ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

NOBU CHINEN

ENTREVISTA

Por Fernando Passarelli

Um bom mestre é aquele que, entre outras qualidades, consegue fazer o aprendiz refletir: por que é que eu não soube antes de tudo isso que foi ensinado? É essa a sensação do leitor diante do livro “O Negro nos Quadrinhos do Brasil” (Editora Peirópolis), do professor Nobuyoshi Chinen, ou Nobu Chinen. Ele também é publicitário, editor e um dos maiores pesquisadores de HQs do Brasil. É membro do Observatório de Histórias em Quadrinhos da Universidade de São Paulo, da Comissão Organizadora do Troféu HQ Mix – a maior premiação do meio no Brasil, das Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos e publicou muitos artigos sobre HQs. O livro foi desenvolvido com base no doutorado do Nobu em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP e ganhou uma atualização profunda, trazendo obras publicadas após a defesa da tese. Porque, felizmente, muita coisa mudou em termos de representatividade dos negros nos quadrinhos nos últimos anos. “Não cheguei a fazer uma contabilização precisa, mas posso afirmar que encontrei mais personagens negros criados entre 2012 e 2019 do que em todo o período de 1869 a 2011”, revela Nobu. O livro mostra desde as primeiras ilustrações brasileiras com a presença de africanos, até a premiada produção atual. Revela ainda que o racismo estava não apenas nas palavras, mas na caracterização dos personagens e na temática abordada. E celebra como autores negros vem modificando a representação da raça. Na entrevista a seguir, ele fala sobre as publicações que considera fundamentais para entender o assunto, dá uma sugestão de HQ para os professores trabalharem em sala de aula e revela de onde veio a inspiração dessa obra fundamental para o estudo de quadrinhos brasileiros.

DEUS NO GIBI – Como tem sido a recepção do livro “O Negro nos Quadrinhos do Brasil”?

NOBU CHINEN – O livro tem sido muito bem recebido. Invariavelmente, as reações são positivas e elogiosas. Como se trata de um texto derivado de um trabalho acadêmico, o público que tem se interessado, naturalmente, não é o leitor comum. Eu já fazia palestras e oficinas sobre o tema desde que defendi o doutorado ou mesmo antes, mas com a exposição propiciada pelo livro fui convidado para diversos painéis de discussão no mês de novembro. Meu objetivo é que esse livro atinja, principalmente, os leitores afrodescendentes. Tentei publicá-lo com a chancela de alguma organização ou entidade dedicada aos negros, mas não foi possível.

DEUS NO GIBI – O que mudou entre o período de conclusão da tese e a publicação do livro, com atualização dos títulos publicados depois?

página de Angola Janga

NOBU CHINEN – Defendi a tese em 2013 e meu recorte ia de 1869, ano de estreia de Nhô Quim, considerada a primeira série em quadrinhos brasileira, até 2011, escolhido pela Unesco como Ano Internacional do Afrodescendente. Digo que fui muito feliz porque naquele ano o Rafael Campos Rocha lançou a série “Deus, essa gostosa” e eu concluía a tese com uma frase retórica muito apropriada, dizendo que na minha pesquisa a trajetória do negro começava como escravo e serviçal e terminava como deus. Ao dar continuidade à minha pesquisa pude constatar que muita coisa mudou para melhor. Não cheguei a fazer uma contabilização precisa, mas posso afirmar que encontrei mais personagens negros criados entre 2012 e 2019 do que em todo o período de 1869 a 2011. Obviamente, é preciso considerar a dificuldade em ter acesso a materiais mais antigos. Para mim, a maior alegria foi ter podido incluir três trabalhos que não existiam em 2011: “Carolina”, de Sirlene Barbosa e João Pinheiro; “Jeremias Pele”, de Rafael Calça e Jefferson Costa; e “Angola Janga”, de Marcelo D’Salete. São obras de uma grandeza que enriquecem todo o conjunto. O que permanece igual, infelizmente, é nossa sociedade ainda racista e muito desigual. Em termos editoriais, a maior diferença dos tempos atuais em relação a 2011 é a produção independente, que ganhou muita força com o financiamento coletivo e os programas oficiais de apoio à produção como o ProAc. Também contribuíram muito a proliferação de eventos nos quais os autores podem expor suas produções, como Bienal de Quadrinhos de Curitiba, FIQ, de Belo Horizonte e, o maior de todos, o CCXP, aqui em São Paulo.

DEUS NO GIBI – Nos quadrinhos do Zé Carioca, que foram produzidos no Brasil, existe um personagem, o Pedrão, que é negro – pelas fisionomia. Também existe o Nestor, que, pela cor das penas, seria negro. Deixá-los de fora do livro foi uma opção pela origem americana?

NOBU CHINEN – Sim. Meu objeto de pesquisa foi a produção nacional, tanto que também existe um personagem negro em “Daytripper”, do Fábio Moon e Gabriel Bá. Fiquei em dúvida sobre incluir, pois os autores são brasileiros e a história igualmente brasileira, mas como foi originalmente publicada por um selo americano, preferi deixar de fora. No caso do Pedrão, até poderia citar, pois ele foi desenhado exclusivamente pelos desenhistas da equipe da editora Abril, entre os quais se destaca Renato Canini. Já o Nestor, não sei se é um personagem que só saiu no Brasil. Existe uma controvérsia em relação ao Mickey, que também seria um minstrel a quem não faltam nem mesmo as luvas brancas.

