ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

GALVÃO BERTAZZI

ENTREVISTA

Por Fernando Passarelli

Quem nunca buscou uma solução ‘visual’ para explicar um conceito ou uma resposta difícil de ser compreendida? Algo como: quer que eu desenhe pra você entender? Isso acontece, às vezes, quando o interlocutor parece que tem os olhos tapados para a realidade. O trabalho do Galvão Bertazzi é como essa tentativa de esclarecer aquilo que a sociedade não vê – ou finge que não vê… Porque ele desenha situações que, de tão absurdas, estão ali mesmo – e a gente não tinha reparado. “Peguei a manha de retratar a cretinice urbana de forma universal”, explica. Pegou mesmo. E não só a cretinice urbana, a espiritual também. O personagem Jesus Armado – com ‘r’ mesmo – sintetiza um desejo de ‘cristãos’ – com aspas mesmo – de servir um deus que recorre à violência armamentista. “Me perdoem os cristãos que não se enquadrem nisso tudo, mas é responsabilidade de vocês prezar pelo que é mostrado aos que são de fora das igrejas, em cultos, missas e etc”, alerta. “O que tem sido mostrado ultimamente é um discurso raso e perigoso de complacência com a violência, repressão e ódio”. Não é você quem precisa pedir perdão, não. Porque a voz de um profeta pode vir em tiras com tons de vermelho e amarelo, e traços soltos, rabiscados a partir de Florianópolis. No começo de 2021, quando a genial Laerte foi internada com Covid, foi Galvão o desenhista substituto escolhido pelo jornal Folha de S. Paulo. E ele não deixou o nível das tiras cair um milímetro sequer. “Tentei ao máximo honrar aquele espaço que pertence a ela” – e conseguiu. Confira a entrevista a seguir, feita no meio da pandemia do Coronavirus.

DEUS NO GIBI – Uma das qualidades das suas tiras é que você retrata muito bem as relações entre as pessoas. O quanto seu trabalho fala de você ou do que você sente?

GALVÃO BERTAZZI – Eu costumo dizer que todas as tiras são sobre mim. Uma das minhas maiores preocupações, ao postar uma tira, é não apontar o dedo pra ninguém, não quero cagar regras e nem apontar culpados, salvo alguns casos claro. Gosto de fazer algumas piadas bobas, mas com alguma acidez extra nelas. Eu gosto de pensar em mim mesmo inserido nesse caos de informações e possibilidade tortas do mundo contemporâneo, e a partir disso materializo personagens, ceninhas e situações absurdas – mas que, de tão absurdas, cabem para qualquer um. É comum a carapuça servir, tanto pra mim quanto pra quem lê, mas é que faz parte do meu repertório pessoal o inconsciente coletivo. Ainda preciso afiar bastante a minha síntese, tanto textual quanto gráfica, mas isso é o trabalho de uma vida inteira e a cada dia as temáticas e os desenhos vão se transformando. É um processo natural. Sinceramente, eu nem acho minhas tiras engraçadas, ou pelo menos a intenção não é fazer uma mera piada sobre as coisas.

DEUS NO GIBI – Como é o seu ritmo de produção de tiras?

GALVÃO BERTAZZI – A produção nunca para. Eu desenho compulsivamente há anos, faz parte do meu dia. Geralmente acordo, tomo alguns baldes de café e já vou pro escritório/estúdio que fica na minha casa mesmo. Costumo desenhar muito pela manhã. Pode ser que as tiras se resolvam rapidamente, como podem demorar horas pra ficarem minimamente ok pra apresentar pro público.

DEUS NO GIBI – Você usa intencionalmente uma paleta de tons com vermelho, amarelo e laranja. O quanto isso interfere na criação do seu trabalho?

GALVÃO BERTAZZI – É uma escolha natural. Eu consigo compor e resolver melhor meus desenhos e pinturas com tons mais quentes. Deve ter algum registro na minha psique, onde vejo e imagino o mundo pegando fogo o tempo inteiro, como se uma tragédia estivesse a ponto de acontecer. Este, na verdade, é um dos temas que mais gosto de trabalhar: a pasmaceira pessoal frente a um possível desastre. O vermelho e amarelo meio que transmitem uma tensão constante, e eu gosto de explorar isso.

DEUS NO GIBI – Numa entrevista anterior você disse que tinha inveja de quem sabe usar o azul.

GALVÃO BERTAZZI – Isso foi há um tempo, me lembro quando disse isso em alguma outra entrevista. Mas acho que perdi o medo das cores, perdi o medo do azul. Hoje até gosto do azul, mas ele me dá sono e eu preciso de estímulo e ansiedade pra produzir, por isso a recorrência da paleta de cores mais quentes.

