ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

VÍCIOS E VIRTUDES

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SHERLOCK HOLMES

 

Houve um tempo no qual os médicos não podiam contar com exames de laboratório para elaborar diagnósticos. Ao contrário de hoje – quando muita coisa é tratada como “virose” até que a análise do sangue, da urina e de outros elementos do organismo comprove o contrário – a observação era uma importante ferramenta nos consultórios. Pequenas particularidades do paciente, minuciosamente avaliadas, poderiam levar à conclusão da doença que o afligia. Duzentos anos atrás era assim que a medicina funcionava.

Foi nesse contexto que o estudante Arthur Conan Doyle conheceu um dos seus professores. Aquele homem, diz a história, tinha uma capacidade dedutiva extraordinária. Pelo exame clínico que fazia chagava aos diagnósticos mais precisos, coletando informações não apenas sobre as moléstias que atingiam os pacientes como também sobre o seu comportamento.

Conan Doyle ficou tão impressionado que tirou dali a inspiração para um detetive dotado de um excepcional poder de investigação a partir da observação e dedução lógica. A primeira história sobre Sherlock Holmes foi publicada em 1887. E as milhares de republicações de seus casos de mistério nunca cessaram.

Sherlock Holmes ganhou também seriados de TV e filmes no cinema; veio ao Brasil (no livro “O Xangô de Baker Street”, de Jô Soares); se encontrou com o Batman (na série “The Brave and The Bold”) e até dividiu o apartamento na Baker Street com a senhorita Watson. Sim, Lucy Liu faz a bela doutora Watson na série produzida pela CBS. Isso sem falar numa minissérie brilhante da BBC, com um Watson veterano da Guerra Fria.

Quem não abre mão da fórmula clássica já pode até ler todas as histórias do detetive no celular. São pouco mais de 1600 páginas, no bolso.

A verdade é que Conan Doyle brindou a humanidade com um herói de características contundentes. Valoroso, porém questionável. Gentil e ao mesmo tempo insuportável. Um personagem marcante por algumas razões:

Sherlock Holmes se encaixa em qualquer ambiente

O maior detetive do mundo é arredio às convenções sociais. É até rude na maneira como se dirige às autoridades. Porém, consegue estabelecer um elo incrível com qualquer grupo, dos duques e ministros às populações invisíveis. Comparece à corte pela manhã e aos portos à tarde, com a mesma desenvoltura. Faz dos meninos de rua e desabrigados seus olhos e ouvidos em Londres. É capaz de viver na companhia deles para resolver um mistério e não fará feio na presença de uma autoridade de estado que necessite dos seus talentos.

Sherlock Holmes presta atenção nos detalhes

A terra que sujou um sapato, as cinzas deixadas por um cigarro ou um risco no chão. Detalhes aparentemente insignificantes são explorados por Sherlock como as pequenas peças de um quebra-cabeças. E ele faz questão de explicar aos ouvintes que essas coisas não são tão simples assim. Suas conclusões são fruto de muito treino e experiência. Watson não se cansa de repetir sua frustração ao tentar acompanhar o raciocínio do amigo, mesmo depois de anos de convivência – e reconhece uma habilidade fora do comum.

Sherlock Holmes é apaixonado pelo que faz

Não há dinheiro ou remuneração que leve Sherlock Holmes a sair de casa para investigar um mistério. Ele prefere a companhia de seu violino e dos frascos de química a cumprir a obrigação de investigar esse ou aquele fato. Porém, se houver um detalhe obscuro que possa motivar sua curiosidade, nada o fará desistir. Será até difícil para ele conter o sorriso numa cena de crime ou numa situação de desespero familiar – tamanho o entusiasmo pela sua missão.

Sherlock Holmes não quer a fama

Nas histórias, antes de conhecer o doutor Watson, Sherlock se limitava a guardar para sí as histórias de investigação. Foi o amigo que teve a iniciativa de narrá-las e publicá-las. Isso de certa forma incomodou o detetive, que preferia agir nas sombras. Ele sequer deseja o mérito das investigações. Prefere atribuir à polícia de Londres o sucesso pela solução dos casos e prisão dos criminosos. Com o tempo, passou a aceitar a narrativa de Watson como forma de registrar a evolução da investigação criminal.

