ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

CONSELHOS DE WILL EISNER E FRANK MILLER

Você vai ler a seguir trechos do livro escrito a partir de uma conversa entre Will Eisner e Frank Miller, dois dos mais importantes autores de histórias em quadrinhos da modernidade e pós-modernidade – e que contribuíram para a evolução da nona arte. Will Eisner é o criador de “The Spirit” e de mais de uma dezena de premiadas graphic novels, além do clássico livro “Quadrinhos e Arte Sequencial”. Frank Miller foi quem revolucionou o “Demolidor”, na Marvel, e o Batman, com “O Retorno do Cavaleiro das Trevas”, na DC, além de assinar a criação de “Sin City”.

O livro “Eisner / Miller” é indispensável para quem quer conhecer mais os bastidores dessa indústria do entretenimento, para quem deseja aprender sobre a história dos quadrinhos e para quem já é artista do meio ou deseja seguir essa carreira.

Confira os trechos a seguir:

 

ATINGINDO O LEITOR DE QUADRINHOS

EISNER: Atmosfera e ambientação são tremendamente importantes para contar uma história. A única maneira de você estabelecer contato com o seu leitor é fazer referência a algo que o leitor pode sentir. Aprendi bem cedo que cada leitor sabe como é a chuva. Cada leitor sabe o que é calor. Cada leitor sabe o que é o frio. E cada leitor sabe sobre pequenas coisas que perturbam, como moscas e pedaços de papel que se movem em torno de nós todo o tempo. Todos são dispositivos muito acessíveis. Todos deveriam usá-los. Não tem de ser um pedaço de papel. Pode ser qualquer coisa.

MILLER: O que é realmente divertido, acho, é quando você estabelece a atmosfera ou um detalhe dela e precisa expressar a substância gráfica da cena e fazer o movimento do seu personagem através da chuva ou o que for. Essa pode ser uma experiência maravilhosa no desenho e você pode realmente fazer uma cena que as pessoas vão lembrar.

EISNER: Harvey Kurtzman deu o nome de chuva Eisnershpritz! Gosto de sentir a atmosfera. Gosto de sentir o ar arenoso e poeirento. Em “Sin City” você conseguiu isso de vez em quando. Há uma sensação de poeira quando o carro está seguindo pela estrada e os faróis estão acesos. Dá para sentir a atmosfera. Sei o que está ocorrendo. Ali, você está me atingindo. O que fazemos constantemente é pegar o leitor pelo colarinho, trazendo-o bem próximo e dizendo: “Olhe, quero que você saiba o que estou lhe dizendo.”

(…)

EISNER: Você deve ter sempre histórias para contar. Sua vida inteira é feita de histórias para contar.

MILLER: Uma das coisas que melhoram com o tempo é a sua precisão.

EISNER: É verdade. Depende do que você está contando. Se você tiver uma história para contar, então você está dependente das pessoas que estão na ação da história. Se você não tem uma história para contar, então você está criando um experiência visceral ou sensorial. Como em alguns filmes, você não precisa ter uma história para contar, então você se concentra puramente no estilo e na técnica, mas técnica é secundária. Técnica vem como resultado de como você faz o que você faz.

MILLER: Tenho estado por aí tempo suficiente para ver quais tipos de influência se passaram ao longo e vim concluir que, até recentemente, o campo tem sido bem incestuoso. As pessoas estão desenhando do mesmo modo que a geração anterior, mas não tão bem. Os jovens que têm aparecido recentemente não dão a menor importância sobre como os quadrinhos têm sido feitos. Eles vêm de uma cultura muito vibrante e juvenil. Acho que vamos ficar mais fortes em termos de imaginação visual.

(…)

MILLER: Você acredita em deixar o editor saber o que você está fazendo?

EISNER: Claro.

MILLER: Você não pode confiar em editores, Will, ora (risos)! Não, estou brincando.

EISNER: Não se trata de uma questão de confiar…

MILLER: Não, desde que eu não tenha de passar o controle para eles.

