ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

POBRES CRISTÃOS RICOS

RIQUINHO

Um garoto muito rico. Era assim que os criadores de Riquinho, Alfred Harvey e Warren Kremer, definiam o personagem. Com tanto dinheiro, Richard “Richie” Rich Jr. (seu nome original) tem muitas possibilidades de aventura. Ele surgiu nos quadrinhos em 1953 e caiu na cultura pop. Virou sinônimo de pessoa abastada ou gastadeira e já foi visto nos desenhos animados, no cinema e nas Igrejas.

É isso mesmo, Riquinho já ganhou versões nos templos cristãos. Justamente junto à religião que deveria pregar a falta de apego aos valores deste mundo e defender a distribuição de renda em favor dos desprovidos.

Mas essa mensagem não é boa de ouvir, não. Então, os seguidores da forma de viver do Riquinho deram início a um movimento silencioso que vêm transformando as igrejas. A Reforma Protestante parece que já não é mais suficiente, o que vemos agora é a “Reforma do Riquinho” nas Igrejas.

No lugar das 95 teses reformistas, agora só existem três. Afinal, para quê perder tempo com tanto detalhamento? Time is money, na igreja também…

A primeira tese de um irmão Riquinho é que tudo gira em torno dos riquezas deste mundo. Desta forma, não pode haver um dia em que não se fale sobre a necessidade de ter mais ou de não perder o que se tem. A oração tem que ser feita com essa intenção, senão a benção não chega. Insistir é palavra de ordem para o irmão Riquinho. Nesse discurso, o bem também pode ser a posse do emprego, do namoro, do casamento, da casa, do carro, do filho. Do que for! É o assunto preferido dele.

Ser é ter, para essas pessoas. E quando já se tem, não é possível parar. O irmão Riquinho tem que buscar o mais moderno, o mais novo, o mais caro. É o cristão que já não quer só comida, diversão, arte e Deus. Quer a comida do restaurante mais caro, a diversão vip, a arte do momento e o deus dos cifrões.

Como o Riquinho dos quadrinhos, que fazia questão de estampar a marca da família, o cifrão, até no cachorro chamado Dólar, o cristão adepto dessa corrente quer identificar o que lhe pertence. Com medo de perder seus bens, declara a posse em voz alta. É um tal de “eu determino” pra cá, “eu declaro” pra lá… E “amarra” tudo, em nome de Jesus, com medo que o inimigo lhe assalte.

Numa coluna social, anos atrás, a mulher de um investidor brasileiro narrava o pesadelo que teve nos dias da crise financeira americana de 2008. No sonho, ela e o marido eram obrigados a vender os bens para pagar as contas e “tinham que rodar em um Uno Mille”. Acordou assustada, quase traumatizada com esse quadro que poderia enfrentar.

Pior que a presunção da mulher é a constatação de que muitos cristãos, seguidores do estilo Riquinho, também se recusam a “rodar em um Uno Mille”. A benção tem que ser maior, com direito a carro importado, barco e casa na praia. Só é preciso ter fé.

A segunda tese desse povo é que algumas invenções podem resolver todos os problemas. Nos quadrinhos, Riquinho tem uma empregada-robô que limpa e cuida de tudo e, de quebra, o salva quando está em apuro. Quando necessário, o dinheiro dele ainda pode comprar bugigangas e apetrechos, fabricados por um cientista, para se divertir e impedir que a riqueza da família chegue ao fim.

Tem invenções semelhantes na igreja cristã. Na área da música, são grupos que direcionam o povo nesta ou naquela teologia e engessam a maneira de pensar e cantar. Na pregação, são programas de rádio, TV e internet que levam uma mensagem rasa adiante – seja qual for o tipo de mensagem. Na administração das comunidades, vemos um sem número de títulos inventados, conselhos comprados e presidências loteadas. No comércio, objetos que prometem vitórias ou aproximam o povo de Deus. Tudo sem falar de pecado ou arrependimento, claro. Porque gente fina, rica, não quer saber se contrição. Chorar, então, e borrar a maquiagem importada, nem pensar.

A terceira tese, por fim, ensina que não é possível viver junto à multidão quando se tem tanto dinheiro e não se deseja perdê-lo. Assim, o irmão que vive como Riquinho não caminha entre os pobres.

Não precisa deixar sua casa por nenhuma necessidade, prefere ficar em seu universo. Isolado no interior de templos-mansões, não quer nem ver a cor dos desvalidos. Se puder frequentar um culto com área vip, melhor ainda. “Já dá muito trabalho manter as coisas funcionando desse jeito, não é? Por que mudar então? Que os pobres esperem outra ajuda”, devem pensar. Dão o dízimo, isso quando o fazem, e acreditam que já basta. O dinheiro compra, afinal, até a libertação da culpa.

E tudo isso, justamente na religião que deveria estender a mão para servir.

Dá para entender que lá na década de 50, quando foi criado, Riquinho era uma história em quadrinhos que não incomodava. Era o sonho absurdo, das crianças e adultos, de não ter limite de posses.

Era um ideal absolutamente inverosímel, e aí justamente residia a graça. O esbanjamento da mordomia! A falta de limite para os gastos!

“Imagina só, uma casa com tantos quartos e banheiros com mármore em todo lugar!!!”, os leitores pensavam. “E um carro tão caro assim!!! E essa televisão enorme, do tamanho da parede!!!”.

Naquela época, a gente só via coisas assim na ficção, nos gibis, nos desenhos animados repletos de exageros.

O problema é que o grau de fortuna daquela fantasia já foi alcançado por um fatia da nossa sociedade, inclusive entre cristãos – católicos e protestantes, ortodoxos e renovados.

Nossos líderes e irmãos aprenderam bem a viver como o Riquinho. E verdadeiros Riquinhos eles viraram, dentro de suas roupas engomadas e carteiras cheias de cartões black. Será que ainda não entenderam que os bens que possuímos nos foram concedidos para administração, em benefício do reino de Deus? Ou será que não querem entender?

O professor Mário Sérgio Cortella, no livro “Viver em Paz para Morrer em Paz”, sabiamente afirma:

“Aquilo que eu sou, a minha capacidade humana de conviver, ela precisa do ter. Mas o ter não é decisivo. O ter é como uma escada. Ninguém tem uma escada para ficar em cima dela ou grudado nela. Você tem uma escada para ir a algum lugar. E o lugar que o ter deve nos levar é o ser. Se ele não nos leva a sermos solidários, a sermos fraternos, a sermos amigos, a sermos decentes, então, para quê? É preciso pensar nisso e fazer-se importante, para viver e morrer em paz.”

Uma pena que os adeptos do modo de vida do Riquinho nunca tenham reparado no subtítulo original do gibi: “The Poor Little Rich Boy” – “O Pobre Garotinho Rico”.

Porque os criadores do personagem sabiam que uma criança que tivesse muito dinheiro, as melhores invenções e um mundo só seu, veja só, jamais seria feliz. Estaria condenada a um tipo de pobreza que não se paga por cifrões. Afinal, que proveito pode haver se uma pessoa ganhar o mundo inteiro e perder o que lhe é mais importante, a alma?

Nem todo mundo aprendeu isso ainda.

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