ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

A PATRULHA DO DESTINO E A IGREJA DE CRISTO

A equipe de desajustados heróis da DC Comics pode nos dar uma visão do chamado do cristianismo à não conformidade

Publicado no Think Christian

Por Joe George

Duas pessoas ficam do lado de fora durante uma chuva torrencial. Uma delas, uma mulher chamada Crazy Jane, pergunta: “O que as pessoas normais têm?” A outra pessoa, o ex-piloto de carros de corrida Cliff Steele, cujo cérebro foi removido após um acidente horrível, e colocado dentro de um robusto robô de bronze, responde com o óbvio: “Você está perguntando à pessoa errada”. Cliff escuta quando Jane desaba e soluça sobre sua incapacidade de ser normal ou forte. E então, depois de fazer uma pausa, ele a pega pelo braço e diz: “Saia da chuva”.

Essa conversa está na revista Patrulha do Destino (Doom Patrol) nº 19, de 1989, e representa uma interação comum na série. Depois de estrear em 1963 com o título de “Os Heróis Mais Estranhos do Mundo”, a Patrulha do Destino sempre foi o time de excêntricos da DC Comics: rejeitada pela sociedade após acidentes estranhos que lhes deram poderes bizarros, eles encontram significado juntando-se a outros desajustados. É uma situação familiar para muitos de nós, que fazemos parte dos desajustados singularmente conscientes conhecidos como Corpo de Cristo.

A lista de integrantes da Patrulha do Destino incluiu desde o mencionado Homem-Robô, Cliff Steele, até um homem-macaco de quatro braços – além de um quarteirão da cidade chamado Danny the Street. Mas nenhuma personagem melhor incorpora o espírito da Patrulha do Destino e sua aceitação de estranhos do que Kay Challis, também conhecida como Crazy Jane.

A melhor definição para ela talvez seja alguém “quebrado”, defeituoso. Crazy Jane tem um distúrbio de personalidade múltipla e cada uma de suas 64 personalidades tem superpoderes diferentes. Essas personalidades se originam de uma consciência que se fraturou quando ela foi abusada pelo pai, aos 5 anos de idade. Crazy Jane é frequentemente retratada ao lado de peças de quebra-cabeça aleatórias ou dentro de um sistema de metrô, em sua mente – onde cada parada representa uma identidade diferente. Imagens que sugerem um estado de degradação permanente.

“A CURA É UM ATO COLABORATIVO, NÃO UMA RELAÇÃO DE CONTROLE”

Reimaginada pelo escritor da série, Gerard Way, Crazy Jane volta à equipe quando seus colegas a acham controlada por uma 65ª personalidade, chamada Doctor Harrison. Uma amálgama grotesca dos psiquiatras que trataram Kay, Harrison planeja se curar matando as outras 64 personalidades.

Conduzido à estação de metrô mental de Jane (lógica dos quadrinhos; não pergunte), Cliff pergunta: “Ser curada não é uma coisa positiva?” Jane responde afirmando a importância da comunidade, declarando: “A cura é um ato colaborativo, não uma relação de controle”. Explicando que ela se aceitou, mesmo por sua estranheza, Jane pede o apoio de Cliff, dizendo: “Eu adoraria que você fizesse o mesmo”.

O desenhista Nick Derington coloca Jane e Cliff em lados opostos do painel, suas figuras destacadas pelas linhas limpas e grossas do pintor Tom Fowler e pelos tons azuis frios da colorista Tamra Bonvillain. O roteirista Tom Fowler ressalta o desafio enfrentado por Cliff: ou ele aceita Jane, suas falhas e tudo, ou ele tenta “consertá-la” destruindo os aspectos que ele não gosta.

Os cristãos frequentemente enfrentam um desafio semelhante ao formar igrejas. Qualquer que seja a razão pela qual escolhemos uma congregação, estamos fundamentalmente lá porque somos pecadores que abandonam a visão de dominação do mundo para representar a graça de Deus. Por uma questão de necessidade, as igrejas estão repletas de desajustados que não apenas rejeitam a conformidade com o mundo, mas são, de fato, chamados a não se ajustar.

E, no entanto, ainda ficamos aborrecidos ou ameaçados pelas esquisitices de nossos companheiros de igreja e sentimos o desejo de “consertar” pessoas cujas diferenças consideramos especialmente problemáticas. Nesses casos, corremos o risco de agir como Cliff, tentando tornar os outros mais aceitáveis, enquanto ignoramos nossas próprias peculiaridades e problemas.

Esses problemas não são novos, como demonstrado pelas instruções de Paulo para uma das primeiras igrejas cristãs. Paulo aborda as divisões entre os coríntios, descartando toda a noção de aceitação e estima mundanas. “Irmãos e irmãs, pensem em como vocês eram quando foram chamados”, ele escreve. “Muitos de vocês não foram sábios pelos padrões humanos; muitos não foram influentes; muitos não tiveram nascimento nobre.” Eles eram párias e rejeitados, mas agora parecem estar evitando essas características a favor de uma hierarquia mais “socialmente aceitável”, que está causando mais divisão do que crescimento.

Essa própria “inutilidade” torna as pessoas valiosas para Deus, que “escolheu as coisas humildes deste mundo e as coisas desprezadas – e as que não são – para anular as coisas que são”. O reino de Deus consiste em nada além de ser desprezado e evitado.

Dessa maneira, a Patrulha do Destino reflete a Igreja como Cristo pretendia, cheia de pessoas humildes e desprezadas, as pessoas mais estranhas do mundo. Suas histórias capturam a missão da Igreja em uma imagem simples de um rejeitado convidando o outro a sair da chuva.

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