ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

IURI REBLIN


ENTREVISTA

Por Fernando Passarelli

Iuri Andreas Reblin é dono de uma formação acadêmica que merece destaque, principalmente em terras tupiniquins. E esse doutor em teologia está sempre disposto a se debruçar sobre as letras e usar a inteligência – presente divino – para compreender o mundo e a nossa relação com o Criador. Iuri é o autor do livro “Para o alto e avante: Uma análise do universo criativo dos super-heróis”, que reúne textos publicados nas revistas “Espaço Acadêmico” e “Protestantismo em Revista”. Luterano, ele conta que os artigos foram bem recebidos no meio acadêmico. “A repercussão foi muito positiva, também no âmbito teológico”. Ainda bem! Confira a seguir a entrevista ao Deus no Gibi.

DEUS NO GIBI – Como se deu a publicação do livro. Houve um convite ou você sugeriu o projeto à editora?

IURI – O processo de publicação do livro foi bastante singular. Quando a ideia surgiu, eu já havia escrito a primeira versão dos cinco artigos que compõem a obra. A proposta de compilar um livro sobre o universo dos super-heróis emergiu de duas direções. Por um lado, como leitor antigo de quadrinhos e intelectual, eu sentia falta no mercado de um material que abordasse o universo dos super-heróis numa perspectiva mais interdisciplinar e que englobasse também o pensamento teológico. Como “janela da realidade”, o mundo que representamos no cinema ou nos quadrinhos é sempre, de uma forma mais nítida ou confusa, um reflexo do mundo que vivemos. Sociedade, economia, religião, cultura, tudo pode ser encontrado nos quadrinhos, claro, em proporções desiguais, sujeitas à história que se quer contar. E por mais que algumas correntes religiosas possam insistir, não é possível separar “as coisas do mundo” e “as coisas de Deus”, porque Deus se revela no mundo – se não o fizesse, não poderíamos ter experiência com Ele e não poderíamos identificar suas ações – e a nós, e somos nós que, por meio da linguagem, traduzimos nossas experiências religiosas. Nesse sentido, acho que o protestantismo a partir do pensamento de Martinho Lutero procura justamente evidenciar essa ambiguidade que permeia a vida. Como o material que eu havia escrito já estava disponível há algum tempo na internet, achei que seria necessário acelerar o processo de publicação, ao invés do texto ficar tramitando por meses pelas editoras e se sujeitar ao cronograma de publicações. Então, com o texto pronto e um projeto, encaminhei a uma empresa, que patrocinou a publicação.

DEUS NO GIBI – Qual a sua formação eclesiástica e que tipo de curso fazia na época em que escreveu os textos do livro?

IURI – Sou luterano de berço. Meu pai atuou durante algum tempo em comunidades eclesiais no Estado do Espírito Santo, até que veio a falecer em decorrência de um tumor maligno no cérebro quando eu tinha dezesseis, dezessete anos. O reflexo de seu bom trabalho na comunidade, bem como o da minha mãe, e o vazio de sua ausência e, na época, o medo de sua morte, me conduziram a fazer o curso de teologia. Não buscava nenhum milagre, mas ficar mais próximo dele. Depois do curso, atuei durante um ano numa comunidade luterana no interior do Rio Grande do Sul, no programa chamado “Período Prático de Habilitação ao Ministério Pastoral”, que era o que a Igreja a qual pertenço exige para o ingresso no quadro de obreiros. Na época, a Igreja estava passando por algumas re-estruturações na Secretaria de Pessoal e por excesso de contingente, se assim se pode chamar. Havia mais candidatos que vagas nas comunidades. Então, para não entrar na fila de espera, decidi verter para a caminhada acadêmica. Ingressei no mestrado em teologia, tornei-me mestre, dei algumas aulas e acabei me interessando em lecionar.

DEUS NO GIBI – Qual foi a reação dos responsáveis pela “Protestantismo em Revista” e “Espaço Acadêmico” quando souberam que o objeto de seus artigos seriam histórias em quadrinhos e super-heróis?

IURI – Ambos receberam os textos de forma muito positiva e acolhedora. O professor Oneide Bobsin, coordenador geral da “Protestantismo em Revista”, foi meu orientador no Trabalho de Conclusão de Curso no Bacharelado em Teologia, o qual abordou a religiosidade e a axiologia no universo dos super-heróis. Então, a primeira ideia foi condensar o texto na forma de um artigo e publicá-lo. Na “Espaço Acadêmico” também foi bem interessante. Eu descobri a revista quando fazia a pesquisa para o TCC. Lá encontrei artigos do sociólogo Nildo Viana, o qual assina o prefácio do livro. E esses texto serviram de inspiração e fonte de pesquisa para o TCC. O tema dos quadrinhos, em geral, é aceito pelas ciências humanas – sociologia, antropologia, psicologia, educação – e pelas ciências sociais aplicadas – comunicação, arte.

