ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

JOSÉ ALBERTO LOVETRO – JAL

ENTREVISTA

Por Fernando Passarelli

José Alberto Lovetro, o JAL, é jornalista e cartunista com passagem pelos principais veículos de imprensa do Brasil. É o presidente da Associação de Cartunistas do Brasil e também o criador – com Gualberto Costa e Serginho Groisman, do Troféu HQ Mix, a mais importante premiação de quadrinhos do país. Com esse currículo poderoso, o JAL não precisava de mais nada para figurar entre os nomes de destaque da nona arte por essas bandas.  Mas ele foi além. E ao lado da professora Dra. Sonia Maria Bibe Luyten desenvolveu o livro “Efeito HQ”, que ensina a educadores, professores e diretores de escola formas simples de usar os quadrinhos para melhorar o ensino. Logo o projeto vai completar dois anos de lançamento. O nome é uma analogia do “efeito borboleta” – segundo o qual, de maneira simplificada, o bater das asas de uma borboleta pode influenciar o curso natural das coisas e até provocar um tufão do outro lado do planeta. Faz sentido, já que o uso dos quadrinhos como recurso pedagógico pode levar ao crescimento do interesse dos estudantes em até 100%. “Nosso livro não dá fórmulas fixas mas dicas para haver mais criatividade em torno delas“, explica o JAL. “A criatividade do professor que conhece seus alunos é mais importante que o livro.”

DEUS NO GIBI – O projeto “Efeito HQ” já foi utilizado por mais de 2 mil professores, até agora, julho de 2019. Que retorno tem obtido desses profissionais, a respeito da aplicação dos quadrinhos em sala de aula?

JAL – Falamos com vários professores e eles estão sempre dizendo que os resultados são ótimos. Que crianças adoram desenhar e criar histórias. Foram muitos anos com workshops e palestras. A experiência de ficarmos durante 3 meses imergindo em duas escolas cedidas pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo foi o diferencial para sabermos como escrever um livro mais direto e simples para os professores.

DEUS NO GIBI – Você disse que o índice de evolução dos alunos pode chegar a 100%, no caso dos alunos que dormem em sala de aula. Vocês esperavam alcançar uma transformação tão grande na vida e no aprendizado desses estudantes?

JAL – A experiência nas duas escolas foi esclarecedora e sensacional para entendermos que para que o professor tenha bons resultados seria necessários exercícios que aplicassem em um dia e no dia seguinte já tivessem boas respostas à ferramenta. Nessas escolas havia os alunos surdos da cota que as escolas tem que cumprir. Esses foram os que mais souberam aproveitar a experiência. O som para eles é apenas a vibração, mas nos quadrinhos o som é escrito. Eles puderam criar os próprios sons que imaginaram em onomatopeias próprias. E se sentiram iguais aos outros alunos justamente onde eles são considerados deficientes. O que houve foi que os alunos sem deficiência se interessaram em ver o que os ditos deficientes criaram. A linguagem das HQs sempre tem algo inusitado a nos mostrar.

DEUS NO GIBI – E como foi o uso do “Efeito HQ” na Fundação Casa?

JAL – A experiência na antiga FEBEM, atual fundação Casa, também foi reveladora. Na palestra aos professores da entidade pedi que ensinassem aos jovens e crianças a linguagem dos quadrinhos. E depois pedissem para eles desenharem uma história sobre a vida deles. É um processo de terapia e descobrimos que esse canal de comunicação que eles ganham faz com que ajude a diminuir a violência que faz parte da vida deles. O desenho ajuda que cada um de nós crie sua própria casa, seu próprio carro, sua própria vida. Nesse processo a pessoa sabe que tem aí um mundo para criar. E pode ser melhor.

DEUS NO GIBI – Você vivenciou vários momentos do mercado brasileiro de quadrinhos. Na situação atual, com tanta proliferação de títulos e facilidades de acesso à leitura, ainda existe muito preconceito sobre os quadrinhos na escola?

JAL – Se ainda existem acredito que estão caindo por terra porque boa parte, e digo a maioria, se alfabetizou com os quadrinhos. Inclusive os professores. Sabem que é algo precioso no mundo atual onde o nível de leitura está caindo ano a ano. Só que sempre utilizaram os quadrinhos de uma forma empírica dentro da sala de aula. Precisavam de um direcionamento mais criativo. Nosso livro não dá fórmulas fixas, mas dicas para haver mais criatividade em torno delas. A criatividade do professor que conhece seus alunos é mais importante que o livro. Pensamos em instigar com nosso livro.

