ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

“DEUS É UM MÁGICO”

Às vezes nos relacionamos com Deus como se houvesse alguma espécie de mágica envolvida. Não chamamos por esse nome, mas é assim que achamos que funciona. Se eu tiver a fórmula correta (sangue de lagartixa, olho de sapo) e as palavras certas (abracadabra ou Shazam!), consigo o resultado desejado (poção de amor número 9).

Acho que a maioria dos religiosos discordará dessa afirmativa. Essa não é uma mentira em que acreditamos. Na verdade, ficaríamos um pouco ruborizados com a ideia de colocar ‘mágica’ e ‘Deus’ na mesma conversa. No entanto, também já me relacionei muito com Deus da mesma maneira que outros usam mágica; eu simplesmente justificava isso com o jargão santificado.

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Quando digo ‘mágica’, não me refiro a truques com cartas ou ilusionismo de palco, nem mesmo aos mistérios da arte e da música. A magia à qual me refiro é o meio pelo qual exercemos controle sobre algo ou alguém. Trata-se de um jogo de poder que não depende de relacionamentos, que são confusos e cheios de verdadeiro mistério. É o uso de rituais, símbolos, ações, gestos e linguagem com a intenção de explorar o poder. Por trás da magia religiosa está a crença num Deus que precisa ser forçado a fazer alguma coisa. A interação é opcional. Se eu fizer tal coisa, a oração ou o encantamento certo, Deus é obrigado a responder de determinada maneira.

Mas não acredito que a resposta de Deus a nossos pedidos seja determinada pelo fato de termos realizado as ações ou dito as palavras ‘certas’. Deus pode agir de forma contrária às nossas expectativas por ‘mágica’, mas a resposta dele é motivada por amor, não pelo nosso desempenho ou pelas nossa habilidade nas orações.

Nós, religiosos, recorremos a dois tipos comuns de mágica em larga medida porque não confiamos na bondade nem no amor de Deus. Como ele poderia nos amar e querer o nosso bem, com todos os nossos pecados e limitações e nossa cegueira? O primeiro tipo de magia envolve e o segundo se baseia em desempenho. Seja como for, acreditar em mágica nos torna vulneráveis a charlatães e pessoas bem-intencionadas que pensam conhecer os truques do ofício. E, quando a mágica não funciona, enfrentamos a autorrecriminação e uma decepção esmagadora. Afinal de contas, não pode ser culpa de Deus, então EU devo estar fazendo algo errado.

Com o primeiro tipo de magia, a fé-mágica, deveríamos ser capazes de mover montanhas, erguer os mortos, realizar milagres, enriquecer ou ter filhos. Então, quando algo não dá certo – por exemplo, quando adoecemos ou um empreendimento fracassa -, é porque não tivemos fé suficiente ou não a exercemos direito. Ou talvez haja algum pecado em nossa vida que impede o fluxo da providência divina.

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O segundo tipo de mágica, a magia do desempenho, funciona assim: se eu fizer as coisas certas (ler minha Bíblia, frequentar a igreja, pagar o dízimo, orar, participar de missões) e não fizer as coisas erradas (esta lista depende do grupo que você faz parte), Deus vai me abençoar e as coisas que eu pedir em oração vão acontecer.

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A alternativa à mágica são os relacionamentos cheios de mistérios em que perdemos o controle. Magia tem a ver com saber o desempenho, as fórmulas e os encantamentos certos. Relacionamentos têm a ver com confiança.

Você sabia que Deus fala a sua língua? Sabia que você tem capacidade de falar com Ele e ouvir a voz dEle com o seu jeito único de ouvir? Pois tem. Embora a magia possa nos dar a ilusão e a promessa de controle, são os relacionamentos que verdadeiramente importam. Um momento de cada vez, uma conversa de participações.

Depois de provar o deleite dos relacionamentos você nunca mais vai querer voltar à magia.

 

 

Extraído do capítulo 9 do livro

“As Mentiras que nos Contaram Sobre Deus”

William P. Young – Editora Sextante

 

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