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10 LIÇÕES DE ‘WIFI RALPH’

…e uma escorregada feia sobre internet

Por Helton Simões Gomes
Publicado no UOL Tecnologia

A internet é uma cidade grande, em que Google e Amazon são prédios gigantescos com letreiros coloridos. É um lugar onde não se dá dois passos sem ser abordado por alguém sugerindo um produto, um serviço, uma oportunidade de ficar rico. Esses spams dividem espaço com carrinhos que levam dados de lá para cá a muitos megabits por segundo. E, caso surjam dúvidas de que direção tomar, basta perguntar ao buscador, um baixinho de óculos que fica tentando adivinhar o que você vai falar.

Qualquer semelhança com o que você encontra na internet não é mera coincidência. É dessa forma que o filme “Wifi Ralph: Quebrando a internet” retrata o mundo conectado e tudo que o envolve.

Na sequência de “Detona Ralph”, o vilão de um game decadente dos anos 1980 continua como protagonista. Só que agora, em vez de invadir outros jogos de fliperama, Ralph vai parar na rede mundial dos computadores, acompanhado de Vanellope von Schweetz, o bug alçado à condição de personagem oficial de um game de corrida. O filme trata dos limites da amizade entre Ralph e Vanellope, mas o pano de fundo são as soluções da dupla para lidar com diversos e inesperados aspectos da internet, desde a forma como os dados trafegam na rede até os cantos escuros da Deep Web.

Por isso, o longa pode ajudar internautas de primeira viagem a entender como a rede funciona e como ela molda comportamentos — inclusive os fora dela.

Na internet, por exemplo, nem as princesas da Disney escapam e acabam entrando na dança. Por outro lado, o filme faz parecer que a internet é menor do que ela realmente é. Veja abaixo as 10 lições presentes no filme sobre a internet e a escorregada:

1) A internet não nasce do ar

Você liga o celular ou o computador, conecta o wi-fi e, pronto, já pode navegar à vontade sem depender de nada mais do que isso. Nada mais errado. De forma resumida, tudo que você envia pela internet passa antes por um modem, vai dele até o poste elétrico mais perto por meio de fios e até ao servidor do serviço conectado em questão. Ralph e Vanellope fizeram a viagem. Não parece divertida, mas, ao menos, é rápida.

2) A língua é outra; você é fluente em meme?

Inglês? Português? Nada disso. Se você está na internet, o seu idioma nativo deve outro. Você deve ser fluente em memes. Sim, os personagens de “WiFi Ralph” soltam memes constantemente, inclusive os criados por internautas brasileiros. Antes de uma partida da “Corrida Doce”, por exemplo, uma das competidoras vira para Vanellope e, em tom de desafio, dispara: “Levante a cabeça, princesa, senão a coroa cai”. Em outro momento, Ralph lê assim uma placa com inscrições “wi-fi”: “Se é uai fai deve ser de Minas Gerais”.

3) Nada é para sempre

Não é só a taxa de download que cresce exponencialmente a cada atualização de tecnologia de conexão. Na internet, também é grande a velocidade com que serviços ficam obsoletos. Você se lembra da conexão discada ou dial up? Nos anos 1990, boa parte dos acessos eram feitos assim. Por ser feita pela linha do telefone fixo, quem tentasse ligar para o seu número topava com o sinal de ocupado. E do Geocities? Você lembra? Era um serviço de hospedagem de sites que agrupava as páginas em cidades. Embora tenham sido amplamente populares, esses serviços foram atropelados por outros mais modernos. A lembrança do que foram não é de todo apagada e, na internet, há até um lugarzinho para eles. Não é, porém, um lugar bonitinho. Ralph que o diga

4) Algoritmos definem o que você vê: Yes

São eles que decidem qual é o próximo vídeo a ser exibido no YouTube, a próxima música a ser tocada no Spotify, o próximo post no seu Facebook. Os algoritmos são essa sequência de códigos que tenta acompanhar cada passo que você dá em um serviço para, ao fim, entender você melhor do que você mesmo. Só que não ficam só nisso. Depois de traçar seu perfil, eles não vão parar de tentar agradar você: entregar o que você gosta cada vez mais, mais e mais. Em “WiFi Ralph”, Yesss é a personificação de um algoritmo e ela só pensa naquilo: o que é que vai bombar?

