ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

PERDENDO A FALA

 

Dois personagens com caminhos semelhantes.

Um estava no começo de tudo, antes da estrela principal mudar a vida de todos. O outro… também.

Um tem dificuldade de se comunicar e conta com a paciência e compreensão das pessoas ao redor. O outro, também.

Um usa as mãos para se comunicar. O outro, uma tábua.

Um vive assim, desde criança. E o outro, quando já era velho, teve a vida mudada.

O primeiro é o Humberto. É um dos mais antigos personagens de Maurício de Sousa. Foi criado lá por 1959, antes da Mônica e do Cebolinha. A turminha só seria formada depois desse menino aparecer.

Humberto não fala, é mudo, só emite um “Hum, Hum”. Se não foi a primeira criança especial nos quadrinhos, certamente está entre as pioneiras. Foi só em 2004 que a Turma da Mônica ganhou outros personagens do gênero – como Dorinha, deficiente visual, e Luca, cadeirante.

Quando Humberto surgiu não havia essa profusão da Língua Brasileira de Sinais, a Libras. Surdos e mudos tinham mais dificuldade de se comunicar. Nem por isso Humberto deixou de participar dos planos infalíveis do Cebolinha, de levar umas coelhadas da Mônica ou de fugir do mau cheiro do Cascão.

Nas histórias recentes, Humberto aprendeu a falar com as mãos. E incentiva os amigos a conversarem com sinais. Até surgiu um balão de fala especial, em formato de mão, para identificar o diálogo de Libras! Nunca soube de coisa igual no mundo.

O outro personagem, com história semelhante, está na Bíblia – Zacarias. Um sacerdote que seria pai de João Batista, nome mais importante da sua família. Ao contrário de Humberto, o sacerdote nunca teve problema para falar.

Até um dia em que perdeu a voz quando duvidou de uma profecia. Já seria de se espantar a falta de fé de um homem que lidava com as ofertas a Deus. O pior é que Zacarias duvidou de uma profecia, vinda da boca de um anjo, em resposta a um desejo seu e de sua mulher!!!

Pensando assim, ficar mudo até que parece pouco…

O primeiro capítulo do evangelho de Lucas diz que Zacarias estava trabalhando e havia sido escolhido para entrar no santuário do Senhor. Enquanto o povo orava, Zacarias se dirigiu ao altar. Foi nessa hora que o anjo apareceu, ao seu lado.

Segundo o evangelho, Zacarias “perturbou-se e foi dominado pelo medo”.

Mas ele não estava fazendo a intermediação entre o povo e Deus? Já que Jesus ainda não havia nascido para romper o véu que nos separava do Criador, não era a função do sacerdote interceder junto a Ele?

A narrativa segue mostrando que o anjo percebeu o medo do sacerdote e tentou tranquilizá-lo. “Não tenha medo, Zacarias, sua oração foi ouvida; Isabel, sua mulher, lhe dará um filho, e você lhe dará o nome de João”. Ao que Zacarias responde: “Como posso ter certeza disso? Sou velho, e minha mulher é de idade avançada”.

Recapitulando: um homem justo – como diz a Bíblia – que exerce a função de sacerdote – atua junto ao altar de Deus – e clama por um filho. E quando a resposta chega… ele duvida!

É como a porta de emprego que se abre com o telefonema da entrevista, mas o candidato não comparece porque espera que a oração só será respondida quando o salário for maior. É como o sem-teto que mora do outro lado da rua, mas que nunca é visto pela família cristã, que está sempre orando para que Deus ajude a sustentar os missionários tão longe…

Como será que Zacarias esperava que sua oração fosse atendida? Com uma gravidez espontânea da mulher? Com a adoção de uma criança? Ou com a descida de um filho dos céus? E ainda… que certeza ele queria ter da profecia vinda da boca de um anjo? Um papel de compromisso, com registro em cartório?

É diante dessa incredulidade que o anjo Gabriel lança o veredito: “sou Gabriel, o que está sempre na presença de Deus. Fui enviado para lhe transmitir estas boas novas. Agora você ficará mudo. Não poderá falar até o dia em que isso acontecer, porque não acreditou em minhas palavras, que se cumprirão no tempo oportuno”.

Zacarias talvez tenha tentado protestar, porém nenhuma palavra saiu da sua boca. Como Humberto, estava mudo. O evangelho diz que Zacarias demorou a sair do Santuário, e que o povo já estava preocupado.

Quanta coisa deve ter passado na cabeça do sacerdote: “o que vão pensar de mim? que eu fui castigado pela minha incredulidade?” Será que Zacarias tentou falar com Deus novamente ou fazer uma nova oferta, esperando que sua voz voltasse?

Será que chorou, pela falta de fé? Ou de alegria, pela profecia que se cumpria?

A Bíblia não conta os detalhes. Diz que Zacarias saiu e o povo viu que ele não conseguia falar. A partir daquele momento, só podia se comunicar com uma tabuinha, como se fosse um caderno de anotações, onde escrevia o que queria dizer.

Nesse meio tempo, outro pai também se surpreendeu com a notícia de uma gravidez. Era José, também escolhido por Deus, mas que não duvidou, mesmo na sua simplicidade de carpinteiro. Não era sacerdote, não fazia sacrifícios, não tinha nem se deitado com Maria. Mas ia ser pai do Filho de Deus, e pensou em fugir. Sobre esse não veio castigo. Tranquilizado, ficou ao lado de Maria.

A história segue e nasce o filho de Isabel. E no burburinho da família de Zacarias, todos discutem o nome da criança. Todos, menos o sacerdote, mudo. Até que alguém lhe dirige a palavra. O pai da criança tinha que se manifestar. E Zacarias escreve, numa tabuinha gasta por nove meses de uso, o nome de João Batista.

Já não era mais uma escrita insegura, descrente. A letra mudou. E talvez Deus tenha feito o coração daquele homem mudar também, em toda uma gravidez de espera. Junto com o filho que era gerado, nascia um sacerdote melhor. Um sacerdote que aprendeu a confiar em Deus e a falar mais do que com a voz da garganta. Era com a voz da alma que Zacarias tinha aprendido a se comunicar.

“Com certeza, fala bem melhor o mudo se sua atitude manifesta o que crê”
(Sérgio Pimenta)

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