ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

A PÁSCOA E OS HERÓIS

Por Guilherme Smee

Publicado em O Vício (editado)

Qual o significado dessa importante data cristã, em um mundo onde muitos super-heróis nascem e renascem ao seu bel-prazer?

Nas histórias mais recentes dos X-Men, engendradas por Jonathan Hickman, os mutantes da ilha-nação de Krakoa conseguiram descobrir uma forma, graças aos poderes combinados de Os Cinco, para trazer de volta todos os mutantes que já morreram no mundo.

Dessa forma, o significado da morte desse tipo de super-heróis acaba sendo inócuo. Talvez ela deva ser estudada de uma outra forma pelos acadêmicos, que se debruçam sobre as relações religiosas de vida e morte nas histórias em quadrinhos de super-heróis.

Os mesmos super-heróis que estamparam vários ovos de Páscoa – que não puderam ser vendidos em 2020, graças à pandemia da Covid – os Vingadores, desapareceram num piscar de olhos. Mas, graças às Joias do Infinito, mais da metade do mundo foi trazida de volta à vida.

E os heróis acabaram, de algum jeito, passando por uma ressurreição, graças aos sacrifício de Tony Stark. Outro homem de ferro, há mais de dois mil anos, também se sacrificou por muito mais que cinquenta por cento da Terra. Vocês sabem de quem estou falando. O Thanos dele não estalou dedos, mas lavou as mãos.

Naquele tempo, lavar as mãos não era um sinal de cuidado, como é hoje, durante a epidemia do novo Coronavirus. Era um sinal de desleixo, de que devemos deixar as coisas como estão, se é assim que elas se colocam na nossa frente.

A morte no mundo dos super-heróis é diminuída, ridicularizada, não é um espaço de passagem, de transformação ou de reflexão. Ela apenas é mais um evento. Um acontecimento, como um casamento, uma briga de amigos ou até mesmo uma chocante troca de uniformes colantes. E até mesmo, como vimos, a morte nos quadrinhos de super-heróis tem menos capacidade de comoção do que o beijo entre dois super-heróis homens. A Bienal do Rio de Janeiro que o diga.

Então, se buscarmos o significado da Páscoa na Pessah judaica, que é um tempo de sacrifício, de passagem, como o próprio nome já indica, caímos novamente no discurso vazio de compra de ovos de páscoa com o Thanos estampado. Moisés e os hebreus passaram fome, realizaram grandes feitos para atravessar o deserto e o Mar Vermelho.

Nossos super-heróis cruzam universos com um balançar de capa, ou, como no caso dos Flashes da Terra 1 e da Terra 2, precisam apenas se encontrar no final de um muro de construção para salvar um peão de obra. Com um martelo, Thor cria portais e vai do sistema Skrull ao Shiar passando pelos Krees para deixar uma encomenda.

E os maravilhosos teleportadores, como Illyana Rasputin, que levam a um vislumbre do inferno dos demônios que tentaram o símbolo da Páscoa por quarenta dias e quarenta noites, do fim do Carnaval até a Sexta-Feira Santa?

A simbologia da Páscoa, nos super-heróis, está esvaziada. As pessoas não fazem o principal ato dessa época do ano: a reflexão. Elas mal param para ler um texto que nem é tão grande, como este, e já tiram suas conclusões apressadas. Elas não querem mais parar para se questionar ou questionar as ações dos outros. Elas querem certezas prontas, entregues nas portas de suas casas, mastigadas.

É doloroso pensar nas consequências que nossas ações têm na vida dos outros. Com grandes poderes vem grandes responsabilidades, mas só se você parar para pensar sobre isso. Refletir sobre a nossa existência, como queria o filho do Pai Poderoso – que não é Odin – é uma coisa difícil. A natureza segue e a pandemia do Coronavirus é uma prova que o mundo pode muito bem andar e continuar sem os seres humanos.

No mundo dos super-heróis, eles estalam os dedos e surgem com uma solução para a Covid em 24 horas, se preciso. No mundo real, precisamos de ciência, precisamos de reflexão, de paciência num mundo que não tem paciência para nada e nem ninguém. E ai de quem for contra. Ai dos que, nesse mundo de atropelos, se põem ainda para dedicar anos de sua vida ao estudo. Mas não é neles que, ironicamente, está a solução para essa crise?

Glorificados são aqueles que crucificam os demais, não os que continuam renascendo após dias de aflição. Glorificados são falsos ídolos, falsos mitos que, esses sim, continuam lavando as suas mãos de qualquer jeito. Deixa estar.

E vão continuar crucificando aqueles que tentam trazer um pouco de realidade, um pouco de reflexão, ciência e pensamento para um mundo que não sustenta nem mais a si mesmo, na sua pressa de consumir tudo que vê na sua frente.

É verdade que em tempos de pane, de convulsões mundiais, precisamos de histórias para nos mantermos inteiros. O problema é que entra crise, sai crise, precisamos de alguém que nos guie e mostre que histórias devemos manter e quais precisamos urgentemente descartar.

E se as coisas forem como Ele anunciou, se estamos aqui para alguma coisa, é para estendermos a mão ao próximo, mesmo que esse próximo seja uma pessoa que esteja (para ser) crucificada. Em tempos de Covid, temos de oferecer ajuda, estender a mão. Bastante higienizada. Limpa de vírus, de mitos ou de fakenews.

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