ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

ELISEU OU MAGNETO?

Foi muito antes do surgimento do rei do magnetismo dos quadrinhos. Erik Magnus Lehnsherr não tinha sequer nascido. Muito menos havia presenciado a morte de seus pais, pelos nazistas, na Segunda Guerra Mundial. Só depois disso que o mutante manifestou seus poderes, para escapar do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia.

Segundo os estudiosos da Bíblia, foi lá por volta do século nono antes de Cristo que Eliseu viveu. Em um daqueles dias, de acordo com o livro dos Reis, o profeta enfrentou um problema de falta de estrutura.

O lugar disponível para estudar a palavra de Deus havia ficado pequeno e não mais comportava todo mundo que o seguia. A solução, dos aprendizes, foi buscar um local mais amplo, às margens do Rio Jordão:

“Vamos, pois, até ao Jordão e tomemos de lá, cada um de nós, uma viga, e façamos ali um lugar para habitar. E disse ele: Ide.” (II Reis 6:1-7)

E seguiram todos para o trabalho. Começaram a cortar uma árvore aqui, outra ali, a abrir uma clareira maior, limpar o terreno, até que o o ferro do machado de um dos homens caiu do rio e afundou.

Você consegue imaginar como era difícil trabalhar com a metalurgia naqueles anos, sem a tecnologia aprimorada pela revolução industrial? O trabalho que dava para fazer uma liga de ferro, em uma época quase pré-histórica?

Esquentar o fogo até a temperatura de uma forja, para moldar o metal? Imagina o valor da lâmina do machado, que se soltou e foi parar debaixo d’água? E como ficaria a situação de ’empréstimo’?

Isso explica o desespero do desastrado:

“Ai, meu senhor! O ferro era emprestado”

A Bíblia pode ter sido gentil ao narrar dessa forma a expressão de pânico – porque algo muito pior deve ter saído daquele coração aflito. Imediatamente os olhares se dirigiram para as águas turvas do Jordão, tentando encontrar um reflexo, um brilho para identificar o local da tragédia.

O que era pra ser um momento de mutirão, de união, de festa, agora havia se tornado um problema – e uma dívida gigante. O machado deveria ser de alguém que precisava dele e que, agora, haveria de perder sua ferramenta de sobrevivência.

Até que Magneto, ou melhor, Eliseu, entra em cena:

“E disse o homem de Deus: Onde caiu? E mostrando-lhe ele o lugar, (Eliseu) cortou um pau, e o lançou ali, e fez flutuar o ferro.”

O metal venceu a gravidade, anulou a força das águas e flutuou, pela ordem do profeta. Não foi uma solução da ciência, uma indução de fenômenos naturais, uma dessas coisas que hoje aprendemos na internet.

Afinal, por qual motivo uma pesada peça de metal iria boiar? E a lâmina do machado não poderia ser “pescada” pelo pedaço de madeira.

Além disso, o galho não tinha a propriedade de atrair o ferro. Não existe explicação, racional. Foi um milagre. A madeira foi para a água e atraiu o ferro. Assim, o homem desesperado pode entender a mão e o tomar a lâmina de volta.

Nos quadrinhos, Erik Magnus também já teve a responsabilidade de cuidar de aprendizes, assim como Eliseu. Foi professor e liderou diversos grupos de mutantes. Alternando os papéis de vilão e herói, Magneto já quis acabar com toda a raça humana, para salvar a evolução mutante.

O personagem pode ter sido inspirado no líder dos direitos humanos Malcolm X – que defendia respeito e qualidade de vida para os afro-americanos, mesmo que isso fosse alcançado com o uso da violência.

E Eliseu? O Velho Testamento narra também um episódio bem violento, envolvendo o profeta de Deus.

“Então subiu dali a Betel; e, subindo ele pelo caminho, uns meninos saíram da cidade, e zombavam dele, e diziam-lhe: Sobe, calvo; sobe, calvo! E, virando-se ele para trás, os viu, e os amaldiçoou no nome do Senhor; então duas ursas saíram do bosque, e despedaçaram quarenta e dois daqueles meninos.” (2 Reis 2:22-25)

Uau. Eliseu havia acabado de se despedir de Elias, que foi levado aos céus. Havia recebido a manifestação do poder de Deus. E, confrontado por um grupo zoeiro, determinou a morte dos moleques.

Os estudiosos da Bíblia dizem que a ofensa não foi chamá-lo de careca (calvo). E, sim, a zombaria de questionar porque o profeta não havia subido no carro de fogo com seu mentor, Elias. Algo como “ficou pra trás”, “fracassado” etc. Um bullying pago com a vida.

Liderança, controle do magnetismo, ação violenta.

Eliseu foi o Magneto, na Bíblia?

Os frutos da vida do profeta demonstram que não. Porque ele também fez a água brotar no deserto, multiplicou o azeite de uma viúva cheia de dívidas, ressuscitou um menino e curou o leproso Naamã, entre outros feitos. A mais poderosa manifestação do poder de Deus, na sua vida, porém, aconteceu depois da morte. Diz a Bíblia que após Eliseu morrer, e ser enterrado, um outro morto que foi lançado em sua sepultura ressuscitou ao tocar em seus ossos. (2 Reis 13:21).

E não é assim que o nosso fim deveria ser? Abençoando outras pessoas, mesmo depois da nossa morte?

Então, o que Eliseu conseguiu ensinar, no episódio do machado, é que muitas vezes aquilo que é muito importante, que talvez tenha um valor imenso, pode se perder. A gente vai ficar desesperado e não saberá como resolver a situação. Mas é possível, pelo agir de Deus, haver um recomeço. O machado nunca mais foi o mesmo, nem quem o empunhava. A nossa vida também pode ser alterada dessa forma. Porque o milagre só tem uma função: mostrar a glória do Senhor. Foi a grande lição que aqueles aprendizes tiraram com o profeta.

Também não se aborreça se você ficar para trás, se não for arrebatado ao céu em experiências sobrenaturais. Nem questione os motivos, caso Deus te faça caminhar por estradas empoeiradas e esburacadas da vida. Às vezes, só chegamos às nuvens quando estamos de joelhos. O Senhor se aproxima de corações quebrantados e contritos (Salmo 51:17). Como um imã, cheio de magnetismo.

 

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