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É bem verdade que um fã do detetive poderia listar outras qualidades que aparecem nos livros. E que o cristão tem condição de compreender que esses pontos podem estar presentes em qualquer relação humana. Não apenas naqueles ambientes que escolhemos e que nos são confortáveis, mas também naqueles que se mostram como um desafio.

Doar-se para alguém é estar disposto a prestar atenção nos detalhes da vida do outro, ouvindo cada lamento ou vitória como se isso fizesse parte da nossa própria existência. Como se a dor do outro fosse a sua.

E isso não por obrigação ou temor divino, mas por desprendimento, pelo amor de se dedicar a quem precisa da nossa presença, atenção e afeto. Amar como Jesus amou, sem esperar nada em troca. Sem esperar fama, sucesso ou reconhecimento.

Mas, se pudéssemos perguntar a Watson quais as características mais condenáveis de seu amigo, talvez ele não demorasse mais que um minuto para responder:

Sherlock Holmes vive num mundo próprio

“Você diz que giramos em torno do Sol, Watson. Se girássemos em volta da Lua, isso não faria a menor diferença para o meu trabalho” – diz Sherlock – “Considero o cérebro de um homem como sendo inicialmente um sótão vazio, que você deve mobiliar conforme tenha resolvido. Um tolo atulha-o com quanto traste vai encontrando, de maneira que os conhecimentos de alguma utilidade para ele ficam soterrados.”

Para ele, só é importante o conhecimento que pode ser útil para sua vida. Mesmo que signifique ignorar o funcionamento do sistema solar, a política ou a literatura. A própria amizade com Watson, um médico com experiência de guerra, sempre foi desenvolvida por conta da sua utilidade no campo de atuação. Dá para pensar que Sherlock Holmes levantou um templo em louvor de si mesmo e lá dentro ele sempre ficou, dedicando toda devoção à sua própria figura.

Sherlock Holmes é arrogante

E não se preocupa em esconder isso. Frequentemente despreza os feitos do detetive Lestrade, da polícia de Londres, ou a incapacidade das pessoas em acompanhar seu raciocínio. O que ele não entende é que não existe problema algum no excesso de inteligência ou brilhantismo. A questão é como lidamos com isso. Não foi essa lição que Saulo de Tarso aprendeu a duras penas? Derrubado do cavalo quando, orgulhosamente, perseguia os cristãos? Quebrantado ao ponto de reconhecer, já no fim da vida, que não era mais ele quem vivia, e sim que “Jesus Cristo vivia nele”? Falta muito para Sherlock Holmes chegar nesse ponto.

Sherlock Homes precisa vencer o vício

Conan Doyle nunca escondeu do leitor que o maior detetive da história é dependente do ópio, da cocaína ou da morfina. Como muitas pessoas, ele recorre às drogas para vencer os períodos que chama de apatia ou nos quais não encontra motivação, entusiasmo para viver. A companhia de Watson gerou conflitos, sempre que este tenta livrar Holmes da dependência. Mas a única coisa que funciona para fazê-lo esquecer o vício e se recuperar dos momentos de depressão era um novo caso de mistério – por menor que seja.

“Tudo o que for verdadeiro, puro e amável, seja isso que ocupe o vosso pensamento” – é o conselho da Bíblia para as situações de narcisismo, arrogância e vício – de qualquer tipo.

Deus é habilidoso na maior de todas as investigações: a do coração. Capaz de fazer o mais difícil diagnóstico que existe – o da alma – por menor que sejam as evidências. É um Deus capaz de encontrar os criminosos onde quer que se escondam, nos palácios ou sob as pontes, para trazê-los até junto de si. E é capaz de perdoá-los, mesmo que a lei dos homens não faça o mesmo. Um Deus que deixou o seu mundo próprio, celestial, para encarnar como homem e caminhar no nosso mundo. Um Deus que abriu mão de toda realeza e que não depende das nossas fraquezas. Um Deus que é detetive também. Que investiga o nosso interior e nos ajuda a resolver os nossos mistérios.

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