ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

HISTÓRIAS PARA QUEM ESTÁ COMEÇANDO

Escolas usam revistas para apresentar as primeiras letras às crianças de 3 a 5 anos

reportagem publicada na revista Nova Escola – Editora Abril – Edição 111 – Abril/1998

 

Para ler gibis não é preciso saber ler. Aliás, os quadrinhos parecem mesmo feitos sob encomenda para apresentar as primeiras letras. Eles são coloridos, têm textos curtos e são velhos conhecidos da garotada, que costuma ter contato com eles quando ainda usa fraldas. “Os desenhos conseguem comunicar algo para a criançada”, assegura Fernanda Flores, orientadora pedagógica do Colégio Fernando Pessoa.

No Fernando Pessoa, tirinhas simples são projetadas na parede e lidas para os alunos, que têm entre 3 e 5 anos de idade. A professora aponta com o dedo o trecho que está lendo e ajuda as crianças a compreender o enredo e a decifrar as expressões dos personagens.

Na fase de alfabetização, algumas escolas propõem como exercício apagar as falas dos balõezinhos dos personagens e pedir às crianças que interpretem a seqüência de desenhos e criem sua própria história. Algo parecido com o que faz a arte-educadora Cecifrance Aquino, da The Global School, de Salvador, Bahia. Ela recorta uma historinha, separa os quadrinhos um a um e monta um quebra-cabeça. Embaralhado, ele pode ser reorganizado pela criançada em uma nova seqüência. “Um ótimo estímulo à criatividade”, diz ela.

A leitura dos gibis permite, a partir da 1ª série, identificar elementos constitutivos do texto. “Pode-se explicar o que é um título e que ele sintetiza o enredo da história”, explica Paula Stella, do Colégio Fernando Pessoa.

Outro bom exercício para os recém-alfabetizados é a leitura compartilhada de gibis. Cada um recebe um exemplar da mesma revista. A professora escolhe um episódio e começa a lê-lo em voz alta. Em determinado ponto, pára e pede que um aluno continue a leitura. A tarefa é passada para a próxima criança, até que todos tenham lido. A leitura em comum acaba uniformizando o desempenho da turma.

O linguajar caipira de Chico Bento vira lição na classe de 2ª série

ADDLETRAS3As caipirices do personagem Chico Bento, criado por Mauricio de Sousa, fascinam alunos e professores. Os alunos acham o personagem simpático e se identificam com os apertos que ele passa em sala de aula. Já os professores gostam do Chico Bento, por mais curioso que seja, porque ele fala “errado”. Os ocê, bão, num, lasquera, sem-vregonhera e aminhã que ele usa em suas histórias são motivo para divertidos exercícios de ortografia nas turmas de 2ª série. De quebra, a leitura crítica das aventuras rurais do Chico Bento servem para debates sobre regionalismos e o uso da linguagem falada nos registros culto e familiar.

No Fernando Pessoa, a professora entrega aos alunos cópias xerocadas de uma história do personagem e pede que eles, em duplas, discutam e marquem as palavras escritas erradas.

Ao final da atividade, as palavras marcadas pelas crianças são reproduzidas no quadro-negro e, ao seu lado, anotada a ortografia correta. A professora debate com a turma em que situações pode-se usar expressões mais familiares e em que momentos o recomendável é expressar-se obedecendo à norma culta.

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O forte dos gibis é ensinar Português, mas eles também podem servir de suporte para o ensino da Matemática. Os professores do Fernando Pessoa aproveitam a existência das gibitecas nas salas da 1ª série para dar exercícios práticos com as quatro operações. Junto com a professora, os alunos cuidam da coleção de revistas, registrando quantos gibis entram e saem da classe.

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Atividade propõe que o aluno desenvolva um argumento iniciado pelo professor

A atividade proposta aqui pela arte-educadora Cecifrance Aquino bem que poderia chamar-se “Você Decide”, comoo popular programa de televisão. Nela, caberá aos alunos da 1ª a 4ª série decidir o desfecho de uma HQ apresentada pelo professor. A idéia é desenvolver a criatividade dos alunos, pedindo para que eles desenhem e preparem o texto para o desfecho de uma história, da qual apenas se conhece o início.

A história deve ser passada para toda a turma, que pode dividir-se em grupos ou trabalhar individualmente. O professor produz uma HQ e, no momento culminante, interrompe a narrativa deixando os últimos quadrinhos em branco.

Prontos os diversos finais, o professor pode coordenar um debate em que cada aluno apresenta sua versão. “É uma experiência bastante enriquecedora”, diz Cecifrance. “Cada aluno coloca ali seus sentimentos, quando cria um final que lhe convém, é como se fosse um psicodrama.”

O professor de História Benauro Roberto de Oliveira, da Escola da Vila, de São Paulo, gosta de propor quebra-cabeças aos alunos. “Quero saber o que cada um pensa sobre a sua condição humana”, diz. Para ajudar a turma, Benauro distribui uma sinopse sobre o personagem Tarzã. Ele pergunta se a história de Tarzã poderia ter acontecido.

“Quero alunos críticos, capazes de compreender o processo histórico”, diz. A história de Tarzã, adotado pelos macacos, só seria possível nos gibis. Tarzã tinha a capacidade de pensar, mas precisava exercitá-la. Na selva, ele nunca se transformaria no lorde inglês, educado e culto de que fala a história.

 

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