DEUS NO GIBI – Você já disse, a respeito do uso das HQ’s no ensino, que “não podemos imaginar os quadrinhos apenas como um estímulo de leitura, mas sim como estímulo para qualquer outra área cultural”. Mas como um professor pode transmitir esse tipo de estímulo – ou motivação – se ele próprio não é acostumado a ler quadrinhos? Pior ainda, e se o professor não gosta de quadrinhos?

JAL – Sim, tem professor que não gosta de ler quadrinhos, embora já tenha lido em criança. Mas o que o professor vai gostar é de ver seus alunos crescerem no interesse pela matéria e isso é tudo o que ele quer. Por isso o livro começa com um estímulo à auto-estima do professor. Coloca que se não há um bom professor não há um futuro engenheiro, um futuro advogado, um futuro médico ou qualquer outro profissional de boa qualidade. Então ser professor é a profissão mais importante do mundo. Depois, com os problemas de violência dentro da sala de aula, o professor vai perceber que quando um jovem ou criança desenham eles não ficam violentos. E podem ver o professor mais como amigo, pelo prazer de poderem exercer a comunicação e a criatividade.

DEUS NO GIBI – Como evitar que o uso dos quadrinhos se transforme em atividade de “corta-e-cola”, apenas como material de educação artística, sem aprofundamento na leitura e interpretação do conteúdo?

JAL – Dentro dos quadrinhos temos várias linguagens básicas. Literatura, cinema, artes plásticas, artes gráficas, design, moda, fotografia e até teatro. Sim, o leitor é co-autor da história já que é ele quem dá o tom de voz do personagem, a entonação e o “time” da HQ. No livro damos essas dicas para que o professor e os alunos construam sua criatividade.

DEUS NO GIBI – Você não acha que seria fundamental haver também um preparo dos dirigentes de ensino, diretores de escola e coordenadores pedagógicos – a respeito do uso dos quadrinhos nos planos de aula?

JAL – Por isso na nossa incursão nas duas escolas, por 3 meses, começamos a conversar com os diretores, depois os professores e aí chegamos aos alunos. Claro que é preciso um trabalho conjunto. Mas são os professores que introduzem técnicas próprias e criativas. O que é preciso é que diretores e educadores saibam estimular isso aos professores. Nossa meta é atingir o educador em geral.

DEUS NO GIBI – Como transformar alunos em leitores críticos de quadrinhos?

JAL – Quanto mais lerem mais serão críticos. É como você assistir a um mesmo filme duas ou três vezes. Na terceira vez que estiver assistindo vai procurar novos detalhes além dos que já viu. E é aí que verá algumas falhas que não percebeu antes. O processo vale para leituras que, mesmo sendo diferentes, fazem o processo de acumular conhecimento da linguagem. Até dominar de tal forma que quer saídas diferentes e criativas para manter o interesse sobre a leitura.

DEUS NO GIBI – Que dica preciosa gostaria de ter recebido no começo da sua carreira, que hoje daria?

JAL – Comecei como a maioria de desenhistas autodidatas. Estimulado pelos personagens, tanto de HQ como de animações, fui copiando e desenvolvendo a ação de ver e conseguir passar para a ação motora da mão. Depois é a fase de toda família dar força e você se sente o super desenhista. Aí vai procurar alguém profissional pra ver teu trabalho e te dar uma chance, e recebe a dose de realidade que, logo de cara, te deixa chateado. Claro, o profissional vê todos os defeitos antes de ver as qualidades. Então, o que eu senti falta, na época, eram livros ou escolas de desenho que não só ensinassem desenho mas também sobre o mercado de trabalho que eu iria enfrentar. Hoje, com a internet, basta saber pesquisar pra ter tudo nas mãos. Nosso site mesmo tem muita informação importante (https://hqmix.com.br/associacao-dos-cartunistas) e tem o livro “Guia do Ilustrador” que é um manual feito por cartunistas para dar o passo-a-passo para a carreira. Quem lê ganha anos de dianteira dos outros.

Para baixar o material do projeto Efeito HQ, clique aqui.

Baixar em PDF