ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

O EVANGELHO DO PATO

PATO DONALD

Ele foi criado em 1934, como coadjuvante de um desenho animado. Sua aparência mudou com o tempo. A voz, nem tanto – sempre foi um grasnar, quase uma rouquidão. Foi esse som, aliás, que inspirou o surgimento do personagem. Quem contou isso foi o próprio Walt Disney:

“O Pato Donald veio (…) para se ajustar à voz que vinha me interessando já há alguns anos… Era um personagem que simplesmente não conseguimos segurar.”

E ninguém mais o segurou desde então.

Mickey Mouse sempre foi a figura principal. Suas orelhas de camundongo são sinônimo do universo Disney em desenhos, filmes, revistas e brinquedos. Mickey é o personagem fofo, dotado de uma personalidade intelectual e honestidade.

O Pato Donald, por sua vez, é o oposto. Emocionalmente descontrolado, na maioria das vezes o encontramos raivoso, impaciente e recorrendo à trapaça – até para enganar os sobrinhos. Tem a personalidade imperfeita que gostaríamos de evitar.

           Primeira aparição do Donald

Donald não consegue ser tão inteligente quanto o Mickey. É incapaz de resolver os crimes com a sagacidade e coragem do camundongo e não se dá bem na maioria dos desafios que encara. Também não consegue ser tão bem-sucedido nas finanças quanto seu tio, o Patinhas. A bem da verdade, ele passa mais tempo desempregado, na dureza. E Donald sequer consegue ser tão simpático na idiotice quanto o Pateta, que de tão abobalhado conquista o coração das pessoas.

Mas o Pato Donald é esforçado. Gostamos dele por causa disso. Também, não poderia ser diferente para um pato. Voltando ao mundo real, sabemos que essa ave que tem uma soma de qualidades. Veja :

O pato nada! Tem pés adaptados para se movimentar em rios e lagos.

O pato corre! Driblando a formação dos pés, ele consegue sair em disparada pelo chão.

O pato voa! Tem asas grandes e força para decolar em poucos segundos.

O pato mergulha! Suas penas impermeáveis mantém a temperatura do corpo debaixo d’água.

Muitas qualidades para um ser vivo do seu porte.

O problema é que o pato… não faz nada direito! O pata nada mal, corre mal, voa mal e mergulha mal.

É, não seria preciso nem exame de DNA. Donald, definitivamente, é um pato!

E o Evangelho pregado hoje em dia é para ele, exclusivamente. É cheio de imperfeições, o Evangelho do Pato.

Você já se sentiu como um pato, dentro de uma igreja ou diante de uma pregação no rádio, na internet, na televisão? É aquele momento que desperta um certo senso crítico, por menor que seja, com a visão para compreender que, afinal, as palavras ditas sobre o amor são verdadeiras, mas não são colocadas em prática tão bem assim – não passam de uma tolerância parcial, e nada mais?

Será que queremos mesmo amar o ladrão, o parente que tomou nossos bens, o ex-sócio com quem rompemos, o adúltero ou o vizinho que nos faz mal? Ou queremos mesmo é que todos sigam para o inferno? Se a questão é o homossexualismo, então, alguns acreditam que é melhor manter distância e amarrar o espírito imundo. Levam a batalha para o campo espiritual porque, enfim, o risco é menor do que compartilhar o amor de Jesus, estender a mão, abraçar, acolher ou abrir a porta dos nossos lares.

Já observou como há mais lealdade nas facções criminosas dos presídios paulistas e favelas cariocas do que dentro de algumas comunidades que se consideram cristãs? Entre algumas lideranças religiosas, então, nem se fale. O amor que vivemos, é “de pato”.

Quando falamos de trabalho social, parece mesmo que o esforço é sincero. As doações surgem de diversas famílias cristãs. Roupas, cobertores, cestas básicas e sopas. E está bom, né? A parte da Igreja foi feita, damos baixa num dos itens da lista de necessidades espirituais. Mais uma atitude “de pato”, que deixa a consciência leve para a próxima hora de celebração.

E como seria possível deixar tudo “menos pato”? Como levar homens e mulheres a se aproximarem do Criador, espalhando e cumprindo os ensinamentos do Cristo, de maneira incondicional? Parece que isso só acontece de vez em quando, e olha lá. Ou você não percebe a proliferação das mensagens de cura, libertação, vitória, prosperidade e riqueza? É um Jesus “pato”, pela metade, com apenas aquilo que é conveniente para essa ou aquela denominação.

Ultimamente, nem na música deixamos de ser “pato”. Corremos atrás dos modismos que existem do lado de fora das nossas paredes, sem critério algum e com grande atraso. A moda é sertanejo? A Igreja corre atrás, e faz mal feito. Até que a moda passa e a Igreja continua. A moda é pagode? Lá vai a Igreja atrás, e chega atrasada. A moda é música romântica, é funk, é balada, é rock? Corram lá, atrasadinhos de Jesus…

Sabemos fazer boa música, sim. Mas estamos conduzindo mal a adoração a Deus.

Sabemos cuidar dos necessitados, mas muitas vezes o fazemos mal.

Sabemos qual a verdadeira mensagem, mas pregamos mal.

E até sabemos como amar nossos irmãos, porém… estamos amando mal.

Esse não é o Evangelho de Jesus Cristo. É o evangelho do pato, uma pregação meia-boca, um festival de mediocridade.

Como o Pato Donald, os adeptos desse evangelho só são confundidos com autênticos cristãos porque são esforçado, alegres e – lá no fundo, talvez – boas pessoas.

Vivemos assim porque queremos outros patos ao nosso redor, nos fazendo companhia. Assim como aconteceu com Walt Disney, essa personalidade de Pato Donald é algo que “simplesmente não conseguimos segurar”, insiste em predominar.

Só existe condição de isso mudar quando abandonarmos os critérios de “ser pato” e buscarmos a excelência na missão da Igreja. O dia em que o pato nadar muito bem ou voar muito bem ou mergulhar muito bem, ele vai ser outro animal.

Poderá ser um cisne, com um nado gracioso; ou um ganso, com seus voos rasantes; ou um pinguim, com seus mergulhos profundos. Qualquer coisa, menos um pato.

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