EISNER: Bem há uma questão sobre confiar. Não confio em contar a alguém algo que estou prestes a fazer, porque eu não confio que ele vá imaginar exatamente do modo como eu imaginaria. Se eu disser que vou fazer um sujeito saltando de uma ponte e morrendo enquanto ele está na água, a pessoa com quem estou conversando tem uma visão de qual lado da ponte o cara vai pular e como ele vai pular. Eu tenho uma visão diferente. Através dos anos, sempre acreditei que você não vende conversando, você vende mostrando. Você diz para o editor: “Isso é o que você vai receber. Quer comprar ou não quer comprar?” Não conto que um editor vá entender o que vou dizer. Não creio nisso. Quando você diz: “Não confio em um editor…” é isso que está querendo dizer?

MILLER: Não. Aliás, pelo tempo que já entreguei tanto de tudo, o editor já está tão familiarizado com minha história que provavelmente está enjoado dela! Eu falo incessantemente. Quando se trata de coisas em que não tenho os direitos, tento passar um cenário muito completo.

(…)

EISNER: Não tenho intenção alguma de capturar a essência de qualquer outra mídia. Estou em busca de uma conexão entre mim e o leitor. A única outra forma de entretenimento que oferece uma conexão real e vívida entre o espectador e o ator é o teatro. No teatro ao vivo você está sentado ali e assistindo a uma coisa real que está acontecendo. No cinema, você é apenas uma câmera. Não há o sentido de contato entre você e os atores. É uma experiência na qual você mergulha. Você é um espectador, e os quadrinhos são uma forma de participação.
Quero que o meu leitor sinta que ele está assistindo a uma coisa real. Começo tudo o que faço com as palavras “acredite em mim”. “Acredite em mim”, digo, “deixe-me contar para você esta história.”

Tecnicamente, trabalho atualmente com o teatro ao vivo porque não me preocupo mais em aplicar vistar aéreas e ângulos de câmera especiais. Quando as pessoas falavam da qualidade cinematográfica de “The Spirit”, era porque eu percebi, quando fazia “The Spirit”, que os filmes estavam criando uma linguagem visual e eu tinha de usar a mesma linguagem, porque quando você escreve para um público que fala suaili (uma das línguas da União Africana), é melhor escrever em suaili. Era o que eu fazia, então.

(…)

EISNER: O que faz o leitor permanecer na leitura? Seria uma imagenzinha mais complexa? Aparentemente, essa coisa se desloca na mesma taxa de velocidade que o mangá; ele dispara…

MILLER: Isso acontece muito frequentemente, mas então a velocidade se reduz e vai brecando para dar uma parada.

EISNER: O problema que eu tenho com o mangá é que quando a história está seguindo em um ritmo acelerado, não há nenhum ponto no qual eu posso prolongá-lo.

MILLER: O modo óbvio de desacelerar é simplesmente colocar as pessoas falando. Tenho uma cena muito estranha a qual me agrada muito. Nela, nosso herói está sabendo tudo o que aconteceu na vizinhança, no bar, por intermédio de uma mulher alcoolizada. A cena no bar é muito tensa, triste e estranha. E a história vai como um torpedo, mas então há momentos como esse. Quando você pergunta o que faz o leitor fiel, o exemplo perfeito é “Calvin e Haroldo” (de Bill Watterson). Os desenhos da série, apenas. Você para e olha para eles porque eles lhe dão prazer. O leitor é um pouco seduzido para ser fiel.

(…)

EISNER: O modo como eu conto histórias é como escrever uma carta para alguém. Conto às pessoas sobre o passado. Conto a alguém sobre o que aconteceu ontem.

MILLER: E eu sinto como se eu os tivesse assediando pelo telefone! (risos)

EISNER: É engraçado, mas é bom. E direto. É uma diferença muito compreensível. Estou lhe dizendo o que aconteceu. Estou falando a alguém agora mesmo, seja alguém da minha idade ou alguém que tenha experiência de vida suficiente para entender do que estou falando. Obviamente, na mídia em que trabalho, não posso entrar em detalhes tão mínimos quanto Saul Bellow a escrever a descrição de uma cena.

Quadrinhos tem essa limitação. Uma imagem tem um alto grau de limitação. Há uma determinada profundidade que não posso evocar sem a experiência visual. Meu leitor precisa ter um nível de experiência muito acentuado. Nossa narrativa inicia com uma imagem única, tirada de um fluxo contínuo de imagens…

 

 

Trechos das páginas 48, 49, 60, 79, 80, 94, 98, 99 e 271 do livro
EISNER / MILLER
Uma entrevista cara a cara conduzida por Charles Brownstein
Criativo Editora
2014
São Paulo

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