DEUS NO GIBI – Você consegue captar muito bem o clima insano e até medíocre da vida numa metrópole, como São Paulo. Qual o segredo?

GALVÃO BERTAZZI – Eu não moro em São Paulo, mas peguei a manha há algum tempo atrás de retratar a cretinice urbana de forma universal. Minha maior preocupação é fazer tiras que não sejam regionais e nem temporais. Penso sempre na possibilidade de ela ser lida, entendida e comentada, não importando onde e nem quando. Por isso que pra mim é muito caro ter que “perder tempo” fazendo tiras tão pontuais como as que uso pra criticar esse governo esclerosado e os efeitos dele na sociedade, de forma geral. Eu não gosto disso, mas faço por obrigação de me manifestar contra tudo que é disseminado por aí.

DEUS NO GIBI – Você já retratou um Jesus, defendido por parte da população brasileira, que não pensa duas vezes antes de recorrer à violência ou às armas. Houve reação por parte de alguns religiosos?

GALVÃO BERTAZZI – Ah, cara! Já recebi e-mails, comentários e até mensagens inbox querendo que eu apague, ou tentando me doutrinar de alguma forma. Eu já frequentei igrejas diversas, já fiz minha própria busca religiosa e espiritual e tenho minhas quase certezas hoje em dia sobre muitas coisas metafísicas. Me preocupa muito o dogma cego vindo de qualquer religião. Me preocupa demais essa cagação de regra cristã brasileira. Me perdoe a expressão. É um discurso geralmente permeado de proibições e preconceitos arcaicos e absurdos com um único intuito de controle e repressão pessoal e social. Essa mania besta de ficar vigiando, fiscalizando o que faz o outro, se tornou uma coisa tão séria e cabulosa que não terminaria de outra maneira: abraçar o discurso armamentista de um Presidente louco e que legitima um discurso proibitivo, conservador e retrógrado, com o único propósito de fazer descer goela abaixo normas de conduta, regras e outras besteiras danosas através do medo e coação. Não sei… não vejo muita diferença no modus operandi de um Estado Islâmico e o que se prega hoje em dia nas igrejas e conversas informais entre evangélicos, de modo especial. Me perdoem a todos os cristãos que não se enquadrem nisso tudo que estou escrevendo aqui. Mas é responsabilidade de vocês prezar pelo que é mostrado aos que são de fora das igrejas, em cultos, missas e etc. O que tem sido mostrado ultimamente é um discurso raso e perigoso de complacência com a violência, repressão e ódio. Meu personagem JESUS ARMADO é um resumo disso. Jesus volta e volta armado, metendo bala em qualquer um que discorde do que ele e seus seguidores fanáticos digam.

DEUS NO GIBI – Como foi a sua experiência na substituição da Laerte, durante o período de internação dela, nos quadrinhos da Folha de S. Paulo?

GALVÃO BERTAZZI – Foi um misto de tudo, sabe? Aquele espaço das tiras da Folha é a melhor, pra não dizer a única vitrine relevante nas páginas de um jornal brasileiro. A tradição de publicação de tiras meio que foi deixada de lado ao longo dos anos e o espaço da Folha é um dos únicos que resistem. Eu sonho em publicar ali diariamente. Hoje em dia acho que conseguiria segurar a onda de produzir diariamente um material legal. Ser convidado pra publicar ali teria sido motivo de comemoração, se não fosse o motivo: segurar as pontas enquanto a Laerte se recuperava. A Covid pegou de cheio e ela teve que ficar uns dias se recuperando. No começo foi tudo muito tenso, mas a Laerte é f* e voltou com tudo. Então, tentei ao máximo honrar aquele espaço que pertence a ela!

DEUS NO GIBI – Qual a dica que você daria para quem deseja desenhar quadrinhos com temáticas semelhantes, de crítica social?

GALVÃO BERTAZZI – Cara, não sei bem como dar dicas sobre nada. Eu mesmo não sei muito bem o que faço até hoje! Mas prestar atenção ao que acontece, ter muito filtro pessoal com as notícias e informações que chegam, saber selecionar e saber que elementos usar pra criticar, opinar e publicar algo. Os leitores hoje em dia estão mais atentos, são bem mais exigentes do que antes e esperam um nível de sofisticação nas tiras e nos cartuns.

DEUS NO GIBI – Diga três números sobre a sua vida: idade, horas desenhando e quantidade de xícaras de café tomadas por dia.

GALVÃO BERTAZZI – Faço 44 anos esse ano (2021), pelo menos 5 horas desenhando por dia e quantidades indecentes de xícaras de café!

Conheça mais do trabalho do Galvão Bertazzi no:
https://www.galvaobertazzi.com/

 

 

Abril de 2021

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