ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

JESUS NÃO SABIA NADA DE STAR WARS

Por William P. Young

Costumo conversar com muitas pessoas cujo coração se abriu após a leitura de A Cabana. Às vezes elas estão prontas para acreditar de novo, mas acham que não podem voltar a ter um relacionamento com Deus devido a algum comportamento ou ato vergonhoso do passado. Sentem-se separadas e sem esperanças. A ironia é que a cura para a tristeza sempre esteve ao alcance delas, porque, para começo de conversa, suas ações nunca tiveram o poder de separá-las de Deus.

Se não houver ninguém para nos dizer que nosso comportamento está deixando de atender às expectativas de Deus, é comum pregarmos essa mensagem a nós mesmos.

Comecemos por algo simples. Os erros são parte essencial da nossa humanidade.

Meu neto G., de 8 anos, conversava com o pai, meu filho:

G.: Pai, você acha que Jesus já cometeu erros?

Pai: Bom, G., pessoas muito inteligentes tem pontos de vista diferentes sobre essa questão. O que você acha?

G.: (depois de pensar um pouco) Acho que cometeu sim. Como ele teria aprendido qualquer coisa se nunca tivesse errado?

G. está aprendendo que, para os seres humanos, não tem problema cometer erros. Pelo contrário, erros são realmente essenciais. Esperar a perfeição é negar nossa humanidade, é como se cometer um erro, não saber algo ou esquecer a resposta certa fosse o mesmo que pecar. Achamos mesmo que Jesus nunca cometeu erros no dever de casa, nunca esqueceu o nome de alguém, ou, trabalhando como carpinteiro, nunca se enganou ao tirar medidas?

Jesus não tinha fama de ser ‘o melhor carpinteiro’ de Nazaré nem de fazer portas perfeitas, sempre niveladas.

Jesus é totalmente humano. O que acha que as Escrituras queriam dizer com “Jesus ia crescendo em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens”? Jesus nem sempre foi completamente sábio: ele ‘cresceu’ em sabedoria. Os erros cometidos em qualquer processo de aprendizado são incorporados ao amadurecimento da pessoa.

Agora siga meu raciocínio. Na humanidade de Jesus, havia certas coisas que ele não sabia. Ele não sabia nada sobre Star Wars, o gato de Schrödinger ou o princípio da incerteza de Heisenberg. Quando chorou durante a primeira infância, deu uma topada com o dedão ou falou uma palavra errada, ele o fez porque era humano. Ele pediu ajuda porque precisava (como quando pediu aos discípulos que lhe preparassem um barco).

Jesus tomou a decisão constante de confiar em Deus porque sabia que era um ser humano num relacionamento com ele; sabia a verdade de seu ser.

O orgulho é um pecado por ser a negação da humanidade. A humildade, por outro lado, é sempre uma celebração da humanidade. ‘Por favor, me perdoe. Cometi um erro. Estava enganado. Não dei ouvidos. Posso fazer uma pergunta? Não sabia. Percebo agora que o feri. Também estou aprendendo. É possível que eu esteja errado.’

E a rebelião ativa, a traição, ferir os outros ou a nós mesmos? Isso não é pecado? E se o pecado não for fundamentalmente uma questão de comportamento, mas algo mais profundo? E se for tão profundo que toda modificação comportamental e todo desempenho moralista nem sequer chegue perto do que isso realmente significa? E se nosso foco no comportamento for uma tentativa de tratar os sintomas e nos distrair em vez de cuidar da verdadeira doença?

A palavra grega que costuma ser traduzida como ‘pecado’ é hamartia. Um moralista lhe dirá que significa ‘errar o alvo’ e depois explicará que o alvo é a ‘perfeição moral’ ou o ‘comportamento correto’ – e voltamos mais uma vez à roda de hamster do desempenho. Mas a essência da natureza de Deus é o relacionamento, então o pecado tem de ser definido e entendido como a falta de uma realidade relacional, uma distorção da imagem de Deus em nós.

Hamartia é uma palavra composta de duas partes: ha (um alfa aspirado), que é um elemento de negação (como in ou des), e martia, da raiz meros, que significa ‘forma, origem ou ser’. O significado fundamental é a ‘negação da origem do ser’ ou a ‘falta da forma’. Sim, trata-se de ‘errar o alvo’, mas o alvo não é o comportamento moral perfeito: o “alvo” é a Verdade de nosso ser.

Há uma verdade em quem somos: a proclamação de Deus, de que tudo que criara ‘havia ficado muito bom’, é o que há de mais verdadeiro em você. Esse ‘muito bom’ é a sua forma ou origem, a verdade de quem você é em seu ser. O pecado, então, é tudo que nega, diminui ou representa de forma equivocada a verdade de quem você é – não importa que essa representação seja bonita ou feia. O comportamento se torna então um modo autêntico de exprimir a verdade de sua boa criação ou um esforço para encobrir (com o desempenho) a vergonha do que você pensa de si mesmo – que é alguém de valor.

 

 

 

Extraído do livro

AS MENTIRAS QUE NOS CONTARAM SOBRE DEUS

William P. Young

Editora Sextante

Capítulo 27 “O pecado nos separa de Deus”

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