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COMO FAZER UM PROJETO DE HQ

A primeira coisa que se deve fazer ao propor um história em quadrinhos longa (uma graphic novel ou uma minissérie) para uma editora é um projeto.

Ele servirá para o editor perceber se a sua história funciona com muitas páginas e perceba a viabilidade econômica da empreitada.

Mas atenção: o fato de mandar um projeto para uma editora não significa que ele vá ser aprovado. E mesmo que seja aprovado, é possível que seja necessário fazer alguns ajustes. Se a resposta for negativa, não desanime. Muitos grandes roteiristas começaram tendo suas histórias recusadas.

Essencialmente, o que um projeto deve conter? Primeiramente, ele deve conter a trama, deve explicar tudo que vai acontecer na história. O ideal é ser objetivo, mas isso não significa que você não possa fazer considerações sobre a simbologia da HQ. Se, por exemplo, a sua trama for uma adaptação de Macbeth ambientada no futuro, isso deve constar no roteiro.

Por exemplo: “Essa é uma história da linha Vertigo, com suspense, terror e violência. Toda ela será ambientada na penumbra de um velho castelo da Escócia”. Em suma, toda indicação é interessante para que a editora saiba, caso a história seja aprovada, qual desenhista alocar para o projeto.

Além do resumo da história, faça um perfil dos personagens principais. Esse perfil pode revelar aspectos da história. Se, por exemplo, um personagem começa a história como amigo do mocinho e acaba traindo-o, isso deve constar no projeto. Veja um perfil, tirado de um projeto de Alan Noronha:

Ariadne – garota forte e pé no chão. Veio do interior. O nome significa “aquela que cura”, ou “que alivia”. Ela é doce, apesar de firme. Tem traços indígenas e olhos orientais ótimos para metáforas. Leitora de Fernando Pessoa. Tem uma paixão secreta por seu professor.

Como em geral um projeto é usado para histórias longas, nele devem constar, além da trama principal, as tramas paralelas.

O roteirista deve definir também como será contada a história. Ela será em flashback? A narrativa será linear? Como será o foco narrativo? No caso do flashback, como ele imagina que seria feita a diferenciação entre as cenas do passado e as cenas do presente? Todas essas informações são importantes.

Além da forma e dos personagens, o projeto deve conter também a ambientação. Onde se passa a história? Em que ano? Qual o clima da história? No caso de uma história futurista, cabe dissecar os principais aspectos dessa sociedade futurista.

O ideal é que, em uma história longa, tudo seja pensado. Em Watchmen, por exemplo, até a lanchonete Gunga Dinner tem uma história. Ela foi fundada na década de 60 por um indiano que emigrou para os EUA fugindo da grande fome que assolou seu país naquela década (claro, tudo isso é fictício).

Especifique o máximo de coisas sobre a ambientação em seu projeto. Isso vai ter dois méritos. O primeiro deles é mostrar ao editor que você realmente tem o domínio sobre o ambiente em que se passa a trama. O segundo é que isso servirá de guia para você mesmo quando estiver escrevendo o roteiro.

No caso de uma HQ que se passe no passado, também é importante acrescentar a ambientação. Até porque você estará demonstrando que pesquisou para escrever sua história. A pesquisa no caso de uma HQ história é fundamental. Deve-se assistir filmes, documentários, ler livros, ver ilustrações. Só isso pode impedir que você cometa escorregões.

Digamos, por exemplo, que você coloque um personagem comendo pizza em pela Idade Média. Legal, né? Se vou mostrar um italiano, vou colocá-lo comendo pizza. Só há um problema: a pizza, como nós a conhecemos hoje, só surgiu depois da descoberta da América, pois um dos seus ingredientes básicos, o tomate, não existia na Europa.

Se você fez uma exaustiva pesquisa sobre o período em que se passa a história, demonstre isso no projeto. Isso irá deixar o editor mais tranquilo quanto ao seu conhecimento de causa.

Extraído do capítulo 8 do livro “Como Escrever HQ”, de Gian Danton, Virtual Books.

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