ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

POESIA EM QUADRINHOS

Arte sequencial se revela uma forma arrojada de experimentar possibilidades poéticas, mas exige cuidado para não ser confundida com abstração postiça ou mera ilustração de versos

 

Publicado na revista Língua Portuguesa
Por Luiz Costa Pereira Junior

 

A área já foi marginal na literatura, é ilustre desconhecida do público de gibis, mas suas possibilidades expressivas – testadas há longa data – podem ter um papel e tanto em aulas de literatura e português. A poesia em quadrinhos une universos avessos – arte sequencial e poética literária. O visual e o verbo. A indústria cultural e a estética perene. O lado esquerdo (racional, verbal) e o direito do cérebro (intuição, imagem).

A poesia HQ não é poema ilustrado, em que o desenho repete um teor verbal do qual independe. Nem é versão de poemas fonéticos. HQ poética é poesia, mas não só. É arte sequencial, e não é. É outra coisa.

O professor Henrique Magalhães, da Universidade Federal da Paraíba, percebeu há muito o potencial dos quadrinhos poé­ticos. Nos anos 90, fez das HQs objeto de doutorado na França e de editora própria, a Marca de Fantasia (marcadefantasia.com). Foi um selo (Mandala) da editora que, em 2002, reuniu experiências em arte sequencial poética, com nomes como o mineiro Edgar Franco, o piauiense Antônio Amaral, o santista Flávio Calazans e Gazy Andraus, de São Vicente (SP).

Uma HQ poética é outra linguagem que advém da junção da literatura e do desenho. É trabalhar a HQ como linguagem poética – diz Magalhães.

Há de tudo na geração fanzine reunida por Magalhães. Calazans criou obras engajadas ou “alquímicas” como Canção do Centauro, em versos octossilabos. Franco e Andraus burilam arquétipos e o inconsciente surrealista. Henry Jaepelt usa do onírico e do niilismo e Amaral tem um traço fluido para retratar cosmogonia própria.

Qualquer criança sabe que uma HQ dispõe a narrativa quadro a quadro, exibindo figuras em seqüência com unidade interna. Mas não faz só isso. Pode, por exemplo, dramatizar idéias, diz Will Eisner em “Quadrinhos e Arte Sequencial”. A poesia insere na equação elementos estranhos ao HQ, como a noção de que o ritmo é mais importante que a ideia e da economia expressiva conjugada à ambiguidade.

– O gênero propõe uma reflexão poética em formato de quadrinhos. Sobre o mundo, a vida, sobre si mesmo. Por isso, no texto, há muito de relato impressionista e pouco linear, sem o descritivo de uma narrativa. No pictórico, há uma imagem nem sempre objetiva, que pode não retratar literalmente o que está no texto – diz Magalhães.

Relação texto e imagem

O quadro-a-quadro dá movimento e materialidade à expressão, imprimindo ilusão narrativa a uma reflexão não raro atemporal e substituindo a linearidade do verbo pela simultaneidade de uma poética da ilustração. As relações texto-imagem podem, no entanto, ocorrer em mais de um nível. Em Desvendando os Quadrinhos, Scott McCloud sistematiza essas relações:

1.  Específicas de palavras – Imagem ilustra texto, sem somar informação.

2.  Específicas de imagem – Texto só comenta seqüência de imagens.

3.  Duo-específicos – Palavras e imagens transmitem a mesma mensagem.

4.  Aditiva – As palavras ampliam o sentido manifesto da imagem.

5.  Paralelas – Não há relação entre texto e imagem. Cada um emite mensagem diferente, sem se fundirem.

6.  Montagem – As palavras são a própria imagem.

7.  Interdependente – Imagens e palavras emitem idéia que não conseguiriam em separado.

O desafio estaria na “interdependência” de McCloud: estabelecer tal diálogo entre imagem e texto que evite redundâncias, uma coincidência entre representante textual e referente figurativo. Seqüenciado, o texto-imagem viraria unidade visual.

Poesia visual

Das tradições que convergem nas HQs poéticas – como artes plásticas, cinema, poema-processo e literatura – é como poe­sia visual que o gênero talvez melhor se encaixe.

O professor e poeta Philadelpho Menezes (1961-2000) lembrava sempre de três representantes da relação da poesia intersemió­tica com HQ.

