ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

SER DIFERENTE

DO CONTRA

Todo mundo conhece alguém “diferente”. É aquela pessoa que discorda de muita coisa, que não aceita participar de qualquer programa ou que não gosta de comer isso ou aquilo.

Se o grupo decide ir ao cinema, ela ou ele vai preferir passear no shopping, ou até ficar só.

Se os vizinhos combinam um churrasco no almoço, a reclamação já vem: “por que não feijoada?” E se for feijoada, o “diferente” vai querer salada.

E na hora de organizar o encontro da família, ele ou ela sempre vai reclamar que não gostou do dia, nem do lugar.

A pessoa “fora do padrão” pode até aceitar o que foi combinado – mas vai reclamar, deixar claro que não era isso que queria. Pior, vai colocar defeitos em tudo o que for possível. Às vezes, é uma atitude intencional. Para irritar ou, quem sabe, para se fazer notar. Às vezes, nem é racional. É apenas a manifestação de um gosto fora do comum. Afinal, não existem duas pessoas iguais…

“Do Contra”

No quadrinhos da Turma da Mônica, tem alguém assim. É o Do Contra. Ele foi inspirado em um dos filhos de Maurício de Sousa, que gostava de fazer tudo diferente das outras pessoas quando era pequeno.

Essa característica faz o personagem viver situações bem engraçadas, nas histórias da turminha. O Do Contra, por exemplo, prefere elogiar a Mônica, do que entrar na zoação dos meninos, que a chamam de ‘dentuça’ ou ‘gorducha’. Ponto pra ele…

Houve um tempo no qual os evangélicos também eram considerados homens e mulheres “do contra”.

Lá, bem atrás, o ‘crente’ era identificado por 3 recusas fundamentais: não beber, não fumar e não dançar. Nem adiantava oferecer só uma cervejinha. “Obrigado, sou crente”, era a resposta. Ou, ainda: “Está me estranhando?”.

Baile de formatura? Não era lugar de evangélico. Que até podiam comparecer, pra ficarem sentados na mesa, comendo e bebendo – refrigerante, claro. Cigarro, então, era coisa do diabo. E não podia ser de Deus quem se rendia a esse tipo de vício…

Muito tempo passou. O cristão aprendeu que tem muita coisa que faz mal para vida, para o convívio com o próximo e para a relação com Deus. E que, não necessariamente, passa por dançar, fumar ou beber. Com isso, nem dá mais pra dizer que os evangélicos são um povo “do contra”. Tem crente, literalmente, fazendo de tudo por aí – mesmo que seja às escondidas. E o que tem de “varão” e “varoa” indo parar atrás das grades… Até “traficante de Jesus” já existe!

Parece que povo de Deus já não é mais tão “do contra” assim.

O pastor Osmar Ludovico é autor de um texto sensacional que ilustra bem a necessidade de se reafirmar a “diferença” na vida e no comportamento do cristão. São observações sobre a vida em comunidade, que dão um alerta sobre práticas que se repetem, à exaustão, e que precisam ser urgentemente revistas. Ele chama o texto de “Não Creio” ou “Anti-credo”, e vale a pena reproduzir e absorver cada linha.

 

NÃO CREIO (O ANTI-CREDO)

Não creio em respostas prontas estereotipadas e definitivas; mas em um aprendizado constante, num processo sem fim de aprender, desaprender e reaprender.

Não creio em estratégias, modelos ou planos religiosos definidos e reproduzíveis, mas nas surpresas do dia a dia vivido na presença de Deus, no convívio familiar, comunitário e missionário.

Não creio em projetos ministeriais triunfalistas, importados e apostilados, mas no serviço simples, contínuo e discreto em favor dos pobres.

Não creio em técnicas de evangelização; mas na pregação do evangelho o tempo todo com a vida e, quando necessário, usando palavras.

Não creio no barulho, na euforia e na agitação; mas no recolhimento e no silêncio.

Não creio na busca de poder religioso que alimenta ambições pessoais; mas no poder que se aperfeiçoa na fraqueza.

Não creio no que acontece sob os holofotes e é propagandeado; mas no pequeno, no discreto, no gesto simples do cotidiano.

Não creio em lideranças personalistas; mas em servos anônimos que refletem a vida e o caráter de Cristo.

Não creio num Evangelho explicativo, argumentativo e teórico; mas no Evangelho que perdoa o pecador e o transforma em uma pessoa melhor.

Não creio na linguagem da motivação e da autoajuda religiosa; mas na linguagem da intimidade que encontra espaço para afetividade e confidências.

Não creio na teologia da prosperidade; mas numa teologia que gere quebrantamento, humildade, simplicidade e serviço desinteressado.

Não creio em crentes bonzinhos e certinhos; mas em gente real que erra e se arrepende e não tem vergonha de se apresentar como pecador remido pelo sangue do Cordeiro.

Não creio em oração que busca conforto pessoal; mas em oração que clama por santidade pessoal e engajamento por um mundo mais justo.

Não creio em oração gritada em público com o intuito de chamar atenção sobre si; mas na oração no secreto, onde ninguém vê e ninguém sabe.

Não creio em testemunhos, livros e conversas de pessoas vitoriosas em tudo e que nunca erram; mas em pessoas reais que se alegram e se entristecem, que têm virtudes e defeitos.

Não creio em práticas religiosas produzidas pela mente humana; mas naquelas que são fruto de uma intimidade com Deus.

Não creio em igrejas de classe média voltadas para si mesmas e sem visão social; mas naquelas cujos recursos humanos e financeiros são disponibilizados para missões e para ajuda humanitária.

Não creio que o marketing ou a tecnologia trarão o Reino de Deus a nós, mas creio em ações concretas na busca da justiça e da paz nas nossas cidades.

Não creio em profecia que gera crentes infantilizados dependentes do profeta; mas em profecia que anuncia o juízo e gera quebrantamento e dependência de Deus.

Não creio nos abraços e nos “eu te amo, meu irmão” instantâneos, induzidos por pregadores; mas em abraços e amizades pessoais vividas no cotidiano.

Não creio que adoração se resume ao “louvorzão” do domingo, dirigido por “levitas”; mas na glorificação de Deus como um estilo de vida de doação e santidade no cotidiano.

Não creio que é possível amar a Deus e não ter amigos; mas em ter vínculos, afetos e amizades que evidenciam um real compromisso com Cristo.

Não creio em discipulado que é mera doutrinação de conceitos e informações corretas, mas no discipulado que gera metanoia, arrependimento, mudança interior refletida nos gestos e nas atitudes do dia a dia.

Não creio num fé mediada pelos sacerdotes e pelo templo; mas tão somente no sangue de Cristo, que possibilita a todos os que creem livre acesso ao trono de Deus.

Não creio que cheguei lá, que já tenho todas as respostas. Sigo aprendendo nesta minha jornada sem volta e sem nunca chegar, uma jornada com Cristo, até Cristo, um caminho no qual prossigo tropegamente, mas animado pelo desejo de me tornar mais parecido com ele.

Osmar Ludovico
(publicado em “Inspiratio”, editora Mundo Cristão)

 

Se você também não crê em nada disso… que bom, também é “Do Contra” e quer se relevante. Porque ao contrário do que muito se prega por aí, não basta ser diferente. É necessário fazer diferença – na vida do outro, na comunidade, no trabalho, na escola, na família, no país. E amar, sim, a todos. Até aquele que é muito diferente da gente.

 

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