ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

LEDERLY MENDONÇA


ENTREVISTA

Por Fernando Passarelli

Formado em Artes Plásticas pelo Instituto Federal de Educação do Ceará, Lederly Mendonça deixou as agências de publicidade de Fortaleza para dar aulas de quadrinhos. Já trabalhou na FANOR/Devry, SESC e SENAC e hoje é professor nos cursos de Design Gráfico, Design de Interiores e Design de Moda do Centro Universitário Estácio do Ceará. Ele já deu aulas de desenho artístico, ilustração, mangá, cartum, caricatura, pintura e “mais um montão de coisas”. É autor do livro “A Espetacular Arte de Desenhar Quadrinhos”, que está na 3ª edição. Confira, a seguir, a entrevista dada ao Deus no Gibi.

DEUS NO GIBI – Como um aluno chega até as aulas de desenho de quadrinhos? Se é criança é forçada pelos pais, se é mais jovem está interessado em enriquecer?

LEDERLY – Depende. No caso dos adolescentes, eles chegam com a intenção de aprender e aperfeiçoar algum estilo ou técnica que já conheçam. Mas tem também os casos em que eles chegam procurando uma profissão ou passatempo. As pessoas mais maduras geralmente procuram os cursos porque já estão com a vida ganha e querem agora realmente fazer o que gostam. Nos casos das crianças, e eu dava aulas para esta faixa etária no SESC, vez ou outra aparecia uma sendo forçada pelos pais. Claro que eu sempre orientava que o objetivo daquele curso ou oficina não era forçar uma profissão. Antes de tudo, o desenho vem para estimular a criatividade, concentração, disciplina e percepção.

DEUS NO GIBI – Os quadrinhos de heróis ainda são a referência principal para os jovens alunos?

LEDERLY – Com certeza esta geração deixou de lado os heróis e cartuns e passou para o mangá. Isso tem prós e contras. Para esses jovens, o mangá acaba sendo quase uma religião. Defendem com unhas e dentes como se tivessem falando de times de futebol! Isso é ruim porque eles se fecham apenas naquele tipo de quadrinho e esquecem que o japonês é, acima de tudo, um grande pesquisador. Mesmo em minhas aulas de mangá procuro mostrar que os japoneses chegaram onde estão em termos de narrativa justamente por não se fecharem num casulo. Eles pegaram o que há de melhor no mundo e adaptaram para a sua cultura extremamente visual. Costumo iniciar minhas aulas exibindo “Metrópolis”, de Tezuka, e em seguida mostrando desenhos antigos da Disney para que os alunos vejam quais eram as influências do mestre japonês em termos de estilo de desenho. Os mangakas iniciantes precisam abrir os olhos para a pesquisa! Como em todo gênero, existem as boas histórias e as histórias ruins. Não precisa trocar o mangá por super-heróis, que é um gênero já desgastado. Mas que tal olhar um pouco também para a Europa? Taiyo Matsumoto fez isso, olhou para Moebius e criou “Preto e Branco”.

DEUS NO GIBI – Qualquer um pode aprender a desenhar, mesmo sem habilidade?

LEDERLY – Parece mentira, mas com dedicação, qualquer pessoa aprende a desenhar. Afinal de contas, desenhar é uma linguagem como qualquer outra. Você não aprende a falar inglês? O problema é que ainda existe essa visão medieval do desenho como dom divino reservado para poucos!

DEUS NO GIBI – Qual foi a reação das pessoas quando as dicas de desenho foram publicadas no jornal Folha do Ceará e depois disponibilizadas no seu site?

LEDERLY – Penso que o conhecimento deve ser compartilhado, qualquer que seja ele. Quando inventei o meu site, a intenção era ter um canal de comunicação direto com os meus alunos e ex-alunos, no qual eu tiraria dúvidas, expandiria exercícios de sala de aula, postaria avaliações dos trabalhos e colocaria dicas extras referentes a outros estilos. Aí a coisa tomou uma dimensão maior do que eu esperava. Na minha ingenuidade, achei que isso ficaria restrito apenas ao meu mundinho em Fortaleza, mas teve gente do Brasil inteiro acessando o site à procura de dicas e tirando dúvidas. Para você ter uma ideia, gente de São Paulo e Rio de Janeiro me escreveu para descobrir onde ficam as unidades do SENAC e os cursos na cidade deles.

DEUS NO GIBI – Qual a maior carência do mercado? Jornais e revistas para trabalhar, editoras para publicar coletâneas, pontos para exposição ou outro motivo?

LEDERLY – A maior carência é a de profissionais qualificados. Existem muitos aspirantes a desenhista, mas poucos realmente qualificados para o trabalho. Quando falo de qualificação, não estou me referindo apenas à técnica ou domínio de softwares. O mercado exige um profissional que tenha uma postura ética, saiba administrar, negociar, lidar com os clientes, prazos e qualidade na prestação de serviços, que conheça bem a sua área de atuação, a lei de direitos autorais e por aí vai. O que se percebe é que temos muito desenhistas que apenas sabem desenhar, mas que não conseguem lidar com esse outro lado da profissão. E isso é ruim na medida em que produzem trabalhos amadores sem um acabamento mais cuidadoso, desvalorizam o seu trabalho cobrando merrecas e trabalhando para qualquer um que apareça. Isso reflete no mercado como um todo, quando você tem clientes mal acostumados com a realidade do “é bem facilzinho, num instante você faz isso por esse valorzinho nesse tempinho hiper-curto que estou te dando”. Mas acredito que as coisas já estejam mudando. Em passos lentos, é verdade, mas estão mudando. No final das contas, vejo essa área de trabalho tão competitiva como qualquer outra. Assim como nas outras áreas, se você ficar de braços cruzados não vai conseguir nada. Tem que colocar a faca nos dentes e abrir caminho na marra.

DEUS NO GIBI – E esse distanciamento do eixo Rio-São Paulo, é um problema?

LEDERLY – Antes da internet isso já foi um problema, agora não. Como eu falei, há competitividade em qualquer área. O problema das artes visuais é toda essa visão de coisa do outro mundo. Pra mim, a coisa é mais prática. Vejo como uma área como qualquer outra, com bons e maus profissionais e espaço pra quem souber garimpar. Esse distanciamento do Rio-São Paulo, a meu ver, não influi muito nas oportunidades. No final das contas, tudo vai depender mesmo da profissionalização e empenho do sujeito que entrar nessa área. O negócio é não desistir nunca, mesmo que falem que arte não dá dinheiro. Arruma um emprego qualquer pra patrocinar o traço e os materiais e vai levando enquanto não puder se sustentar apenas da arte. Quando já puder, pede as contas e vai ser feliz.

DEUS NO GIBI – Que influência você tem no seu traço?

LEDERLY – Meu traço é uma mistura de quadrinhos americanos, artes plásticas e cartuns brasileiros. Apesar de ser bem versátil, você sempre enxerga a minha cara em meus desenhos, independentemente do estilo.

Saiba mais sobre o Lederly no www.lederly.com.br

 

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