Em 1972, o brasileiro José de Arimathéia materializou a passagem de uma identidade analfabeta para a consciência letrada. A letra é o protagonista, neste que McCloud bem poderia classificar como “montagem”. A obra consta de “Processo: Linguagem e Comunicação”, de Wlademir Dias-Pino, no capítulo “Poemas de Animação”. Nele, Dias-Pino selecionou poemas sem palavras, mas com “ânsia de visualizar a velocidade”, os eventos simultâneos ou contínuos. O efeito seria a “sangria”, uma “ampliação da unidade visual”.

Em “Work in Progress”, o brasileiro Sebastião Nunes imaginou um autor cujo rosto é decomposto quadro a quadro, como se consumido por traças e formigas, dando lugar à expressão “honra ao mérito”.

É o que Scott McCloud incluiria como “interdependente”. Em 1988, o inglês Mark Pawson usou o Recruta Zero para estampar cartões, com o encontro de Sargento Tainha, Mestre Cuca e o cachorro Otto. As cartelas têm a mesma cena, podem ser manuseadas e trocar de lugar entre si, sem seqüência fixa. Palavras ocupam os balões, em raciocínio isolado, mas formam sentenças. “Mate seus ídolos” (kill+your+idols), “Destrua a cultura ranzinza” (demolish+serious+culture) e “roubo do trabalho” (steal+from+work). Na classificação de McCloud, a relação texto-imagem seria aqui a “aditiva”.

Coisa de Circo

No espectro de experiências do gênero, o Brasil tem já sua tradição oswaldiana de imprimir humor à poesia em HQ. As revistas Fradim e Mosca publicaram o gênero e Xalberto ocupou páginas de Bicho nos anos 70.

Na década seguinte, Laerte brincou com a mentalidade pragmática, intolerante à poesia. Na revista Circo, 5, de agosto de 1987, há “O Poeta e os Piratas do Tietê”, em que os bucaneiros tentam aniquilar Fernando Pessoa.

Os versos encaixam-se às situações, enquanto Pessoa permanece vivo apesar das tentativas em contrário. Uma maneira suave de inserir versos numa seqüência narrativa. No tom com que homenageia Pessoa, a história critica a afetação, ideia retomada por Laerte em tiras para jornais dos anos 90.

Há cinco anos, Luis Fernando Veríssimo mesclou poemas verbais e ilustrados a quadrinhos poéticos, em “Poesia numa hora dessas?!”. O resultado é divertido, sem ser raso, buscando o exato ponto em que uma reflexão espontânea ganha densidade. Supera de longe a inconstância dos poemas em formato tradicional, do mesmo livro.

No registro cartum, antecedentes das HQs poéticas remetem ao maior caricaturista tcheco, Adolf Hoffmeister (1902-1973). Marko Ajdaric, diretor do site “Neorama dos Quadrinhos”, lembra que obras central de Hoffmeister é “Poezie a Karikatura”, antologia de projeto claro, diz Ajdaric: a síntese entre poesia e caricatura. Zonas de contato entre poética e HQ surgiram desde então. Os franceses Moebius, em Garagens Herméticas, e Caza, na revista Pilote, marcaram os anos 60.

Imortalizado pelo romance “O Deserto dos Tártaros”, o italiano Dino Buzzati (1906-1972) ilustrou em 1969 o seu “Poema a Fumetti”, que reconta o mito de “Orfeu e Eurídice”. O Orfeu de Buzzati é um compositor que busca Eura, espírito que atravessa um além transfigurado em paisagem urbana. Não é poesia narrativa que possa ser desvinculada das cenas, nem livro ilustrado inteligível sem a integridade textual.

Releituras textuais

O inglês Tom Philips atualiza desde 1966 “A Humument. A Treated Victorian Novel” (http://www.rosacordis.com/humument/), em que transforma em poesia um romance de W. H. Mallock, “A Human Document”. É exemplo da “montagem” de McCloud. Suas 367 páginas trazem colagens, tintas e elementos gráficos. Philips deixa legíveis só termos do original. Com o que brotam significados para as palavras de Mallock e até tipos, como Bill Toge (nome formado pelos pedaços de together e altogether).

A compreensão se dá com a leitura completa do material, mas cada página pode ser lida como poema isolado. A primeira dá o tom:

“O seguinte – canto – eu – um livro. – um livro – de – arte – de – arte-mente

aquilo – que – ele – escondeu – revelo – eu”.

 

Tradições em diálogo

Em décadas de experimentação, ênfases de linguagem se cristalizaram:

– Preencher os vazios: dar representação visual a sentidos textuais ambíguos.

