ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

O DIA EM QUE DEUS SE DISFARÇOU

YADDDISFARCE2

Por DEUS NO GIBI
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Ele é um dos elementos fundamentais da mitologia moderna dos super-heróis.

Se fosse possível reduzir a estrutura do herói aos seus pontos mais básicos restariam a origem, a missão e o disfarce.

A origem é o nascimento do herói. Pode ser uma tragédia, o fato inesperado que serviu como divisor de águas e deu-lhe um novo impulso de viver. Um planeta explode e o bebê é lançado para outro lado do universo, onde irá fazer de seu novo mundo um lugar melhor. A morte dos pais faz o jovem iniciar uma cruzada contra o crime. Um estilhaço no coração condena um playboy a depender de uma armadura para viver. Superman, Batman, Homem-de-Ferro.

Ou a origem pode vir de um planejamento, uma decisão pensada, estudada. Como o cientista que desenvolve uma forma de encolher o próprio corpo para prender bandidos. Ou o soberano de uma nação que abre mão do trono para proteger seu povo. Homem-formiga, Pantera Negra.

Seja qual for essa origem – voluntária ou involuntária – o herói necessita de uma missão. Um propósito que guie suas atitudes e paute sua agenda. Esse objetivo de vida pode ser proteger um bairro (Demolidor), uma cidade (Homem-Aranha) ou um país (Tropa Alfa). Exterminar bandidos (Justiceiro) ou prender bandidos (Capitão América). Talvez, ainda, salvar o universo (Liga da Justiça).

Independentemente de sua abrangência, a missão demanda tempo integral, intercalado por momentos de relativa ou passageira bonança, necessários para o exercício daquilo que é essencial a qualquer um – comer, descansar, dormir, espairecer.

Sendo assim, a estrutura do herói exige períodos onde ele possa viver sem o uniforme, sem a máscara, sem a capa. Horas nas quais possa esquecer sua origem e missão e fazer o qualquer homem ou mulher desse planeta faz, em seus momentos livres, sem expor seus amigos, sua família, seu grupo social. Para o herói, só é possível evitar que seja ameaçado assumindo, nos períodos de lazer, uma outra identidade.

Assim sendo, o disfarce é imprescindível para o herói. Pode até roubar o lugar de outros pontos de destaque na formação da sua personalidade – porque ainda temos a fraqueza, a donzela, o vilão ou nêmesis e o sacrifício, mas isso fica para outra conversa, irrigada com obra de Joseph Campbell.

Ainda falando do disfarce, não deixa de ser curiosa a forma como os quadrinhos o exploram. Basta um óculos para Superman se transformar em Clark Kent. Oliver Queen, apesar de sua cavanhaque loiro estiloso, jamais é confundido com o Arqueiro Verde. E a facilidade com a qual Mathew Murdock se desloca, graças ao sonar desenvolvido num acidente, não denuncia que ele se trata do Demolidor. Pensando assim, na dificuldade das pessoas em descobrir alguém por trás de um disfarce, dá até para compreender uma passagem da Bíblia.

É lá, nas Escrituras, que encontramos a origem e a missão do Filho de Deus. Jesus, o verbo, estava junto à trindade desde o princípio de tudo. Desde sempre existiu, para sempre existirá. E num fragmento microscópico, atômico, da eternidade, num brevíssimo intervalo de tempo, Cristo redefiniu a história da humanidade. Abriu mão de sua origem, sua glória para encarnar como um bebê. Cresceu e encarou a missão que só Ele poderia cumprir.

E é também na Bíblia onde lemos um dos episódios mais interessantes de disfarce, e que envolve o Filho de Deus.
Jesus já havia deixado claro, a eles, qual sua origem. Por três anos caminhou ao lado de seus seguidores, falando do amor do Pai e ensinando-lhes a guardar os ensinamentos de amor.