DEUS NO GIBI – No seu livro você fala da repercussão que esses textos tiveram. Você sofreu algum tipo de preconceito por esses textos ou após a publicação do livro?

IURI – Não senti nenhum preconceito contundente. Percebi um certo espanto quanto tentei abordar o tema dentro de uma academia de teologia. Mas, de modo em geral, os textos foram muito aceitos e a repercussão foi muito positiva, também no âmbito teológico.

DEUS NO GIBI – Você fala que é um grande equívoco tratar o mito apenas como um ilusão ou uma mentira, porque ele acontece no âmbito da realidade humana, da experiência que o indivíduo cria com seu meio. Diz ainda que o mito “é real por tratar da origem das coisas, dos universos de sentido e das instituições”. Até onde tratamos os personagens da Bíblia, os heróis da fé, como mitos? E como essa “mitologia bíblica” que criamos pode nos afastar do Deus verdadeiro?

IURI – O problema de lidar com as histórias dos personagens da Bíblia como histórias originárias, que lidam com os valores e sentidos humanos é pertinente. Os personagens bíblicos não são mais tratados como mitos no sentido do mito, mas no sentido de ilusão e mentira e isso é um problema, porque se extrai desses personagens um significado existencial. Nesse caso, as histórias bíblicas acabam se tornando histórias como outras quaisquer. As histórias bíblicas são histórias míticas que querem responder a nossa ânsia por sentido, transmitir os valores de um grupo, e valores que possam ter um propósito mais profundo em nossas vidas. Não se pode contrapor mito e verdade, pois eles não estão em contraposição. O problema é nosso vício contemporâneo de duas vias. De, por um lado, ficar insistindo de que o que aconteceu nos tempos bíblicos, aconteceu do jeito que aconteceu e foi fielmente transcrito, e de, por outro lado, procurar evidências de que aquilo que está escrito, realmente possa ter acontecido, se não igual como tá escrito, mas pelo menos de forma semelhante ao relatado. E, no fundo, não é nada disso, e não é esse o objetivo dessas histórias. Elas não existem por serem verdade ou mentira. Elas existem para nos darem uma direção, um horizonte para o qual caminhar, para refletir sobre nossa condição humana no mundo e para serem uma possibilidade de resposta às questões existenciais que possuímos. Apenas isso e isso é o suficiente. Temos de nos livrar dos parâmetros cientificistas positivistas que pretendem de um jeito ou outro intuir em nossas experiências religiosas. Creio que nos perderemos se nos atentarmos demasiadamente para o que não é relevante nessas histórias, isto é, se elas existiram mesmo ou não. Agora, por outro lado, a questão que se coloca também é: ninguém pode dizer como Deus é. Como saberemos que estaremos nos afastando do “Deus verdadeiro”. Quer dizer que existe um “Deus falso”? Temos que evitar enquadrar Deus constantemente em categorias humanas: verdadeiro, falso, bom, mau, justo, injusto. Deus é Deus e escapa de nossa esfera de apreensão.

DEUS NO GIBI – Vários trechos do seu livro podem funcionar como temas para estudos em igrejas, comunidades religiosas, pequenos grupos. As pessoas estão preparadas para isso ou ainda ficam achando que gibi é “coisa de criança”?

IURI – Gibi já deixou de ser coisa de criança há muito tempo. Basta olhar o público que compra quadrinhos atualmente, o tipo de material disponível e também a tranposição, cada vez mais frequente, destas histórias para o cinema. É verdade que muitos temas abordados no livro servem para o trabalho em comunidades eclesiais. A ideia de mito, de herói, construção social, identidade cultural e temas como preconceito, alteridade, como os abordados no livro, servem para o trabalho comunitário. Muitas pessoas da área da educação, professoras, têm me abordado para discutir os temas em salas de aula e eu acho isso super bacana. É aquela ideia de “janela da realidade” da qual falei antes e na qual não há como dissociar elementos.

DEUS NO GIBI – Como estudioso e fã de quadrinhos, você compartilha da opinião que falta maturidade às editoras cristãs do Brasil a respeito do potencial das histórias em quadrinhos?

IURI – Acho que não é necessariamente uma questão de maturidade, mas uma questão de visão de mercado. Quadrinhos geralmente cativam o público jovem, adolescente e também o adulto. Muitos daqueles que na década de oitenta eram crianças e compravam gibis, como eu, continuam a fazê-lo hoje. É por isso que a Editora Panini tem investido cada vez mais em livros refinados, de capa dura, que comportam histórias completas ou que marcaram época. São livros caros, de tiragem limitada, para um público seleto, que cresceu lendo quadrinhos.

DEUS NO GIBI – Para finalizar, que super-poder você acha que falta aos líderes religiosos de hoje?

IURI – Eu acho que o que está faltando é justamente a ausência de poder, de dizer que líderes religiosos não tem poder algum e que são humanos como nós e, como todos que vivem sobre o planeta, estão aprendendo dia-a-dia a viver. Não possuem fórmulas de sucesso ou receitas para viver bem.

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