ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

CAVALEIROS SOLITÁRIOS

 

Um clássico dos anos 1960 e 1970. Armado com um par de revólveres, balas de prata e muita coragem, o caubói mascarado percorre o velho oeste americano em defesa da justiça e da liberdade. Ninguém sabe o seu nome verdadeiro, todos os chamam de Cavaleiro Solitário – “Lone Ranger”. Tão conhecido quanto o herói são o seu eventual parceiro, o índio Tonto (sim, esse era o nome original do personagem) e o cavalo branco Silver.

O grito de ataque virou até bordão pra toda uma geração: “Hi-Yô, Silver!”

A primeira série animada saiu com um gênero de arte estilizada, meio tosca. Foi a segunda que fez sucesso aqui, no Brasil, por volta de 1980. Teve até confusão na tradução. Os desenhos do Cavaleiro Solitário eram exibidos junto com os do Zorro – aquele herói de espada, capa preta, cavalo preto e chapéu preto. Então tinha gente que achava que eram dois “Zorros”, um de cavalo preto e outro de cavalo branco. Não ficava claro que os “rangers” eram policiais das planícies americanas e nada tinham a ver com o justiceiro mexicano.

Também houve série de televisão, filme no cinema, programa de rádio. Analisando bem, foi uma febre. Mais ainda para os americanos, porque o desenho reproduzia uma época da colonização e inseria na trama figuras históricas, como Mark Twain e o presidente  Ulysses Grant.

O Cavaleiro Solitário não tinha casa, família ou emprego. Vivia por aí, cavalgando, colecionando aventuras. Salvava um grupo de pioneiros aqui e já partia, ao entardecer. Quando a noite chegasse, então, teria a companhia apenas da sua consciência. Sozinho com seus pensamentos.

Muito espiritual, não? Percorra os livros das religiões e filosofias e você vai encontrar muitas referências à importância da solidão, para crescimento do ser humano. Permanecer no isolamento, contemplar em quietude o mundo ao seu redor e o seu mundo interior.

Na história do cristianismo, os “Cavaleiros Solitários” foram muitos. Profetas que viajavam de cidade em cidade proclamando a justiça de Deus; pregadores que reuniam multidões e depois partiam, rumo a terras mais distantes. O próprio Salvador, lembre, se retirava para orar, sozinho.

Mas existe um texto que pode abrir nossos olhos para outra realidade. Está no evangelho de Lucas, capítulo 8, verso 29. É a cura de um homem possuído por demônios, na fronteira com a Galiléia. Violento, ele não vestia roupas e dormia nas tumbas. Podiam prendê-lo, ele quebrava tudo e fugia. “E era levado pelo demônio a lugares solitários” (NVI). Essa tradução lança uma interpretação profunda àquela condição do homem.

O endemoniado sempre fugia da presença de todos que tentavam ajudá-lo. E ia parar no deserto, em lugares solitários. Muitas vezes contra sua vontade, porque “era levado pelo demônio”.

Ou seja, nem sempre é a busca por uma purificação espiritual que nos leva aos lugares solitários. Nossos “demônios interiores” também nos isolam, nos fazem fugir da convivência com aqueles que poderiam nos ajudar. Pode ser até que, aos nossos olhos, tenhamos a nobre missão de percorrer um “velho oeste”. No espelho, enxergamos o Cavaleiro Solitário. E o reflexo pode nos enganar.

O texto também lembra que a existência humana não foi concebida para o singular. Temos a necessidade da coletividade, reconhecida pelo Deus Criador e reafirmada pelo Salvador. O cristianismo é a religião do amor ao outro, da entrega, da comunidade.

Diante de Jesus, o homem possesso se lança no chão e pede libertação. Cristo o cura, os demônios fogem. E o homem? Liberto, fica por ali, junto daquele que se importou com ele – “Viram que o homem, de quem haviam saído os demônios, estava sentado aos pés de Jesus” (Lucas 8:35). Estava pronto para voltar a fazer parte de um corpo maior.

O texto ainda nos alerta para a qualidade das companhias. O demônio que atormentava o homem se chamava “legião” – “porque muitos entraram nele”. E eram esses que o impediam de viver na companhia de outras pessoas. Queriam a exclusividade sobre aquela existência. Ninguém mais poderia dividir a vida com ele.

Assim também é muita gente de carne e osso. Querem a exclusividade da nossa companhia, querem controlar nossos relacionamentos, querem dizer com quem podemos andar. Querem nos induzir ao que podemos crer ou como podemos viver. Até algumas religiões caem nesse erro…

As boas novas do Evangelho são boas novas de libertação. Relações forçadas prejudicam todas as partes.

Não se deixe levar por qualquer imposição. Nem do excesso de companhia, nem da falta dela, nem da solidão. E quando precisar de socorro, desça do cavalo branco, tire a máscara de Cavaleiro Solitário, e se ajoelhe aos pés de Cristo.

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