ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

JESUS CRISTO, CLARK KENT

Os dois são filhos de pais que vieram de outro mundo. Dotados de poderes que os fazem diferentes de qualquer ser humano, foram enviados para o convívio com a humanidade, para ajudá-la. Jesus Cristo e Superman.

As referências cristãs e semelhanças não terminam aí. No mundo dos quadrinhos, o nome de Superman é Kal-El. Termina com El, palavra em hebraico que designa “Deus”. E seus pais, de Smallvile, se chamavam originalmente Joseph (José) e Mary (Maria).

“Essa interseção entre os super-heróis e o Evangelho nunca foi tão explícita quanto em Super-Homem”, já disse Stephen Skelton, autor do livro “O Evangelho segundo o maior super-herói do mundo”.

Podemos projetar no Superman a figura de Jesus Cristo – porque os judeus não tinham as histórias em quadrinhos do herói para imaginar como seria o Salvador que estavam aguardando. Pelo que conhecemos da Bíblia, não era o filho de um carpinteiro que os judeus esperavam vir, e sim alguém muito semelhante ao último filho de Kripton. O forte. O libertador. O vingador.

Imagine a frustração quando descobriram que o Messias prometido pelos profetas não usava visão de calor, não levantava voo na frente da multidão nem esmurrava os opressores.

Lendo a definição de Skelton, vemos como desvirtuamos a figura do Filho de Deus.

O que a religiosidade moderna quer é mesmo um Jesus Cristo superpoderoso, um Jesus Superman. Um Salvador da humanidade que tem a capacidade de transpor todos os limites do planeta e de estar em qualquer lugar ao mesmo tempo, impedindo que qualquer tragédia atinja nossas cabeças.

Cremos assim dentro de nossas Igrejas. Queremos um Jesus que nos faça obrigatoriamente andar sobre as águas, que nos dê a cura, que multiplique nosso saldo bancário, que extermine nossos inimigos e ainda transforme nossa pequena comunidade cristã em um mega-templo. Jesus Cristo, Filho de Krytpon.

Acho que muita gente entendeu nada, então.

Não compreendemos que a mensagem que o Salvador trouxe ao mundo veio muito mais na forma de Clark Kent. Foi assim no período em que Ele viveu entre nós. Sempre escondendo sua divindade, evitando usar seus poderes celestiais para milagres e até pedindo para aqueles a quem curou que não espalhassem as dádivas recebidas.

O Cristo Clark Kent não tem a preocupação de encher igrejas. Aliás, Ele nem se preocupa com isso porque reconhece que a qualidade não é ligada à quantidade. E que o conceito de comunidade tem muito mais relação com o grupos pequenos. Ele sabe que os homens precisam trabalhar e suar o rosto para alcançarem as bênçãos materiais. Ele também vê o sofrimento dos seus semelhantes e não tenta impedir a morte de um pai ou da mãe, no ciclo da vida. E se compadece da dor.

Arte do brasileiro Sérgio Cariello

Mas o Cristo Clark Kent não faz tão sucesso quanto o Cristo Superman. Não enche auditórios, não atrai milhões em publicidade e marketing, nem motiva o consumismo – ainda que o consumismo seja ‘gospel’.

Ele nem é lembrado… Porque é fácil de lembrar de uma cena de ação do Superman. Agora, pergunte se alguém vai se lembrar de uma cena do Clark Kent…

Em um dos filmes do herói, Lois Lane ganha um prêmio por haver escrito um artigo de jornal questionando se o mundo precisa do Superman. A conclusão dela é que não, não precisamos.

Será que precisamos do Jesus Cristo Superman? O mundo dá uma resposta, todos os dias, a essa pergunta: sim, é o que querem. E por esses milagres, milhares clamam diariamente.

E será que precisamos de um Jesus Cristo Clark Kent, no seu exemplo de humildade e servidão, sem as luzes dos holofotes? É bom olhar para o céu e ver alguém que pode ser tão veloz como um pássaro ou um avião. Porém, é melhor olhar para o chão e ver alguém estendendo a mão, em amor.

 

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