ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

VIRADA DE PÁGINA E GANCHO

Por Brian Michael Bendis

(Um) elemento específico à arte da página de quadrinhos é a virada de página. Stan Lee cunhou a famosa frase: “Todo gibi é o primeiro ou último gibi de alguém”. Se for o último, a culpa é do roteirista e do desenhista. Se for o primeiro e o leitor for fisgado, a culpa também é do roteirista e do desenhista.

Com essa filosofia na cabeça, Stan sempre bateu na ideia do gancho (ou cliffhanger – literalmente “pendurado à beira do precipício”) no fim da edição. Leia as cem primeiras edições do Homem-Aranha ou Quarteto Fantástico… a história não termina nunca. É gancho atrás de gancho! A cada 20 ou 22 páginas, sempre a coisa mais louca está prestes a acontecer. Acredito piamente nisso: a arte do gancho.

Em um documentário chamado “Countdown to Wednesday” (Contagem regressiva para a quarta-feira), Mark Waid confessou que era muito comum no seu dia a dia escrever um gancho sem saber como ia resolvê-lo na edição seguinte. Houve uma vez em que ele deixou literalmente um carro caindo de um precipício. Bravo!

Tentei levar a filosofia do Stan um pouquinho além. Tentei criar um minigancho ao fim de cada página. CADA PÁGINA. Vinte ganchos. Às vezes é um grandão – um personagem misterioso se revela ao herói. O leitor vira a página e descobre quem é. Às vezes é um pequeno – um personagem faz uma pergunta, mas o leitor tem que virar a página para descobrir a resposta.

Também notei uma coisa que os roteiristas e produtores do seriado “24 horas” tentaram. Eles tinham um gancho físico e um emocional. GANCHO DUPLO! Comecei a aplicar isso nos quadrinhos. A página 20 era um gancho físico: “Será que ele vai morrer?”

E a página 21 seria o gancho emocional: “Será que ela vai se separar dele?”.

Quando vejo gente na internet que fica louca com as minhas séries, mas mesmo assim continua comprando, eu sei que é por causa dos vintes miniganchos em cima desse gancho duplo. Fisguei você!

A importância do espaço físico da página de HQ e a arte de fisgar o leitor são duas mini artes muito importantes que você tem que confrontar no seu roteiro. Não existe resposta certa ou errada sobre como fazer. Saber que esses desafios existem vai deixá-lo bem afinado. O ato de procurar respostas para estes e outros desafios na página vai fazer você virar de imediato um roteirista de quadrinhos melhor.

 

 

Veja estes e outros ensinamentos de Brian Michael Bendis, roteirista premiado, no livro “Escrevendo Para Quadrinhos”

Extraído do capítulo “O Roteiro Modernos de Histórias em Quadrinhos”, página 197

Editora WMF Martins Fontes

 

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