ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

O MENOR HERÓI

ELÉKTRON

ELEKTRON1

Convém que Cristo cresça,
Convém que Cristo cresça,
Convém que Cristo cresça mais e mais!
E que diminua eu,
E que diminua eu,
E que diminua eu, mais e mais!

A letra é de um cântico infantil, ensinado entre o fim dos anos 1970 e começo da década seguinte. Em algumas comunidades, essa música era acompanhada de gestos com as mãos, como se as crianças estivessem escalando e descendo por uma escada ou montanha.

O texto onde a letra foi inspirada está no evangelho de João, capítulo 3, verso 30:
“Convém que Ele (Jesus) cresça e eu diminua”.

Parece algo fora de moda hoje em dia.

A regra do mundo moderno é não perder a chance de aparecer diante dos holofotes, como já havia profetizado Andy Warhol – “um dia todos terão direito aos seus 15 minutos de fama”. Os reality shows são apenas uma ponta desse processo, aquela em mais evidência. Temos ainda as curtidas nas redes sociais, a “sede” por milhares de compartilhamentos e seguidores. E alguém duvida que as motivações de um motorista, circulando em um carro incrementado, com o som no volume máximo, não são exatamente as mesmas?

Dessa forma, a busca pela notoriedade existe da periferia às classes altas – aquelas que buscam um espaço nas revistas de celebridades. Não ia demorar muito para isso chegar às comunidades religiosas. Temos estrelas do púlpito, da música, do testemunho, dos milagres. São tratadas como celebridades e tem seus fãs, ao invés de irmãos, em todo lugar.

Ao lado de uma dessas igrejas, onde vemos a faixa anunciando a presença do próximo convidado/estrela, existe uma banca de jornais. Na prateleira das histórias em quadrinhos, uma revista traz, na capa, uma figura pouco conhecida.
É um homem vestindo uniforme azul e vermelho, que não está entre os maiores heróis do mundo. Na verdade, está mais perto de ser o MENOR super-herói do mundo, Eléktron (The Atom, no original).

ELEKTRON3O personagem surgiu em 1961, numa releitura de outro herói mais obscuro, da década de 40.

Nessa origem mais recente, o jovem cientista Ray Palmer descobre o pedaço de uma estrela anã – um objeto celeste de grande densidade – e começa a fazer experiências.

Graças às propriedades do artefato, Ray consegue a habilidade de controlar o tamanho e massa de seu corpo. Assim, é capaz de se reduzir até a proporção de um átomo e manter uma força sobre-humana.

Nessa forma microscópica, trabalhando quase na invisibilidade, Eléktron pode viajar nas ondas de rádio, entrar nos lugares secretos e visitar mundos sub-atômicos para esmurrar malfeitores.

Em muitas das suas histórias, é nas pequenas coisas que vem a solução para os problemas ou as pistas para os crimes. Eléktron sabe que o seu trunfo é, justamente, sua pequena estatura como herói. E, assim, os marginais que desprezam sua força, contida no corpo minúsculo, logo são levados à justiça.
Voltemos à igreja com o convite para a visita do convidado/estrela.

Seria bom poder colocar, junto ao púlpito, o gibi com as histórias de Eléktron. Porque se as crianças não cantam mais a velha música, para inspirar os adultos, nada melhor do que usar um herói para tentar acordar os líderes religiosos.

Quem sabe se inspirem e abandonem a presunção e a vaidade, adotando a pequenez, quase invisibilidade. Quem sabe vejam que focar aquilo que é tão pequeno, como a vida de um único indivíduo que frequenta a comunidade religiosa, é mais importante que a quantidade de membros de uma igreja tratada como empresa.

Ou ainda, quem sabe, se recordem de outro herói, que ainda de baixa estatura, trouxe a vitória para Israel usando uma pedra minúscula. Com ela, Davi fez um gigante filisteu tombar.

E você? Vive se achando um gigante, uma estrela, em busca de fama? Ou sabe qual é o seu verdadeiro lugar nesse mundo, salvo da morte pelo sangue de Jesus?

Conta-se a história de um pregador, recém-saído do seminário, que foi convidado para falar em um igreja. O jovem pastor foi chamado ao palco e caminhou até lá com o peito estufado e o nariz empinado. Cheio de si, seguro, parecia não ter medo de nada. Posicionou-se atrás do púlpito com olhos que brilhavam.

Estava no céu, era a figura mais importante daquela noite. Mas quando começou a pregar, o pastor de se perder. Não conseguia conduzir uma linha de raciocínio para o sermão. Começou a suar e a gaguejar. As palavras sumiam, as ideias eram todas confusas.

Ao final da pregação, que pareceu um eternidade, o jovem desceu arrasado. Com o queixo praticamente colado no peito, não conseguia olhar para as pessoas. Estava humilhado, arrasado, com o espírito despedaçado.

Ao final do culto, sentado no banco, enquanto esperava os membros deixarem a igreja, o jovem pastor foi recebeu o abraço de uma velhinha, uma das antigas fundadoras daquela comunidade. A mulher o apertou com força e sussurrou ao seu ouvido:

– Se você tivesse subido no púlpito da forma como desceu, teria descido da forma como subiu…

“…e que diminua eu, e que diminua eu, e que diminua eu mais e mais..”

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