ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

QUADRINHOS NO ENEM E NO ENCCEJA

Questões com histórias em quadrinhos são comuns no Enem e no Encceja. Mas o que elas têm de tão especial? É preciso alguma habilidade especial para estudá-las? 

Pulicado no Blog do Enem

Tanto no Enem quanto no Encceja, e em diversos vestibulares do Brasil, é muito comum encontrar questões que envolvam a interpretação de texto a partir de histórias em quadrinhos. O intuito é estabelecer um objeto que servirá para testar a atenção, o domínio do conteúdo e a capacidade interpretativa do candidato.

Ainda que resista algum preconceito aqui ou ali, as histórias em quadrinhos (ou simplesmente HQs) hoje são uma forma de arte estabelecida, sendo objeto de estudo em universidades mundo afora. Vamos lá para uma revisão sobre interpretação de texto e histórias em quadrinhos para o próximo Enem e Encceja?

Você sabe realmente LER histórias em quadrinhos?

Para ajudar a ver as particularidades deste gênero, seja ele em revistas ou em tirinhas, convidamos o professor Alexandre Linck, doutor em Literatura, que desenvolve um amplo trabalho acadêmico pesquisando as histórias em quadrinhos.

A seguir, algumas dicas que podem ser úteis, seja para o Enem e para o Encceja, seja para curtir ainda mais a arte das HQs, e fazer a interpretação de texto:

1 – Sequencialidade e Simultaneidade

Uma das características mais marcantes das HQs é a concomitância de sequencialidade e simultaneidade. Ou seja, nas histórias em quadrinhos há uma sequência de acontecimentos pelo qual devemos passar quadro a quadro (como no cinema, por exemplo), porém de modo a exibir simultaneamente todas essas etapas (esses quadros) ao mesmo tempo em uma mesma página. Afinal, por mais que nos concentremos em um determinado quadro, no momento da leitura, nossa visão periférica já mais ou menos apreendeu todos os outros. Esse recurso estético é fundamental para a poética dos quadrinhos.

Notem que nessa tira de Laerte, acima, usada pelo Enem na edição de 2012. Grande parte da comicidade dessa HQ passa pela repetição. Isto é, os três primeiros quadros da tira são semelhantes: o enquadramento é o mesmo, o gestual da Branca de Neve também. A única mudança que se aplica a todos é quem está oferecendo a maçã (respectivamente, uma bruxa, uma cobra e um vendedor).

O terceiro quadro também traz uma novidade: não é mais a Branca de Neve que escutamos, mas o vendedor. Isso será o ponto de virada da história para no quarto quadro a piada acontecer. Contudo, notem, foi preciso justamente estabelecer nos primeiros quadros uma sequencialidade e uma simultaneidade para a piada funcionar a partir de uma diferença no quadro final.

Portanto, a composição dos quadros propicia uma temporalidade. Algo que os quadrinhos trabalham a partir de uma narratividade, seja ela a da história, seja ela simplesmente a dos traços. Um breve exemplo: notem acima como nesta de tira de Angeli o terceiro quadro, em “silêncio”, poderia muito bem ser suprimido, de modo em que ainda entenderíamos a história sem perder seu sentido geral. Porém, o terceiro quadro é fundamental para imprimir ritmo para a tirinha, além de, evidentemente, aumentar todo o pesar que recai na constatação do menino no último quadro.

Essa relação entre sequencialidade e simultaneidade não é exclusiva a tiras que apresentem quadros múltiplos. Acima, nesta tira de Hagar, O Horrível, de Dik Browne, utilizada no Enem 2012, temos uma história em um único quadro. Contudo, além da simultaneidade dos elementos apresentados dentro do quadro, ainda há uma sequência que vai da esquerda para a direita (como numa tira de vários quadros).

