Pato Donald. Todo mundo conhece o Huguinho, o Zezinho e o Luisinho. Todo mundo, não. Quase todo mundo…

A primeira aparição dos sobrinhos

Mas o fato é que esse trio de patinhos foi criado, em 1937, pelo roteirista Ted Osborne e pelo cartunista Al Taliaferro. Os irmãos, trigêmeos, tiveram duas fases principais nos quadrinhos. Numa delas, vivem para atazanar a vida do Pato Donald, com quem moram.

E não poupam esforços para atormentar o azarado tio.

Em outra fase, desenvolvida pelo mestre Carl Barks, os três entram para o grupo de escoteiros e tem a vida transformada. Os irmãos se tornam disciplinados, estudiosos e zelosos do bem. Não perdem uma oportunidade de ajudar as pessoas.

Dá até para dizer que os sobrinhos de Donald, nessas fases clássicas, são como uma pizza apimentada de calabresa, que faz a gente suar até, e outra de muçarela, que agrada a maioria. Como era antigamente, só com dois sabores, clássicos! Mas o tempo passou e, assim como as pizzas ganharam diversidade de opções, Huguinho, Zezinho e Luisinho também mudaram.

Na versão mais moderna dos Duck Tales, feita para a televisão, cada um ganhou uma personalidade distinta. Agora, Huguinho é o mais inteligente e líder dos irmãos. O Zezinho é o aventureiro e mais corajoso. Já Luisinho é quase um “irmão do mal”. Começa a série como mentiroso, ganancioso e cínico – mas logo vai se transformar em uma criança melhor. Nada simples, cada um cheio de particularidades.

Sabia que, antigamente, nas igrejas, tudo também era mais simples? Como acontecia com as pizzas… Havia, sim, discussão, para escolher qual o caminho de um ministério a seguir, de que forma os recursos eram gastos e até se o louvor poderia ter guitarra e bateria. Prevalecia essa ou aquela opinião, e a vida seguia. As estruturas eram pequenas e a quantidade de denominações também. Era um período de sobrevivência do cristão.

Hoje em dia, salvo alguma exceção, a impressão que dá é que a pluralidade de “sabores” foi parar dentro das igrejas. Existe problema pra todo gosto! Do comportamento dos cristãos à estrutura oferecida para a convivência; dos ministérios à formação dos pastores. E as opções de igrejas, essas sim parecem um cardápio de pizzaria.

Tem igreja pra quem não gosta de liturgia e pra quem não abre mão disso. Tem outra pra quem gosta de surfe e fala com gírias, e outra para quem gosta de coral com toga e órgão de tubo. Tem ainda igreja pra quem é crente e depende de rituais de cura. E outra para quem é católico e espírita ao mesmo tempo. Tem igreja com borda “recheada” de amor pela sociedade, em busca de transformação do espaço onde vivemos. E tem outra de massa final, que busca apenas convivência entre os seus – afinal, não dá para cuidar de todo mundo.

Nesse caso, é como se todo mundo achasse que é dono do seu ‘pedaço’, e que pode deixar do seu jeito.

O que parece é que esquecemos do que havia de mais importante naquela época das pizzas de um só sabor: a comunhão. Porque, ao fim da refeição, seja qual fosse o cardápio único escolhido, restava a alegria de se estar junto com quem se ama; de falar e de ouvir. Pergunte a quem se lembra dessa época se existe alguma recordação do gosto daquela pizza? Talvez não. E pergunte se existe alguma lembrança daqueles momentos juntos, das risadas à mesa – mesmo que fosse só com uma pizza de muçarela… Quem é que pode esquecer?

Era assim também nas igrejas de antigamente. Seja qual fosse a opinião, e as diferenças entre as pessoas, havia prazer na vida em comunidade. Até quem não gostava disso ou daquilo, ou não concordava com tudo que era decidido nas assembleias, tinha alegria de desfrutar da companhia dos irmãos “mais moderninhos”. Um tempo de alegria inocente, como os originais Huguinho, Zezinho e Luisinho. Irmãos juntos, unidos, em harmonia.

Hoje temos pizzas, ou melhor, igrejas de centenas de sabores… ou denominações. E menos conversa, menos diálogo. O celular sempre à mão, em relacionamentos virtuais, e os encontros se passam numa superficialidade gigantesca. Amizades mais ralas que uma massa fina. Personalidades tão distintas – e que não cedem umas às outras, que nem parece um momento de comunhão. É difícil conviver com esses novos sobrinhos do Donald, cheios de opinião e pouco dispostos a ouvir e a caminhar ao lado do outro, como se fossem um.

Dizem que a Igreja virou a antessala da pizzaria, ou seja, a preparação para o jantar de domingo. Pode ser verdade. Como pode ser verdade também que, se Jesus Cristo estivesse conosco, ficaria feliz por desfrutar da companhia dos irmãos, depois de um culto, ao redor de uma mesa alegre, com boa comida. Até sem muita variedade de sabores. Mas que seja um momento temperado com alegria, comunhão e amizade.

Bom apetite.

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