ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

ALBERTO BENETT

ENTREVISTA

Por Fernando Passarelli

É de Curitiba que Alberto Benett produz seus quadrinhos e cartuns, publicados nos jornais Folha de S. Paulo e Plural, e pela internet. Foi um desses desenhos na Folha, sobre a violência policial, que incomodou PMs de São Paulo, no meio da pandemia do coronavírus. Benett foi interpelado na justiça, ao lado de colegas de traço – e não foi a primeira vez. “Já fui processado outras vezes, inclusive quando era estudante ainda”, lembra. É verdade, Benett começou muito cedo, aos 16 anos. Com pouco mais de 30 venceu o 32º Salão Internacional de Humor de Piracicaba, em 2005, na categoria tiras. Logo depois, em 2007, publicou o livro de tiras “Benett Apavora”. Mais tarde, em 2013, veio “Amok – Cabeça, Tronco e Membros”. Na entrevista a seguir, esse cartunista, nascido em Ponta Grossa (PR), fala da carreira, da demissão por imaturidade e de como suas refletiram a depressão que enfrentou na adolescência.

DEUS NO GIBI – Qual a sua idade e quantos anos já dedicou à produção de quadrinhos?

ALBERTO BENETT – Tenho quatro décadas e meia. Duas delas dedicadas às charges e tiras. Porque eu não me aventuro muito além dos três ou quatro quadros horizontais, me limito ao formato das tiras. A tira é o meio ideal para o tipo de humor que gosto de fazer, então, poucos quadros bastam. Além, é claro, de uma certa falta de paciência para desenhar.

DEUS NO GIBI – Você começou a carreira no fim da adolescência, aos 16 anos. Por que justamente nessa época e não mais tarde?

ALBERTO BENETT – A verdade é que eu já achava que devia ter começado antes, que 16 anos era muito tarde. E, bem, eu publiquei aos 16 anos, o que não significa que eu era profissional. Eram tiras espalhadas pelos jornais de minha cidade. Havia um jornal em que eu publicava charges políticas e calculava o preço em cheese-salada e coca-cola. Algo como R$ 10, isso foi há muito tempo. No entanto só tornei-me profissional no último ano do curso de jornalismo, com 25 anos.

DEUS NO GIBI – Qual o caminho que fez até conseguir chegar ao primeiro emprego em jornais?

ALBERTO BENETT – Eu trabalhava em uma agência de publicidade que pegou a conta de um jornal. Fizeram um novo projeto gráfico para esse jornal e criaram um espaço de charge e outro de cartum, além de ilustrações. O editor do jornal viu algumas tiras minhas e resolveu me contratar. Mas durou somente um mês. Eu era muito novo, desenho péssimo, os temas eram inadequados. Fui demitido e decidi que nunca mais perderia um emprego por imaturidade. Resolvi estudar jornalismo. Foi minha segunda falta de maturidade em menos de um ano (risos).

O cartum questionado na justiça

DEUS NO GIBI – Em junho deste ano de 2020 você foi interpelado pela Polícia Militar – ao lado de Laerte, João Montanaro e Cláudio Mor – por cartuns sobre a violência policial no Brasil. Houve apoio do jornal na sua defesa?

ALBERTO BENETT – Sim, o jornal deu todo o apoio jurídico para nós. Afinal, esse processo parece uma peça criada somente para, digamos assim, pisar no pescoço da liberdade de imprensa.

DEUS NO GIBI – Esse é o tipo de situação que reflete muito uma postura opressora atual das instituições – que cresce na sociedade brasileira. Que tipo de sentimento o episódio gerou em você? E de que forma isso alimenta os seus trabalhos?

ALBERTO BENETT – Eu já convivo com esse tipo de reação faz muito tempo. Já fui processado outras vezes, inclusive quando era estudante ainda. A leitura de mundo desse pessoal é ingênua. Eles precisam de aulas de interpretação da realidade, além da de texto. Processar um chargista vai dar mais publicidade para a charge, vai causar comoção em setores da sociedade. Não é uma jogada muito inteligente, aliás, como tem sido o comportamento do poder público ultimamente. Mas eles estão mal orientados, eles seguem o Olavo de Carvalho.

DEUS NO GIBI – Existe um tom muito existencialista em algumas das suas tiras. Você até já disse que é influenciado pela obra de Charles Schulz, na condução de uma narrativa a partir dos seus dilemas. E o que você reflete na sua produção?

ALBERTO BENETT – Uma coisa nada engraçada motivou essas tiras. Tive depressão mais ou menos aos 16, 17 anos. Então eu queria criar uma tira em quadrinhos que falasse desses problemas que me atormentavam. Criei um personagem que era um homem com uma espada na barriga vivendo seus últimos momentos de vida, esperando a morte, mas ela nunca chegava, o que tornava tudo um pesadelo. Tinha outro que era invertebrado. Eram autobiográficos, por aí você pode ver como estavam as coisas. Mas eles eram personagens de humor, eu meio que ridicularizava os problemas. Acho que foi a forma com que lidei com tudo. Transferi para eles meus próprios demônios. Eu sabia que tinha algo interessante naquele trabalho. Acho que minha depressão foi embora quando o escritor Valêncio Xavier viu minhas tiras e fez uma matéria sobre elas no jornal. Schulz e Woody Allen eram dois autores que acompanhei muito durante aquele período, porque me identificava com aqueles personagens neuróticos, fracassados. Além, claro, do senso de humor deles ser de outro mundo.

DEUS NO GIBI – Já se vão 15 anos desde que você venceu o Salão de Humor de Piracicaba. Se o Benett de hoje pudesse encontrar com aquele Benett, do Festival, o que diria para ele?

ALBERTO BENETT – Isso me lembra um conto do Borges, em que o velho Borges encontra-se com o jovem Borges em um banco às margens do rio Charles, em Cambridge, Boston. Aliás, Borges era outro que eu lia com muito durante os terríveis anos de adolescente. Acho que eu diria “não esqueça do que você não pode esquecer”.

DEUS NO GIBI – O que você gosta de ler ou está lendo atualmente?

ALBERTO BENETT – Acho que definitivamente gosto de literatura escapista. Lovecraft, Borges. Livros que me jogam numa realidade mais cruel do que a que já vivemos me perturbam demais. O último desses foi “Escravidão”, do Laurentino Gomes, e me senti mal. Outro que me causou náuseas foi “Carandiru”, do Drauzio Varela. São obras que te destroem. Li recentemente um do Carlos Amorim sobre o Comando Vermelho e a descrição das condições dos presídios são inacreditáveis. Agora estou lendo “A Tensão Superficial do Tempo”, do Cristóvão Tezza.

DEUS NO GIBI – E que conselhos pode deixar para quem gostaria de viver de quadrinhos – desenhando, escrevendo ou publicando – no Brasil?

ALBERTO BENETT – Seja autêntico. Acho que é um bom começo.

 

Para conhecer mais o trabalho do Benett acesse:

https://cartunistabenett.wordpress.com/

Julho de 2020

 

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