ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

IMAGEM E AÇÃO, IMAGINAÇÃO DA CRIANÇA

Sendo o processo criativo/imaginativo da criança tão latente e necessário há de se ater a ele de maneira a tirar-lhe proveito. Há quem possa crer que devido a grande profusão imaginativa da criança, não seja necessário explorar esse viés, uma vez que a própria natureza humana já se encarrega de impeli-la a criar.

Ao contrário. O pequenino, apesar de imaginar e criar quase que a todo instante, possui poucas experiências, o que pode limitá-lo em suas associações. Vygotsky alerta para o fato de que em cada período do crescimento infantil a imaginação criadora age de modo peculiar, de acordo com o desenvolvimento do indivíduo.

Apesar disso, é normal acreditar que as crianças sejam mais imaginativas que os adultos. A principal questão que leva a esse engano é o fato da criança se entregar mais a suas fantasias, vivendo aquilo com intensidade e determinação. De acordo com Vygotsky, “as crianças imaginam muito menos coisas que os adultos, mas creem mais nos frutos de sua fantasia e as controlam menos, é por isso que a imaginação, no sentido vulgar da expressão, é associada mais à criança do que o adulto”.

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Esse tipo de comportamento acaba por mudar conforme o crescimento individual, até chegar ao ponto de estar mais ligado ao mundo concreto, amenizando a influência da imaginação para com suas associações – mesmo não deixando de ser imaginativo. Parte desta perda, que é um percurso comum a todos, se dá pelo afastamento do indivíduo das “culturas da infância”. De acordo com a pesquisadora Ângela M. S. Coutinho, caracteriza-se como manifestação cultural das crianças “a relação sempre presente entre a fantasia e a realidade, entre o possível e o impossível, entre o presente e o imaginário”.

Quanto mais o indivíduo avança em idade, proporcionalmente ele se desliga do mundo próprio da linguagem infantil, aquele associado tanto às relações/tensões criadas entre adultos e crianças quanto entre crianças e crianças, e que é impregnado de significações particulares comuns a uma determinada geração. A esse respeito, Manuel Jacinto Sarmento, pesquisador do Instituto de Estudos da Criança, em Portugal, ressalta a importância de se conhecer as culturas criadas pelas crianças pois elas “transportam as marcas dos tempos, exprimem a sociedade nas suas contradições, nos seus estratos e na sua complexidade”.

A criança, então, por necessitar de ampliação de horizontes, precisa da intervenção de um agente adulto para estimulá-la a exteriorizar essa vivência. O recurso da história em quadrinhos é um bom exemplo de ferramenta a ser usada. A partir dela, a própria criança pode dar vazão ao seu(s) universo(s) particular(es), articulando o próprio mundo sensível com suas fantasias.

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Por meio das histórias em quadrinhos a criança ainda tem a possibilidade de poder exteriorizar seu próprio mundo infantil, criando outro tipo de relação com ele – pois este tomará forma concreta. A própria leitura de HQs serve, em si, para o enriquecimento do repertório da criança.

 

Trecho de “Universos Ficcionais Infantis na Histórias em Quadrinhos:
crianças também podem criar?”, de Matheus Moura Silva
Extraído do livro “Histórias em Quadrinhos e Práticas Educativas – O trabalho
com universos ficcionais e fanzines”
Capítulo 3, página 48, 49, 50
Editora Criativo

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