DEUS NO GIBI – O livro fala de uma história em quadrinhos sobre uma revolta, na África, contra o herói Fantasma, de Lee Falk, acusado de impor uma visão colonialista. Você poderia falar mais sobre isso?

NOBU CHINEN – O Fantasma, bem como Tarzan, Tintin e outros personagens, serviu para reforçar a ideia da superioridade branca ocidental sobre os outros povos, notadamente os africanos e asiáticos. Fantasma, apesar de ser amigo e aliado dos bandar, faz parte de uma linhagem de estrangeiros que há quatro séculos exerce liderança sobre a população local graças, em parte, a superstições e crendices que ele faz questão de alimentar para perpetuar sua posição. A história do Diego Gerlach aborda justamente uma revolta dos negros contra essa dominação. Obviamente, o discurso é uma metáfora para o colonialismo ainda hoje presente sob a forma de globalização, mas a acusação de colonialismo não é novidade e o italiano Oreste del Buono já fez isso num texto crítico datado da década de 1960.

DEUS NO GIBI – Você já pensou numa edição do livro focada no negro nos quadrinhos pelo mundo?

NOBU CHINEN – Não. Não é minha intenção. Sempre declarei que escolhi propositalmente um tema nacional porque sinto falta de bibliografia sobre os quadrinhos brasileiros. Nada contra quem estuda mangás ou super-heróis, mas acredito que um trabalho sobre a produção nacional tem mais a contribuir e, nesse caso, uma extensão natural do meu trabalho seria fazer um levantamento dos autores negros de quadrinhos no Brasil ou algo nessa linha. Além do mais, existe farto material estrangeiro sobre personagens negros, principalmente os americanos. Só pra você ter uma ideia, eu tenho uns seis livros sobre personagens negros, todos eles de autores americanos. Um deles apenas sobre as autoras negras de quadrinhos. E só para acrescentar um comentário: o livro que inspirou o meu trabalho é “Black Images in the Comics”, do sueco Fredrik Strömberg, que cita personagens de vários países. Nenhum do Brasil.

DEUS NO GIBI – Em muitas escolas, infelizmente, a aquisição de quadrinhos depende de doações e de gastos dos próprios professores. Se você pudesse sugerir um título apenas, para tratar da situação do negro no Brasil, qual seria e por que?

NOBU CHINEN – De fato, esse é um grande problema. Eu já tive a oportunidade de ministrar oficinas sobre como utilizar os quadrinhos na aplicação da Lei 10.639 para professores da Rede Municipal de Ensino. Também participei de um projeto fantástico da Fundação Demócrito Rocha, de Fortaleza, de inserção dos quadrinhos na sala de aula. A grande dificuldade é prover acesso de material adequado aos alunos. O governo, em diferentes instâncias, tem adquirido obras em quadrinhos para as escolas por meio de programas como o PNBE – Programa Nacional da Biblioteca Escolar, que é uma iniciativa muito boa. É difícil recomendar uma única obra. No entanto, por tratar do racismo de forma mais direta e ter o respaldo de um troféu Jabuti, eu indicaria “Jeremias Pele”. Veja bem, não é a que mais prefiro, pois tem outras muito legais, mas como recomendação de leitura é essa obra que indico.

DEUS NO GIBI – Você teve a chance de estudar profundamente o mercado e teve contato com obras de muito sucesso – e outras que não foram bem sucedidas. Qual conselho daria para quem quer escrever ou desenhar quadrinhos sobre o passado ou os desafios do negro?

NOBU CHINEN – Não existe uma fórmula que seja uma garantia de sucesso. O que tenho notado é que temas voltados à realidade dos leitores ou da sociedade em nosso redor têm despertado muito interesse. Mesmo as narrativas ficcionais, como as de super-heróis, têm se preocupado em abordar temas da atualidade como as questões de gênero, éticas e sociais. No caso dos negros, o efeito do filme “Pantera Negra” foi fundamental para elevar a autoestima e alimentar o orgulho desse segmento e produções do gênero afro-futurista talvez encontrem boa acolhida.

DEUS NO GIBI – Pra terminar, se você pudesse ter um super-poder, qual seria?

NOBU CHINEN – Na minha idade, essa pergunta não faz muito sentido, além do mais, parafraseando o grande filósofo Ben Parker: “com superpoderes vêm super-responsabilidades”. E, a essa altura da vida, eu já não estou a fim de ter mais responsabilidades do que já tenho. Mas vamos lá. Eu gostaria de poder instaurar a justiça social, de acabar com a desigualdade no mundo. Porém, a resposta sincerona seria ter o superpoder de comprar todos os livros que desejo ter.

Para saber mais sobre o livro “O Negro nos Quadrinhos do Brasil” acesse o site da Editora Peirópolis.

 

Janeiro de 2020

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