Primeiro observamos os tubarões rumando para a direita, depois o balão que os acusa, então vem o segundo balão (que discretamente, pela sua borda, está sobreposto ao primeiro, dando a sensação de continuidade), até, finalmente, a constatação de que eles estão prestes a bater num rochedo (algo reforçado pelos traços de atenção que demarcam o olho arregalado da serpente).

2 – Traço, Letra e Balão

Essa mesma tira de Hagar perdeu em sua tradução um maior cuidado com a grafia. Notem abaixo, nesta versão original da tira, em inglês, que a palavra “almost” no segundo balão é ligeiramente maior e possui o traço mais grosso, propiciando com isso uma eventual entonação que auxilia na narrativa da piada.

A história em quadrinhos é uma arte que muitas vezes (poderíamos dizer, na imensa maioria das vezes) articula texto e imagem. Esses dois recursos que encontram diferentes abordagens e métodos de ensino na cultura ocidental, são, nas HQs, trabalhadas a partir do que possuem em comum: o traço. Ou seja, tão importante quanto ser alfabetizado para ler o que está sendo dito, igualmente importante é notar o traçado, tanto do desenho quanto das palavras e dos balões que as envolvem.

Nesta outra tira de Laerte, acima, também em quatro momentos, notem como tanto a grafia do que é escrito quanto do contorno do balão são fundamentais para a história. No primeiro quadro o balão do homem possui linhas sinuosas, sendo a tipografa de sua letra toda em minúscula, pequena, ligeiramente embaralhada. Diferentemente é com o papagaio, sendo o balão circular e tipografia da letra grande, legível, e em maiúscula. No segundo quadro, então, o homem responde ao papagaio, a tipografia de sua letra se torna semelhante a do pássaro, com o destaque para o número 5 e as linhas pontudas do balão – elementos que em conjunto reforçam a ideia de que ele está gritando.

No terceiro quadro o homem retoma a normalidade do primeiro até que no quarto quadro o papagaio novamente o interrompe. Notem como desta vez a letra do papagaio é pequena apesar de ainda ser grande o espaço em volta dentro do balão. Esse tipo de recurso favorece a sensação de que o papagaio falou baixo, de forma hesitante e logo foi abafado por mais um grito do homem.

Algo mais sutil também acontece acima nesta tira de Macanudo. O balão do robô, composto de uma única nota, é circular, o que sugere alguma informalidade. O pássaro que surge e então canta através da exibição de uma partitura, tem o seu balão mais quadrado, o que dá, em contraste, uma certa formalidade ao seu canto.

Outros elementos também merecem maiores cuidados, como a cor dos balões, o seu traçado em volta (ou a ausência dele) e até mesmo o uso criativo da seta (ou rabicho) que liga o balão a quem o pronunciou. Todos esses elementos também são recursos importantes para a poética das HQs.

3 – Imagem e Figuração

Outro ponto também importante na leitura das histórias em quadrinhos é saber ler as imagens. Muitas vezes a imagem figurativa, comum na maiorias das HQs, passam a falsa sensação de “clareza”, “transparência”, de “informação rápida”. Nada mais errado. Assim como uma palavra exige de nós o domínio do idioma, uma imagem nos cobra um cuidado semelhante.

Vejamos esta tira de As Cobras de Luis Fernando Veríssimo usada no Enem de 2011. Notem como os traços atrás das cobras, nos primeiros quadros, acentuam a sensação de velocidade, assim como a cauda da cobra que “vaza” da borda no quadro do meio. Um recurso sutil, corriqueiro, porém que faz toda a diferença na distinção entre as cobras que estão em movimento e as que estão paradas. Da mesma forma é um elemento importante as hachuras (sequências de traços finos e paralelos) no dorso e em baixo do nariz das cobras, dando relevo e luminância.

Como podem ver, as HQs tem muito a nos mostrar, e mais ainda nós temos a dizer sobre elas. Fica o convite, portanto, que essa leitura cuidadosa seja um amplo convite para todo um novo mundo quadrinizado que pode se abrir diante de nós.

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