ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

ONDE ESTÁ A JUSTIÇA?

 

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Frank Castle é o Justiceiro.

Criado em 1974 por Gerry Conway, Ross Andru e John Romita, o personagem surgiu nas histórias do Homem-Aranha. Fez tanto sucesso que ganhou revista própria, filmes e participação no seriado do Demolidor, em 2016.

Frank Castle foi fuzileiro naval, lutou na Guerra do Vietnã e defendeu os interesses dos Estados Unidos numa centena de conflitos. Foi transformado numa máquina de matar. Virou herói de guerra – e se tornou uma vítima dela. A família de Frank foi brutalmente assassinada, só ele sobreviveu.

Por conta disso, abandonou sua identidade civil e passou a agir como o Justiceiro, carregando uma caveira no peito. Esse personagem impiedoso cruzou a linha que poderia existir entre o heroísmo e a violência desnecessária. Sem acreditar na justiça dos homens, Frank declarou guerra ao crime e tomou para si o papel de juiz, júri e executor. Para ele, não há misericórdia, não há redenção, não há segunda chance.

Confesso, às vezes eu gostaria que o Justiceiro fosse meu amigo.

Ele me daria uma carona até o trabalho, por exemplo. Imagino-o interceptando os carros que ultrapassam pela direita, tirando pela janela os motoristas que não esperam a vez. Talvez ele até invadisse os ônibus e caminhões para acertar as contas com os motoristas que não possuem o mínimo de prudência e senso de segurança.

JUSTICEIRO3Eu convidaria Frank para assistir um bom show de música, à noite, no centro da capital, andando por vielas escuras e frequentadas por gente de má índole. Deixaria ele mostrar um pouco da técnica de extermínio que desenvolveu durante os anos.

Eu também levaria o Justiceiro para um passeio nos lugares onde as drogas são consumidas livremente, nas lojas onde o contrabando é vendido como mercadoria oficial, nos barracos onde trabalhadores são explorados em condições sub-humanas e até nos estádios de futebol onde torcedores procuram motivo para brigar.

Eu ainda apresentaria ao Justiceiro os chefes de recursos humanos de algumas empresas. Revelaria a ele a exploração à qual operários são submetidos, a má distribuição do lucro, a falta de oportunidades de crescimento nas carreiras. E o Justiceiro também iria visitar os órgãos públicos, as igrejas, os hospitais e as favelas.

Os dias seriam curtos demais. E as ataduras ou as valas dos cemitérios seriam insuficientes.

A bem da verdade, eu não queria o Justiceiro do meu lado.

Eu queria mesmo é Deus, nesse papel do Justiceiro. Eu queria Deus manifestando sua justiça e ira nessas e outras situações. Eu queria, ao menos, que Deus visse, de perto, o que passamos no dia-a-dia. Queria que ele ferisse essas pessoas que nos ameaçam, que nos fazem mal, e que colocasse medo em seus corações. Eu queria Deus rasgando os céus, com aquela ira do Velho Testamento, mostrando às pessoas que estão agindo de forma errada e vingando os oprimidos. Eu queria Deus agindo de forma impiedosa contra a desigualdade social e contra a desordem que reina ao nosso redor.

Sei que esse sentimento não é exclusivamente meu. Estou ao lado de Davi :

“Os ímpios, na sua arrogância, perseguem furiosamente o pobre; sejam eles apanhados nas ciladas que maquinaram. (…) Quebra Tu o braço do ímpio e malvado; esquadrinha a sua maldade, até que a descubras de todo.” (Salmo 10:2 e 15)

“Levanta-te, Senhor, detém-nos, derruba-os; livra-me dos ímpios, pela tua espada” (Salmo 17:13)

“Até quando os ímpios, Senhor, até quando os ímpios exultarão?” (Salmo 94:3)

É isso, aí, Senhor. Até quando? Parece que não há ordem e justiça nesse mundo…

Então eu me envergonho porque lembro de Jesus Cristo. E foi sobre um monte, chamado justamente de “caveira”, que Ele foi levantado numa cruz. Jesus também foi vítima de “justiceiros”.

Com Ele, aprendemos a história dos trabalhadores da vinha. Contratados para o mesmo serviço, por diferentes cargas horárias, todos receberam o mesmo valor como pagamento – conforme havia sido combinado. É claro que os homens que pegaram no batente no começo da manhã se esforçaram mais – e se revoltaram. Mas, se o dono da vinha queria pagar mais aos homens que só se empenharam por uma hora, qual o problema? E se o ladrão que estava na cruz só conseguiu o perdão e aceitou a Salvação divina nos instantes finais de sua vida… qual o problema? Não é isso, enfim, a graça? Receber aquilo que não merecemos?

Eu sei que Frank Castle, o Justiceiro, já teria matado o dono da vinha e assassinado o ladrão antes que fosse pendurado à cruz.

Contudo, não é assim que Deus age.

Presente ao meu lado, sim, Ele espera a minha misericórdia sobre a maldade e o meu esforço para trazer justiça, ao mundo. É meu – é nosso – papel transformar a sociedade. Pelo amor. Sem raiva. Sem vingança.

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