Mas a sua missão não podia ser modificada. Estava prevista desde os primórdios, e necessitava de Seu sacrifício. Cristo morre, então. E uma profunda decepção se abate sobre os seus discípulos.

Mergulhados nesse luto, dois deles, segundo o evangelho de Lucas, caminham para a aldeia de Emaús. Falam sobre a morte do Salvador, esmagados pela saudade e tristeza.

Até que um homem se aproxima deles, curioso com o rumo daquela conversa. O estranho parece não compreender os detalhes da história e pede que a contem em detalhes.

Os dois discípulos passam a reproduzir, em detalhes, cada um dos últimos dias de Jesus. Os momentos no Getsêmani. A prisão. Os açoites. O interrogatório. A crucificação. A morte.

O peregrino escuta cada palavra, sem esboçar nenhuma reação. Percebe como a narrativa tem um fim, na cruz. Como se um livro se encerrasse ali, na última linha da página final. Para aqueles dois discípulos, só resta a contracapa, e nada mais. É o fim da história. Israel não mais será remido.

Então, como se ouvisse um grito de socorro ecoando daqueles corações, aquele estranho aceita o convite para jantar.

E à mesa, parte o pão e se revela a todos que ali estavam.

Era Jesus, o tempo todo, disfarçado, oculto, logo ali ao lado. E não o reconheceram.

Diz o texto que “os olhos deles estavam como fechados, para que o não conhecessem” (Lucas 24:16). Caminhando ao lado daqueles que amou, Jesus teve o cuidado de não mostrar as feridas causadas pela coroa de espinho. Talvez tenha escondido as mãos, furadas pelos pregos. E certamente se esforçou para não abraçar aqueles dois, afundados em lágrimas, e dizer-lhes que estava vivo. O Salvador não podia expor, no meio do caminho, a sua “identidade secreta”. O disfarce, sim, tinha o propósito de proteger aqueles que ele amava.

Mas qual o propósito, enfim, dos nossos disfarces?

Por que vestimos máscaras de identidades secretas, que não são as nossas? Por que tentamos nos passar por outros indivíduos, com outra personalidade, com outro padrão social, com outros sentimentos… que não são nossos?
A mitologia moderna dos super-heróis reflete muito de nossa forma de ser. Porque ‘precisamos’ de uma bela origem – seja ela triste, ou de superação. Porque ‘precisamos’ de um missão – dourada, reluzente, capaz de transformar mais do que ‘apenas’ uma família, com interferência local, regional, nacional ou internacional.

Cumprindo o papel de herói, portanto, também precisamos de um disfarce. Porque nem sempre nosso ‘eu’ natural nos agrade. Pelo contrário, às vezes nos entristece ou envergonha. Nos compara com nossos amigos – e até com os inimigos. Nosso ‘eu’, dessa forma, nos lança para baixo, nos humilha. Então preferimos os nossos disfarces.

Eles até podem funcionar, como nos quadrinhos. Mas chega uma hora em que vão ficar pesados demais, e não conseguiremos mais sair por aí com a imagem ou máscara de perfeito filho ou marido, perfeita irmã ou esposa.

Ficaremos cansados dessa situação. A fantasia vai perder a graça, oprimida pela realidade.

E se tem alguma coisa que Cristo entende é de cuidar dos cansados, dos desanimados, dos oprimidos e desesperançosos. Porque Ele enxerga através dos disfarces, vê a identidade secreta que queremos esconder atrás das máscaras.

Jesus sabe a sua origem – Ele estava ao seu lado desde a formação das suas primeiras células, desde que você ganhou o super-poder de viver! Ele tem uma missão para você – e vai te ajudar a cumpri-la, enfrentando cada vilão que se colocar à frente. E conhece que você é sob esse disfarce – porque é essa identidade secreta que importa.

Houve um dia em que Deus se disfarçou. Mas, ao fim dEle, o Salvador se revelou. Talvez seja esse o dia de você deixar seu disfarce de lado.

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