– Criar equivalências forma-conteúdo (Phillips, por exemplo, embaça os termos “obscurecido” e “sussurrado”).

– Nem sempre circunscrever o conteúdo a quadros ou molduras: a livre ocupação do espaço faria o olhar percorrer a página.

– O vazio entre quadrinhos (o que não foi desenhado) é informação, que estimula o leitor a buscar a interpretação completa nos quadros seguintes, consolidando-a na mente.

Outras descobertas deverão ser feitas pelos poetas gráficos. Afinal, uma poética em arte seqüencial supõe necessidades de expressão que a escrita fonética linear não daria conta. Um potencial literário-imagético a ser explorado e uma sensibilidade alerta ao cruzamento verbo-imagem.

O risco de criar poemas em HQ, no entanto, é o de ser prolixo, complicado, ou fazer tantas referências a autores e livros que obrigaria o poeta a “explicar” o poema, matando-o, na prática. Mas, aí, não estaríamos diante de quadrinhos poéticos. Só de má poesia, pura e simplesmente.

HQ poética em aulas de português e literatura

Numa aula de português ou literatura, a poesia em quadrinhos pode ser um atrativo para o estudo da capacidade de comunicação em sínteses expressivas.

– O professor pode propor temas livres de cada aluno, mas tudo pode ficar mais interessante se a escolha for em grupo. Se assim o fizer, todos devem opinar sobre o tema, sem elaborar texto pré-definido.

– Cada aluno pode, então, desenvolver suas impressões a partir da discussão e produzir seu poema gráfico.

– O desenho de cada um não precisa ser bem-acabado. Não se busca a representação realista, mas a visão sobre algo.

– A imagem deve falar por si só e o texto deve ser complementar, não ser redundante, nem se limitar a descrever a cena, como se fosse um narrador externo à história (afinal, o texto é subjetivo, uma reflexão poética).

– O texto deve surgir como diálogo ou remissão, não descrever a situação. O desenho deve “contar a história”.

– A obra não se faz só das palavras, mas com sonoridade e disposição de elementos visuais na página.

Bons versos podem estimular a formação de leitores e poetas potenciais

É pouco provável que haja fórmulas para poesias, sejam verbais, visuais ou em HQ, e seria arrogante limitar a criação de poemas a um grupelho de regras. Mas amantes de poesia, da boa, tendem a privilegiar duas âncoras: a ambiguidade e a economia.

A ambiguidade é a obra ter pluralidade de significados num só significante. “Navegar é preciso / Viver não é preciso”, de Fernando Pessoa, pode ter mais de uma leitura para o significante “preciso”: navegar “é necessário” ou, por exemplo, “é ato de precisão”. O modo como cada leitor interpreta o “preciso” condiciona “viver” (como “não-necessário” ou “impreciso”).

Essa ambiguidade dá amplitude expressiva e assinala que o leitor é quem estabelece o sentido. A interpretação, assim, não é de antemão “fechada” pelo autor (daí não fazer sentido perguntar o que um poeta “quis dizer” ou qual é a “mensagem”).

A ambiguidade só ganha lastro poético se conjugada à economia de recursos. O verso se revela de tal natureza singular que não se poderia imaginar modo melhor de dizê-lo.

A poesia não começa de uma ideia nem termina numa mensagem, diz Harold Rosenberg em “A Tradição do Novo”: sua magia consistiria em progredir sem o “governo das generalizações”. Mas para recolher material não custa aprimorar observação atenta. A matéria-prima é o que é visto em detalhe e elaborado na memória. O poema é um objeto súbito: os outros já existiam, diz Mário Quintana em “Caderno H”.

Não é fácil, mas exige concentração da memória, para fisgar sentidos e sínteses significativas. É preciso ler bons poetas, buscando achados, a estruturação, as comparações inesperadas, reações sensórias, as dificuldades e soluções expressivas e rítmicas que encontraram. É preciso estabelecer um ritmo próprio ao poema, o que não significa apelar a rimas, mas a uma “cadência teimosa” que se adapta às palavras. O ritmo, diz Quintana, é mais persuasivo que a ideia. “Em vez de associação de idéias, associações de imagens”, escreveu o poeta.

É preciso, enfim, surpreender os leitores. O poema, diz Octavio Paz, deve provocar o leitor, obrigá-lo a ouvir – a ouvir-se.

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