ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

A FUNÇÃO DA PERSPECTIVA

 

A função primordial da perspectiva deve ser a de manipular a orientação do leitor para um propósito que esteja de acordo com o plano narrativo do autor. Por exemplo, a perspectiva precisa é muito útil quando o sentido da história exige que o leitor saiba exatamente onde se encontram os elementos de uma ação dramática, uns em relação aos outros.

Outro uso da perspectiva é a manipulação ou a produção de vários estados emocionais no leitor. Parto da teoria de que a reação da pessoa que vê uma determinada cena é influenciada pela sua posição de espectador. Ao olhar uma cena de cima, o espectador tem uma sensação de pequeno, que estimula uma sensação de medo. O formato do quadrinho em combinação com a perspectiva provoca essas reações porque somos receptivos ao ambiente. Um quadrinho estreito evoca uma sensação de encurralamento, de confinamento, ao passo que um quadrinho largo sugere abundância de espaço para movimento – ou fuga. Tratam-se de sentimentos primitivos profundamente arraigados e que entram em jogo quando acionados adequadamente.

O formado do quadrinho e o uso da perspectiva dentro dele podem ser manipulados para produzir vários estados emocionais no espectador.

REALISMO E PERSPECTIVA

Essencialmente, as histórias em quadrinhos são uma forma de arte voltada para a emulação da experiência real. O escritor/artista em busca da realidade deve, portanto, estar constantemente preocupado com a perspectiva. Muitas vezes ele se vê obrigado a escolher entre o efeito de ‘design’ ou de ‘impacto’ da página e as necessidades da história. Considero isso um problema básico porque a tarefa principal do editor da revista de quadrinhos é chegar a uma “embalagem” que atraia o comprador à primeira vista.

A narrativa, portanto, está comprometida. Na verdade, o próprio artista torna-se uma das partes dessa subordinação, pois o primeiro julgamento feito sobre qualquer revista de quadrinhos é centrado no trabalho artístico: estilo, qualidade e técnica. Trata-se, afinal, de um veículo gráfico.

Num campo em que o escritor e o artista são dois indivíduos cuja reputação profissional e rendimentos dependem do reconhecimento do público, a pressão para que o artista exiba maestria artística, mesmo em detrimento da história, é praticamente irresistível. Muitas vezes, isto resulta na produção de uma história com um virtuosismo artístico independente da história – ou até mesmo sem relação com ela. Um exemplo típico de enredo que requer uma disciplina cuidadosa quanto à arte e à perspectiva é o enredo de ficção científica que relata uma ocorrência sobrenatural numa ambientação realista.

Em The Visitor (O Visitante), história do Spirit publicada pela primeira vez em 13 de fevereiro de 1949, a dramaturgia exige uma perspectiva estritamente frontal do começo ao fim. Isso tem como propósito realçar o senso de “realidade”, impedindo que o enredo se torne uma “fantasia”.

Contudo, num enredo desse tipo, é difícil deixar de “perder o controle”, fazendo experiências com diferentes perspectivas e formatos de quadrinhos. A dissolução cuidadosamente controlada e quase que apenas insinuada na base dos últimos três quadrinhos da última página é um testemunho da disciplina e da contenção exigidas para a execução adequada do final surpresa.

Um exemplo simples de “elaboração excessiva” de layout e perspectiva é mostrado nos tratamentos alternativos abaixo. Cada um deles é uma representação válida da ação… se tomados fora do contexto. Mas, quando examinados à luz da sua função na história, eles não tem utilidade.

Extraído do livro “QUADRINHOS E ARTE SEQUENCIAL”, de Will Eisner, páginas 89 a 92, editora Martins Fontes.

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