ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

ONOMATOPEIA, IMAGEM E AÇÃO

 

Por Rachel Bonino

Texto extraído da Revista Educação – Edição 144

Seleção de títulos de histórias em quadrinhos para distribuição pelo Programa Nacional Biblioteca na Escola, voltado às redes públicas, alça o gênero a novo patamar dentro da literatura escolar

 

O alienista, Moby Dick, O triste fim de Policarpo Quaresma. Os títulos listados não causariam surpresa por figurarem na lista deste ano de livros do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), do Ministério da Educação, não fosse pelo fato de serem adaptações em histórias em quadrinhos das obras originais.

Só em 2007, dez anos após a criação do PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola), as histórias em quadrinhos começaram a ser incluídas nos acervos distribuídos a bibliotecas escolares.

O que se vê é uma formalização desse gênero textual no ambiente escolar, que já tinha seu emprego reconhecido pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN).

“No começo, a percepção do MEC foi de conceber as HQs como caminho ou degrau para a literatura tida como ‘mais nobre’. Agora, esse recorte perde espaço, até mesmo pelo aumento de obras indicadas que não são adaptações de obras literárias. Há um avanço no entendimento das HQs, que passam a não ser mais vistas apenas como material de diversão voltado para criança”, analisa Waldomiro Vergueiro, coordenador do Núcleo de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP. A lista registra títulos voltados ao ensino médio, lembra Vergueiro, que estuda o tema desde 1990. “Obras adaptadas ou mesmos livros com histórias longas no formato quadrinhos vêm sendo colocadas no mesmo nível da literatura tradicional”, afirma.

Percebendo a aposta crescente do MEC no gênero, as editoras têm jogado no mercado toneladas de adaptações. “O aumento [de quadrinhos na lista do MEC] é resultado do trabalho de avaliação e seleção dessas obras nos últimos anos. De certa forma, isso estimulou a produção e a apresentação, por parte de autores e editores, de novos títulos a cada edição do PNBE”, avalia Marcelo Soares, diretor de Políticas de Formação, Materiais Didáticos e de Tecnologias para Educação Básica, do Ministério.

Mas há muita coisa ainda para evoluir. Autor do livro “Como contar as histórias em quadrinhos na sala de aula” (Contexto), Vergueiro explica que as boas adaptações – e mesmo as HQs originais – precisam respeitar uma regra simples: serem verdadeiramente histórias em quadrinhos e não um resumo, ou a transposição integral das obras originais. Para isso, devem usar bem os signos do gênero, abusar de onomatopeias e metáforas visuais, além da principal indicação: a narrativa tem de estar bem dividida entre texto e imagem. “Eles devem contar a história em igual proporção”, alerta. “Apesar de alguns títulos ainda fracos, a proliferação de produtos tem ajudado a refinar o processo de produção de obras desse gênero”, avalia.

Para Flávio Calazans, autor de “História em quadrinhos na escola” (Paulus), as adaptações são importantes porque fazem a primeira aproximação do estudante às obras originais. “Isso torna mais tranqüila a leitura do original, pois já haverá familiaridade com o tema, como acontece com as adaptações para o cinema, por exemplo”, defende. Ele lembra que o formato já é tradicional em vários países europeus, que começaram sua produção nos anos 80: Inglaterra (adaptações de Shakespeare), Portugal (obras e biografias de Gil Vicente, Eça de Queirós, entre outros), Itália, Alemanha e até na vizinha Argentina.

Instrumentalização

Mas o uso de obras de HQs ainda enfrenta resistência dos docentes. Ele já existia quando o mais comum era o uso de tiras ou histórias curtas para exemplificar disciplinas, e permanece com o boom dos álbuns (livros com HQs longas e adaptações). Mais ainda com as adaptações. Acredita-se ser um despropósito trocar o texto original por qualquer título “pretensamente facilitador”. Seja pelo histórico de preconceito contra esse gênero literário, ou pelo desconhecimento na aplicação dessa ferramenta em sala de aula, o fato é que os professores ainda têm dificuldades para manusear um título de história sequencial. “Eles trabalham com uma geração muito ligada ao visual, sendo que eles tiveram uma experiência de ensino mais verbal”, pontua Calazans.

“O trabalho com quadrinhos era esparso. Agora, é uma proposta governamental para a educação. Muitos professores terão dificuldade em aplicar HQs em sala, já que grande parte cresceu com a ideia de que não são leitura indicada. É necessária uma alfabetização dos professores para que consigam usar os quadrinhos com toda a sua potencialidade”, avalia Vergueiro. “Os docentes devem conhecer a parte técnica dos quadrinhos, até para interpretá-los em toda a sua essência”, destaca Calazans.

O MEC ainda não desenvolveu um projeto específico para viabilizar essa instrumentalização do professor para o treinamento sistemático no uso de quadrinhos em sala. Por ora, o foco é estimular a leitura entre os estudantes: “Trabalhamos na perspectiva de realizar a formação do professor para o trabalho com a leitura de forma mais ampla, voltada para a formação de alunos leitores”, justifica Marcelo Soares.

