ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

ROBIN E O DISCIPULADO

 

Publicado em Gospel e Nerd

O discipulado dentro das igrejas vem ganhando força, muito em função de movimentos como G12, MDA, etc, etc. É bem verdade que o discipulado sempre existiu, muito antes de qualquer movimento ou método. Aliás, o discipulado é bíblico: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. (Mateus 28:19)

Quando penso sobre discipulado, e em como isso é importante para o crescimento cristão e de cada um, dois nomes sempre me veem a cabeça – Jesus Cristo, nosso primeiro exemplo e referencial sobre discipulado, e o herói dos quadrinhos que em 2014 completou 75 anos de existência, o Batman.

Nenhum outro personagem das HQs teve tantos ajudantes diferentes quanto o homem morcego. A figura do garoto prodígio é quase certeza em todas as boas aventuras, quer sejam nos quadrinhos, quer sejam em outras mídias como televisão ou cinema. “Batman contra o Capuz Vermelho”, “Batman e filho”, “Batman R.I.P.” e “Batalha pelo manto” são boas histórias que só acontecerem porque o “Robin” existe.

Fazendo um paralelo sobre discipulado cristão e a forma como Batman e Robin se relacionam, podemos observar algumas coisas bem interessantes:

1 – O discípulo precisa de uma identidade própria

Há quem diga que discipular é criar uma cópia de você mesmo, é fazer com que alguém – no caso, o discípulo, seja como uma cópia sua. E que ele, ao discipular outro alguém, faça com que essa terceira pessoa seja uma cópia dele – e indiretamente uma cópia sua. E assim por diante, até que você tenha um exército de cópias suas, podendo assim dominar o mundo. Exageros à parte, essa visão de que o discípulo se torna uma cópia do discipulador não funciona para o cristão genuíno, pois se o nosso referencial é Cristo, então devemos ser cópias de Cristo, e não de outras pessoas.

“Tornem-se meus imitadores, como eu o sou de Cristo. Eu os elogio por se lembrarem de mim em tudo e por se apegarem às tradições, exatamente como eu as transmiti a vocês. Quero, porém, que entendam que o cabeça de todo homem é Cristo, e o cabeça da mulher é o homem, e o cabeça de Cristo é Deus.” (1 Coríntios 11:1-3)

A cabeça do homem é Cristo. Por mais que você como discípulo admire aquele que te discipula, a sua cabeça deve ser a cabeça de Cristo, a mente de Cristo, não de outra pessoa. Desse modo, quando o discípulo crescer e estiver pronto para caminhar com as próprias pernas, ele não será outro Batman, será uma Asa Noturna, Red Robin, Batgirl, Capuz Vermelho, etc.

Seguindo o mesmo caminho, mas sendo ele mesmo.

 

2 – Discípulos crescem

Ah, a hora decisiva, o momento fundamental, a razão da existência do discipulado, uma palavra muito bonita e com um significado simples – CRESCIMENTO.

A grande razão para a existência do discipulado é fazer com que os novos cristãos cresçam e se tornem adultos na fé, saindo do leite e da papinha, podendo comer comida sólida. Há quem diga que o discipulado é para a vida toda, que a caminhada é pra sempre. E que você sempre estará abaixo de seu discipulador devendo prestar contas a ele sempre, até o fim dos tempos, não importa o quão adulto você esteja. “O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro. Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo. Dele todo o corpo, ajustado e unido pelo auxílio de todas as juntas, cresce e edifica-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza a sua função.” (Efésios 4:14-16).

Não existe Robin adulto, pois ao se tornarem adultos e capazes de caminharem com as próprias pernas, os aprendizes saem debaixo das asas do Morcego. Da mesma forma devemos entender que, para crescermos no corpo, devemos saber caminhar com nossas próprias pernas, para que alcancemos a perfeita estatura e não sejamos mais como crianças na fé, tomando leite e mingau quando já temos todos os dentes permanentes em nossa boca.

 

3 – Discípulos dão trabalho

“Um dos que estavam com Jesus, estendendo a mão, puxou a espada e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando lhe a orelha. Disse-lhe Jesus: “Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão.” (Mateus 26:51-52).

Discipular é algo que dá trabalho, cansa, exige uma boa dose de dedicação e paciência e nem sempre colheremos os frutos que gostaríamos, mas é interessante ver que mesmo que você já tenha tido problemas com discípulos ou discipuladores, a vida segue.

Quando Batman descobriu que Jason Todd, o segundo Robin (que estava morto e que graças a Rah’s Al Ghul havia ressuscitado no poço de Lázaro) era o chamado Capuz Vermelho, e que havia se tornado um criminoso para combater o crime, ficou bem triste. Mas isso não o impediu de frustrar o plano de vingança de seu ex-discípulo contra o Coringa. Eventualmente os dois se reaproximaram, embora não do mesmo jeito que era antes – mas ainda assim demonstram um pelo outro respeito e preocupação, trilhando caminhos separados, a vida seguiu.

 

4 – Discípulos podem te suceder

Quando Batman morreu (na realidade ele não morreu, mas como ninguém sabia, então morto estava) a cidade de Gohtam ficou sem o seu cavaleiro protetor. Porém, como ficou claro na trilogia “Cavaleiro das Trevas”, Batman não é uma pessoa, é um mito, uma lenda urbana, então alguém teria que assumir o manto antes que a bandidagem da cidade soubesse que o grande morcego não existia mais.

Assim como Josué sucedeu Moisés, Eliseu a Elias e os apóstolos a Cristo, Dick Grayson, o primeiro Robin, assumiu a tarefa de ser o novo Homem-Morcego, fazendo parceria com Damian Wayne, na época o Robin. Quando Bruce Wayne conseguiu retornar, Dick Grayson voltou a ser somente Asa Noturna, entregando o bat-fardo de volta para o verdadeiro Batman. O que fica de lição sobre isso é que mesmo tendo seguido com outra identidade, Dick Grayson assumiu o fardo de seu antigo tutor quando foi necessário, até porque mesmo em caminhos diferentes, os laços continuaram.

O que se pode concluir disso tudo, é que a relação entre discipuladores e discípulos é por muitas vezes difícil, conturbada, cheia de percalços e outras séries de problemas que podem ocorrer. Ainda assim vale a pena investir em discipulado, vale a pena cuidarmos um dos outros; não para criar cópias e tampouco para ter pessoas abaixo de você, mas para contribuir com o crescimento de outras pessoas na fé. Outros tantos Robins que temos por aí, apenas esperando que seu Batman apareça, o treine, o ensine, para que ele se torne um Asa Noturna, um Red Robin, Capuz Vermelho, Batgirl, ou qualquer outra identidade que ele achar melhor – desde que se mantenha no caminho. No nosso caso, no caminho de Cristo.

 

Samuel Soares é auxiliar de TI, membro da Igreja Batista Aliança em Fortaleza (CE) e mega fã da cultura nerd
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