ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

UM CONVITE

HOMEM-CATRACA

Laerte Coutinho conquistou um lugar na galeria dos grandes autores de quadrinhos do Brasil graças à sua enorme capacidade criativa e ao brilhantismo do traço.

Alguns de seus roteiros são clássicos, já adaptados para televisão e teatro. E seus personagens ganharam um lugar na cultura popular – Piratas do Tietê, Deus, a Gata e o Gato, o puxa-saco Fagundes, Suriá, Hugo e outros. Surgiu também da cabeça de Laerte um personagem muito curioso: o Homem-Catraca.

A cabeça é humana. As pernas, mecânicas. E o tronco, uma catraca. Dessas que a gente tem que empurrar para atravessar o ônibus, o acesso do cinema ou a plataforma do trem. É um modelo antigo, daqueles de alças largas. Nada parecido com as grades que vão até o teto, as portas automáticas ou as barras cilíndricas que giram.

O Homem-Catraca aparece geralmente em situações nonsense, em tiras curtas. No máximo são uns quatro quadrinhos até ele sumir novamente. E nessa breve “existência” se depara com divagações, provenientes da própria análise ou de uma intervenção alheia – seja por um coadjuvante ou por um narrador.

Desconheço a intenção de Laerte ao trazer o Homem-Catraca à existência. Talvez fosse um embrião das experiências narrativas que desenvolveu na Folha de S. Paulo. Talvez um refresco para a pressão da narrativa humorística, a obrigação do riso final. Mas acho que o Homem-Catraca pode representar algo mais.

Ele é a pessoa que existe tão somente no presente, sem referência do passado ou perspectiva de futuro. É um prisioneiro do próprio mundo, auto-suficiente por natureza.

Em uma reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo, em 2008, cientistas revelaram um ecossistema de uma espécie só, descoberto na África. Essa nova espécie, a audaxivaitor, não precisa de alimento. Usa a radiação do urânio das rochas como fonte de energia e os minerais e gases dissolvidos na água como matéria-prima para produzir aquilo que precisa – inclusive para se reproduzir. Esse seria o primeiro ecossistema completo de uma espécie só já encontrado. A independência dessa bactéria é tão grande que ela sobreviveria a um desastre global, numa profundidade de 2,8 km.

O Homem-Catraca é assim também. Uma testemunha da história, sem fazer parte dela. Um viajante dos momentos, apenas observando, sem depender de ninguém.

Talvez com exceção dele, e da bactéria audaxivaitor, todos os demais seres vivos da Terra dependam de outras formas de vida para sobreviver: animais precisam do oxigênio gerado pelas plantas, plantas precisam de animais para polinização e de bactérias para fixar nitrogênio, bactérias precisam da matéria orgânica gerada por animais e plantas para se alimentar.

Por mais que não reconheçamos, somos dependentes de alguém. A pessoa mais solitária, vivendo tão longe, não terá, em si, a plenitude da sua cadeia existencial. É preciso haver algo ou alguém para que os processos sejam acionados e o ciclo – até a morte – mantido.

A própria figura da catraca, falando do objeto, nos ajuda a entender isso. Do mais antigo modelo ao mais moderno, a catraca ajuda quem passa por ela. Basta um empurrão ou aproximação e o restante do trajeto será feito automaticamente, por um processo mecânico. Não há como errar, só existe esse caminho. E se for um ser ligeiramente acima do peso, é melhor espremer a barriga para caber no vão entre uma alça e outra.

Desistindo da figura passiva de espectador da história, seguimos pelo corredor da caminhada espiritual até um momento em que somos obrigados a agir ativamente. Será necessário um esforço, um desgaste, uma cobrança. Resolvido isso, iremos para frente e veremos a resistência ceder. A experiência conquistada nos ajudará, empurrando por trás.

A figura da catraca traz outras ponderações. Geralmente, ela está colocada em um local de acesso e tem a função de organizar uma demanda de passagem. Podem existir cem pessoas querendo ir até um ponto, e basta uma catraca para a confusão se organizar. Com ou sem fila, com ou sem reclamação, só passa por ela um por vez.

Antigamente não havia essa moda de pular o acesso quando se está sem dinheiro ou bilhete. Assim, só entrava quem tem direito àquele controle de presença.

Na vida, bem que tentamos driblar desse jeito algumas das questões colocadas diante de nós. Até conseguimos, numa ou outra ocasião, trapacear e arrastar nossos corpos por baixo ou projetá-los acima da alça. Mas não dá para fazer isso sempre, uma hora o cobrador vai ver. Uma hora vai ser preciso encarar a dívida, pagar o que devemos e dispender energia para rodar o braço de entrada.

Por último, a catraca também tem a função de registrar o número de acessos, contando quantas pessoas passam por ela. Esse número serve para conferência de um valor arrecadado e controle estatístico de freqüência. Passou por ela, um registro. O nome da pessoa pode estar sujo, suas opiniões e preferências podem ir contra a maioria, sua conta bancária pode ser vazia. Não interessa, havendo cumprido com sua obrigação, qualquer um pode passar pela catraca, que isso será registrado junto aos demais.

Então, fica o convite: transeuntes da vida, não tenham receio de entrar por esse acesso da existência cristã. Suas experiências passadas não os impedem ou condenam. Passem pelo mesmo lugar de todos os demais que encontraram essa esperança de salvação. Não queiram o caminho mais fácil, burlando a entrada obrigatória. Essa força inicial será importante para o que virá a seguir. E chega de viver sozinho, como expectadores do presente. Aceitem o convite de irmandade e comunhão daqueles que os aguardam do lado de cá da catraca.

 

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