5) A internet é dividida em bolhas

Essa não dá para colocar na conta do Facebook. Muito antes do algoritmo da rede social ser acusado de acirrar ainda mais as discussões políticas e criar bolhas fechados em que assuntos ecoam, a internet já possuía cantos frequentados apenas por integrantes de determinadas tribos. No filme, há algumas, como a dos gamers e dos amantes das princesas da Disney, mas você já deve ter topado com outros pela rede.

6) Dá para fazer dinheiro, mas…

“Ganhe dinheiro sem sair de casa. Me pergunte como.” Você já deve ter esbarrado em anúncios como este pela internet. Não é difícil imaginar como ofertas de grana fácil são sedutoras. O filme mostra algumas maneiras de conseguir dinheiro sem sair de casa nem da web, mas não há nada de fácil nisso. Encontrar itens raros em games para revender pode parecer divertido, mas requer horas e horas de dedicação. Virar influenciador digital para transformar “curtidas” destinadas a vídeos online em dinheiro vivo exige embarcar em toda modinha que pinta, de comer pimentas ardidas a fugir de abelhas africanas

7) Nunca leia os comentários

Essa lição foi dita explicitamente no filme. “Regra número um da internet: nunca leia os comentários”, diz Yesss a Ralph depois de ele… ler os comentários deixados em seu canal no BuzzTube, o serviço de vídeos que replica o YouTube no filme. E, para quem ainda não entendeu, o algoritmo continua: “As pessoas podem mostrar o pior delas aqui dentro”. Aprendeu?

8) Os smartphones dominaram tudo

Ainda que tenham sido os computadores a levar a internet para a casa das pessoas, foram os smartphones que fizeram a rede invadir cada aspecto de nossa vida cotidiana. E não é muito difícil pensar por que isso aconteceu — Vai dizer que você espera até sentar no sofá de casa para responder o WhatsApp. Durante o filme, Ralph e Vanellope se comunicam por meio de um smartphone que faz ligações de vídeo holográficas – okay, essa última parte ainda é ficção científica, mas já há quem esteja trabalhando para levar essa tecnologia aos celulares

9) Cuidado com os cantos obscuros

A internet tem cantos onde nem mesmo o Google vai. A “deep web” ou “internet profunda” é um lugar obscuro da rede a que buscadores não frequentam – lá estão páginas que não foram indexadas por eles. Nem tudo que há por lá é ruim, mas, por estarem longe da vista, as profundezas da web abrigam ofertas de produtos ilícitos, como drogas, armas etc. Também é possível contratar serviços ilegais, como a criação de programas maliciosos capazes de destruir a vida digital de alguém. Lá o perigo não tem nada de virtual.

10) Quem está de olho nas crianças?

Não é raro ver uma criança com os olhos colados na tela de um celular enquanto o pai ou a mãe estão ocupados com outro afazer. “WiFi Ralph” tira sarro dessa situação: Ralph invade um desses games em que você tem de alimentar bichinhos — crianças costumam adorar jogá-los. Brincadeira no filme, a cena pode virar pesadelo na vida real: E se fosse alguém mal-intencionado? Evitar um trauma maior requer o melhor antivírus infantil: a presença dos pais ou de algum responsável.

 

A escorregada: a internet não é só EUA

Em “WiFi Ralph”, você vê uma profusão de referências às gigantes da internet. Estão lá Google, Amazon, Facebook, Twitter, eBay, Pinterest e por aí vai. Mas resumir a internet a elas dá a impressão de que não se trata de uma rede global dos computadores e, sim, de um cercadinho norte-americano.

Não há menção a empresas chinesas, ainda que a China seja o país com maior número de internautas em todo mundo e lar de gigantes como Tencent, Alibaba e Baidu.

Em um dado momento, Ralph e Vanellope se encaminham rumo à área dos antivírus, onde é possível ver o logotipo da McAfee, mas não da russa Kaspersky.

Curiosamente, a representação da Disney do que é a internet ocorre quando o governo dos Estados Unidos promove um boicote mundial contra a Huawei, gigante chinesa das telecomunicações que fornece parte importante dos equipamentos de rede que sustentam a internet.

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