ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

COMO CRIAR UM PERSONAGEM

Como se cria um personagem? O que é personagem? Como você determina se o seu personagem vai dirigir um carro ou andar de bicicleta? Como estabelecer um relacionamento entre o personagem, sua ação e a história que está narrando?

O personagem é o fundamento essencial de seu roteiro. E o coração, alma e sistema nervoso de sua história. Antes de colocar uma palavra no papel, você tem que conhecer o seu personagem.

CONHEÇA O SEU PERSONAGEM

Quem é o seu personagem principal? Sobre quem é a sua história?

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Uma vez estabelecido o personagem principal, você pode explorar maneiras de criar o retrato de um personagem encorpado, tridimensional.

Há várias maneiras de abordar caracterização, todas válidas, mas você deve escolher a que melhor lhe serve. O método esboçado a seguir lhe dará a oportunidade de escolher o que você quer usar, ou não usar, no desenvolvimento de seu personagem.

Primeiro, estabeleça o personagem principal. Depois separe os componentes da vida dele/ dela em duas categorias básicas: interior e exterior.

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Comece com a vida interior. Seu personagem é masculino ou feminino? Se masculino, quantos anos tem quando a história começa? Onde vive? Que cidade e país? E a seguir — onde nasceu? É filho único ou tem irmãos e irmãs? Que tipo de infância teve? Feliz? Triste? Como era seu relacionamento com os pais? Que tipo de criança era? Brincalhona e extrovertida ou estudiosa e introvertida?

Ao formular seu personagem desde o nascimento, você o vê tomar corpo e forma. Persiga-o pelos anos de escola e depois na faculdade. É casado, solteiro, viúvo, separado ou divorciado? Se casado, há quanto tempo e com quem? Primeiro amor; encontro às escuras; corte demorada ou não cortejou?

Escrever é a habilidade de perguntar-se e obter respostas. Por isso eu chamo o desenvolvimento de personagem de pesquisa criativa.

Você faz perguntas e obtém respostas.

Uma vez estabelecido o aspecto interior de seu personagem numa biografia, passe para a parte exterior de sua história.

O aspecto exterior de seu personagem acontece do momento inicial do roteiro até a última palavra. É importante examinar os relacionamentos nas vidas de seus personagens.

Quem são eles e o que fazem? São felizes ou infelizes com suas vidas ou estilos de vida? Desejariam que suas vidas fossem diferentes, com outro emprego, outra esposa, ou possivelmente desejariam ser outra pessoa?

Como revelar seus personagens no papel?

Primeiro, isole os elementos ou componentes de suas vidas. Você deve criar essas pessoas em relacionamento com outras pessoas ou coisas. Todos os personagens dramáticos interagem de três formas:

1) Eles experimentam conflito para alcançar sua necessidade dramática. Precisam de dinheiro, por exemplo, para comprar o equipamento necessário para assaltar o Chase Manhattan Bank. Como o conseguem? Roubam-no? Assaltam outra pessoa ou loja?

2) Eles interagem com outros personagens, seja em antagonismo, amigavelmente ou indiferentemente. Drama é conflito, lembre-se.

3) Eles interagem consigo mesmos. Nosso personagem principal pode ter que vencer seu medo da prisão para executar o assalto com sucesso. Medo é um elemento emocional que deve ser definido e confrontado para ser ultrapassado. Todos que fomos suas “vítimas” num momento ou outro sabemos disso.

Como fazer de seus personagens gente real, multidimensional?

Primeiro, classifique a vida do personagem sob três componentes básicos — profissional, pessoal e privado.
Profissional: O que faz para viver? Onde trabalha? É o vice presidente de um banco? Um operário de construção? Um bêbado? Um cientista? Um gigolô? O que ele ou ela faz?

Se o personagem trabalha num escritório, o que ele faz lá? Qual o seu relacionamento com os colegas? Convivem bem? Ajudam um ao outro? Confiam um no outro? Relacionam-se fora do trabalho? Como ele se dá com o patrão?

Num bom relacionamento ou com algum ressentimento pelo fato das coisas estarem do jeito que estão, ou pelo salário inadequado? Quando puder definir e explorar os relacionamentos o personagem principal com as outras pessoas de sua vida, você estará criando uma personalidade e um ponto de vista. E este é o ponto de partida da caracterização.

Pessoal: Seu personagem principal é solteiro, viúvo, casado, separado ou divorciado? Se casado, com quem? Quando? Como é o relacionamento do casal? Social ou isolado? Muitos amigos e atividade social ou poucos amigos?

O casamento é sólido ou o personagem pensa em ter, ou tem, casos extraconjugais? Se solteiro, como é sua vida de solteiro? É divorciado? Há um monte de possibilidades dramáticas numa pessoa divorciada. Quando tiver dúvidas sobre o personagem, recorra à sua própria vida. Pergunte-se: se eu estivesse naquela situação, o que faria no lugar do meu personagem? Defina os relacionamentos pessoais do personagem.

Privado: O que faz seu personagem quando está sozinho? Assiste à TV? Exercita-se — corre ou pedala, por exemplo? Tem algum animal de estimação? De que tipo? Coleciona selos ou tem algum hobby interessante? Em suma, isto cobre a área da vida de seu personagem quando está sozinho.

Qual a necessidade de seu personagem? O que ele ou ela deseja no seu roteiro? Defina a necessidade do seu personagem. Se sua história é sobre um piloto de corridas competindo no Indianápolis 500, ele quer vencer a corrida. Esta é a sua necessidade.

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Uma vez definida a necessidade de seu personagem, você pode criar obstáculos a essa necessidade. Drama é conflito. A necessidade do personagem deve ficar clara, de forma que você possa criar obstáculos a essa necessidade. Isso empresta à sua história uma tensão dramática que freqüentemente falta ao roteiro de um novato.

A essência do personagem é a ação. Seu personagem é o que ele faz. Filmes são um meio visual e a responsabilidade o escritor é escolher uma imagem que dramatize cinematograficamente o seu personagem, você pode criar uma seqüência de diálogo num pequeno e abafado quarto de hotel, ou fazer a cena acontecer numa praia. Um é
visualmente fechado; o outro é visualmente aberto e dinâmico. É a sua história, sua escolha.

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Forme seus personagens criando biografias para eles e depois revele-os através de suas ações e possíveis traços físicos.

 

 

 

extraído do clássico
MANUAL DO ROTEIRO
SYD FIELD

Editora Objetiva
Capítulo 3

 

 

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