ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

EM BANDO, UM CUIDA DO OUTRO

A frase acima pode ser encontrada em uma dúzia de livros evangélicos, com variações.

“Somos membros do mesmo corpo, temos que viver dessa forma, em harmonia”, pode dizer um autor. “Igreja é lugar de gente necessitada, precisamos ministrar sobre essas vidas”, pregará outro. “Venha fazer parte da nossa família”, convida alguém. Seria normal até, se o original acima não tivesse sido extraído do desenho animado “A Era do Gelo”.

No período pré-histórico, um grupo de animais à beira da extinção – um mamute, uma preguiça desengonçada e um tigre dentes-de-sabre – encontram um bebê e decidem devolvê-lo à família.

Bem, na verdade somente a preguiça tem o sentimento de compaixão pela criança, no primeiro momento. O tigre quer entregá-la para o líder do seu bando, como vingança pelas mortes provocadas pelos humanos. O mamute só quer ficar longe de tudo e de todos, e a única maneira de se livrar da preguiça é cumprindo a promessa de salvar a criança.

O final é previsível e o humor excepcional. Uma dezena pelo menos de cenas engraçadas, agradáveis pra toda família, mesmo se assistido à exaustão. Mas essa frase, em um dos diálogos, chama a atenção.

E lembra que em todas as espécies existentes na natureza, são mínimos, quase inexistentes, os seres que se matam em bando ou não se respeitam na luta pela sobrevivência. Imagine o animal que você acha mais repugnante…

Uma barata, que seja. Você já viu uma barata brigando com a outra ou expulsando-a do grupo ?

Nojento demais? E entre os mamíferos? Pode até ser que um cachorro não goste do outro, tenha zelo pela comida e intimide os irmãos. Contudo, ao final do dia, dormirão lado-a-lado, para aproveitar o calor e compartilhar a segurança – nem que seja mantendo um olho fechado e outro aberto.

Mas tem uma espécie que tem o péssimo costume de brigar em bandos, buscar a dissensão, atacar seu semelhante e se vangloriar do isolamento. Estou falando do crente-sapiens, descendente do homo sapiens, que nasce após uma – suposta – conversão evangélica.

Para ele, nem sempre viver em bando é cuidar um do outro.

Porque prefere fazer rodinhas e pequenos grupos, buscar sucesso individual longe dos amigos e irmãos. Acredita que é melhor que outros ao seu redor e não se esforça para ajudar quem precisa. Pode até ver que tem alguém ferido e desamparado no seu meio, mas chega a ponto de agredi-lo, faminto pela sua carne.

Nem parece gente do mesmo bando, da mesma comunidade, da mesma irmandade. Nem parece gente irmã. Alguns, como o mamute, não estão nem aí para nada, preferem viver numa “ilha de santidade”. Outros agem como tigre dentes-de-sabre, loucos para ver a morte do próximo.

Não é essa mensagem das escrituras. Muito menos foi o que aprendemos com a história do povo de Deus. No Velho Testamento, doze tribos tiveram que aprender a viver em unidade, compartilhando suas diferenças e, principalmente, seus defeitos. No Novo Testamento, Paulo e Barnabé se desentenderam por causa de João Marcos, motivo de divisão entre eles. Posteriormente, Paulo pede que Marcos venha até ele para ajudar-lhe na missão, “pois me é útil”.

Mas o crente-sapiens não está perdido. Pelo menos é o que se espera. Porque até os predadores podem aprender a viver em harmonia com outros que não são, necessariamente, iguais a si, sequer da mesma espécie. É a lição que “A Era do Gelo” passa. E foi a lição, muito mais antiga, que Jesus deixou.

 

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