ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

EU SOU O QUE SOU

 

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POPEYE

 

Houve um tempo em que a vida em sociedade não era controlada pela falsa moralidade do politicamente correto.

Naqueles anos, uma das atrações infantis na TV era o desenho animado de um velho marinheiro, caolho, musculoso, reclamão e machista. Era o Popeye. Resolvia todos os problemas no braço, frequentemente brigando com seu desafeto Brutus.

No mundo desse personagem, criado para os gibis por Elzie Segar em 1929, ninguém queria conquistar o mundo, comprar os eletrônicos mais modernos ou morar num bairro de alto padrão. Os desafios eram uma competição qualquer ou disputar a atenção (e o coração) da solteira Olívia Palito – uma mulher absurdamente magra, que certamente faria mais sucesso hoje em dia entre as meninas. E nesses embates nos quais Popeye se envolvia, quando havia algum tipo de trapaça ou risco pessoal, entrava em cena o poder sobre-humano trazido pelo… espinafre!!!

Que mundo era esse! Nada de magia, poderes sobrenaturais, monstros alienígenas ou armas. Apenas uma porção de espinafre resolvia o problema.

Naquela época não havia uma dezena de brinquedos inspirados nos quadrinhos ou desenhos animados. Brincar de Popeye era brincar de faz-de-contas. E muitas crianças foram iludidas pelo poder dessa verdura rica em ferro, cálcio, fósforo e vitaminas. Nos Estados Unidos o consumo de espinafre explodiu com o sucesso do Popeye. Pais viram seus pequenos experimentarem pratos cheios em busca de força e velocidade. Muitas crianças vieram a descobrir, com tristeza, que a verdura não trazia poderes especiais imediatamente. A bem da verdade, quem saia no lucro mesmo eram os produtores de espinafre e as famílias que buscavam uma alimentação adequada.

Nos desenhos animados, a aventura, via de regra, terminava com o marujo cantando seu tema – “eu sou o que sou e é isso que eu sou, eu sou o marinheiro Popeye” (no original, “I’m what I am and that’s all that I am”). No Brasil, isso vinha com a voz do brilhante Orlando Drumond, um dos nossos maiores dubladores.

E o herói, antes de ir embora, ainda dava duas baforadas do cachimbo – pó, pó! Um herói fumante, que modelo para as crianças…

Popeye faz lembrar outro homem, cuja história está no Evangelho – Pedro. Dá até para imaginar que os dois eram parentes. As semelhanças começam logo na ocupação – tanto Popeye como Pedro vivem do mar, e dele tiram o sustento. O herói caolho está na condução de barcos desde que era moleque e já viveu muitas aventuras mundo afora. Não tem medo de temporal e é capaz de conduzir uma grande embarcação sozinho.

Já Pedro, aparece pela primeira vez na narrativa bíblica quando estava pescando, “jogando redes” (Mateus 4:18). E é ali, na praia, que recebe o convite para seguir o Messias, com a promessa de ser “pescador de homens“. Os evangelhos narram em poucas palavras essa decisão de deixar tudo para trás. Mas talvez não tenha sido algo tão simples assim, para Pedro.

Ao lado de seu irmão, André, era ali que haviam crescido. Todo o sustento de sua vida veio da pesca. Era isso que ele sabia fazer. Dominava todo o conhecimento da atividade. Conhecia as luas e as marés, as correntezas e as brisas. Deixar tudo para trás, e assumir uma jornada ao lado de um desconhecido? Por uma promessa vaga de “pescar gente”?

O mar tem tanta importância para a vida de Pedro que é para lá que resolve voltar, após a morte de Jesus. “Vou pescar”, decide em João 21:3, sem perspectiva quanto ao seu futuro. A bem da verdade, tanto Pedro como Popeye deixam o mar em busca de aventura e crescimento. Mas o mar nunca saiu de dentro deles.

POPEYE4Pedro e Popeye também compartilham a impaciência e uma tendência grande para confusão. Nos quadrinhos e desenhos animados, o marujo caolho não usa muito o diálogo e tenta resolver os problemas medindo forças.

Uma provocação pequena e ele já arregaça as mangas, partindo pra cima. Esse é Pedro também. Não foi assim quando os soldados se aproximaram de Jesus para prendê-lo? Pedro, com uma rapidez digna da supervelocidade do espinafre, toma a espada de um soldado e corta-lhe a orelha. Zap! É Jesus quem acalma o pescador, prestes a fazer sushi de soldado (João 18:11).

E se Popeye demonstra ter um bom coração protegendo Olívia Palito e seus amigos, o discípulo não fica atrás. Pelo amor a Jesus, Pedro o acompanha pra todo lado. Está no monte da transfiguração (Mateus 17:4) e na cura da filha de Jairo (Lucas 8:51); está ao lado de Jesus no Monte das Oliveiras (Marcos 13:6) e no Getsêmani (Mateus 26:37); seguiu a Cristo, quando este foi levado até o sumo-sacerdote (Mateus 26:58). E foi perto do Mestre, ao alcance do olhar do Salvador, que Pedro o negou. Também foi Pedro quem correu até o túmulo, assim que soube que o corpo de Jesus não estava lá (João 20:3). Esse pescador amava a Cristo, mais do que qualquer velho marujo ama o mar.

Popeye pode ter desfrutado uma centena de vezes de sua arma secreta, sacando a lata de espinafre do bolso, mas foi Pedro o único ser humano que teve a chance de desafiar ao máximo o poder dos oceanos. Sem qualquer alimento milagroso, ele fez o que nenhum marinheiro foi capaz de fazer: Pedro andou em cima das águas. Sim, por um momento, as leis da física foram revogadas para que o discípulo tivesse a experiência de atravessar ondas indomáveis, furar o vento que queria jogá-lo longe e vencer a chuva. Um milagre. Mas um milagre de duração tão breve quanto o poder do espinafre. Que triste semelhança… Pedro teve medo, afundou, e foi amparado pelo Salvador.

Dessa forma, convivendo com fracassos e sucessos, o pescador aprendeu a ganhar almas. O homem apresentado no livro de Atos, após o convívio com Jesus, é outro. É um Pedro que domou seu temperamento, que não esquece o período ao lado do Mestre. Pedro, mais maduro, menos lobo-do-mar e mais pastor de ovelhas, sabe a quem pertence o seu coração. E nada mais importa, porque nada tem valor maior – “Não tenho prata nem ouro, mas o que eu tenho, isso te dou” (Atos 3:6).

Se o herói criado por Elzie Segar traz o fatalismo e o conformismo (presentes no “eu sou o que sou e é isso que eu sou”), o pescador de homens traz a lição de que é possível, ao ser humano, se transformar, dia após dia. Eu sou o que sou, sim, mas não preciso ser isso para sempre. Caminhando ao lado do Salvador, eu posso almejar uma nova vida, ser uma nova criatura. E pela Graça de Deus, serei amado imediatamente, agora. Porque o nosso Deus nos ama como somos.

Por isso posso dizer que: eu sou o que sou, e é isso que eu sou. E Deus me ama assim. E pode transformar a minha vida.

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