Com 17 anos dedicados ao magistério, Lucimar Mutarelli já usou os quadrinhos com turmas do ensino fundamental ao médio. “Todos recebem muito bem, o importante é a abordagem que o professor toma do assunto”, diz. Ela sempre fez questão de incluir HQs – em tiras isoladas ou livros – na programação bimestral do seu planejamento. Na lista de livros usados, obras de Hergé, Gen Nakazawa, Spiegelman, Eisner, Adão, Angeli, Laerte, Gonsales e Lourenço Mutarelli (seu marido). A dedicação ao tema rendeu a dissertação de mestrado defendida junto à Escola de Comunicações e Artes da USP, “Os quadrinhos autorais como meio de cultura e informação: um enfoque em sua utilização educacional e como fonte de leitura”, defendida em 2004.

Para a docente, não existe didática para aplicar a ferramenta em sala, mas algumas diretrizes ajudam os principiantes a começar o trabalho. Lucimar recomenda de início um levantamento do número de alunos leitores de HQs, além de saber a opinião primária deles sobre o veículo. Importante também ver quais quadrinhos são conhecidos pelos alunos. Feito isso, recomenda um bate-papo com os estudantes sobre a possibilidade de realizar o trabalho em aula. Dessa forma, “será possível verificar como é a recepção à ideia e se existe algum tipo de preconceito em relação à linguagem”. Recomenda ainda o trabalho em grupo, pois alguns alunos se sentem tímidos para trabalhar com produção de texto ou imagem.

No colégio Santa Cruz, em São Paulo, os professores aproveitam as reuniões de conselho para trocar idéias sobre como usar as tiras ou livros em quadrinhos em sala, conta Cristine Conforti, diretora da educação infantil e do ensino fundamental 1. Lá, as HQs estão presentes no dia-a-dia dos alunos desde a pré-escola. “Os quadrinhos não podem só fazer parte do acervo da biblioteca. Precisam estar presentes no material escolar. O apoio das imagens ao texto é especialmente útil para as crianças que estão em fase de alfabetização. Além de estimular desde cedo os processos argumentativos”, diz.

Escolhas de material

Dada a variedade de materiais à disposição, cabe aos professores definir critérios para adotar os quadrinhos em sala de aula, principalmente se a meta for usar adaptações ou livros de HQs como conteúdo escolar.

“O fato de uma HQ ser ambientada em um tempo passado não sugere que seu conteúdo seja integralmente fiel ao contexto histórico”, ponderava a professora Natania Silva Nogueira, de Leopoldina (MG), durante apresentação no Encontro da Associação Nacional de História (Anpuh), realizado em 2005. A docente é autora do Projeto Gibiteca, aplicado na EM Judith Linrz Guedes Machado, desde 2006. Ela cita como exemplo a obra de Frank Miller, Os 300 de Esparta. “É uma HQ inspirada em um fato histórico real, mas que usa também elementos fictícios e romanceados. Pode ser utilizada como referência em uma aula de história? Certamente. Mas cabe ao professor orientar a leitura e possibilitar aos alunos recolher do texto informações que possam ser fonte de aprendizado”, alerta.

A obra romanceada tem suas licenças para as quais os professores devem ficam atentos. As historietas do Asterix, por exemplo, são alvo de críticas no uso em aulas de história. Especialistas acreditam que a narrativa histórica não pode ser base de estudo por apresentar uma visão muito avessa à cronologia oficial dos fatos da Europa da Idade Média. Os que defendem esse ponto de vista se esquecem, no entanto, de uma questão recorrente na historiografia moderna, sobretudo aquela que se debruçou sobre o uso dos registros de imagem como fonte de pesquisa histórica: como bem analisa o historiador e professor de sociologia audiovisual Pierre Sorlin em relação ao cinema, “os filmes que reconstituem o passado nos falam mais de como era ou é a sociedade em que foram produzidos, do seu contexto, que do feito histórico ou referente que buscam evocar”. Ou seja, os filmes – assim como os quadrinhos – são discursos que articulam uma visão sobre o fato histórico. E são documentos que evidenciam o olhar do momento em que são produzidos. Como, de resto, os próprios livros didáticos.

As primeiras HQs focadas em educação

Enquanto o Brasil engatinha na produção de adaptações e de títulos originais de quadrinhos, muitos estudantes mundo afora já devoram onomatopeias, balões e imagens em movimento há muito tempo. As primeiras histórias focadas no ensino foram publicadas nos Estados Unidos, na década de 40, registra Waldomiro Vergueiro em seu
livro Como contar as histórias em quadrinhos na sala de aula (Contexto). True Comics, Real Life Comics e Real Fact Comics traziam quadrinhos sobre personagens e eventos importantes da história.

Ainda na mesma década, surgiram as HQs que se dedicavam ao ensino religioso e de fundo moral. Outro título tradicional que transpôs para a arte seqüencial as histórias de vários ícones da literatura mundial foi a Classics Illustrated, que adaptou contos de Shakespeare, Dickens, Victor Hugo, entre outros. A China comunista de Mao Tse-Tung também se valeu dos quadrinhos, nos anos 50, para viabilizar campanhas “educativas”, para retratar “vidas exemplares”.

A Europa também adotou a HQ como suporte mais agradável ao processo de aprendizagem já na década de 70. A publicação L´Histoire de France em BD, em oito volumes, teve mais de 600 mil edições vendidas.

 

Você pode obter outras informações sobre o Programa Nacional Biblioteca da Escola no site do MEC:
http://portal.mec.gov.br/programa-nacional-biblioteca-da-escola

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