ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

LEIA PARA SEUS FILHOS, COM SEUS FILHOS

…E PELOS SEUS FILHOS

Por DANIEL MARTINS DE BARROS

Ler para as crianças ainda é a melhor forma de construir seu vocabulário. O que pode fazer toda diferença na vida delas.

Há pouco tempo meus pais me deram dois livros que liam para mim, quando era criança. Lembro que adorava aquele cachorrinho laranja, Pingo, que nos ensinava cores, formas, números e animais. Mas o que mais me espantou foi ver que meu filho de quatro anos adorou o livro, escrito quarenta anos atrás.

Uma das melhores coisas que você pode fazer pelos seus filhos é colocá-los em contato com livros. Vários estudos já mostraram como expor as crianças à linguagem escrita é importante. Do desenvolvimento da empatia às habilidades verbais, da tolerância ao desenvolvimento de vocabulário, várias habilidades são estimuladas pela leitura. Um grande estudo europeu foi além, e mostrou que crescer entre livros está relacionado a maior ganho financeiro na idade adulta.

Analisando dados de nove países europeus, descobriu-se que os meninos que tiveram contato com dez livros ou mais (fora os livros escolares), ganhavam em média 9% a mais por ano do que os outros. Pode não ser um efeito direto do livro, claro, mas simplesmente um sinal de que a família já tinha dinheiro para livros, ou que valorizava a educação, mas nunca se sabe.

Boa parte do impacto da leitura no desenvolvimento vem do enriquecimento do vocabulário. Crianças aprendem mais palavras quando expostas à linguagem do que quando ensinadas diretamente; e a linguagem escrita é mais eficaz nessa construção de vernáculo do que a linguagem oral. Se não por outro motivo, porque ela é muito mais rica.

Estudos em inglês dão prova disso. Pesquisadores fizeram um ranking de frequência da utilização das palavras, classificando-as da mais usadas (“the”, em inglês), para as menos frequentemente empregadas. Consideraram então as 10.000 palavras mais usadas como comuns, e raras aquelas colocadas mais abaixo no ranking (ou seja, menos utilizadas.

“Amplifier” (amplificador), por exemplo, estava na posição 16.000, sendo então rara; ao contrário de “shrimp” (camarão), que ficou em 9.000. Compararam então o conteúdo da linguagem oral em diferentes contextos (programas de TV para adultos, para crianças, desenhos animados, diálogos entre estudantes universitários e testemunhos de peritos judiciais) com o conteúdo da linguagem escrita, também em meios distintos (resumos de artigos científicos, jornais, revistas, livros adultos, quadrinhos, livros infantis e livros pré-escolares).

Colocando os resultados no papel, viram como a linguagem falada é pobre em comparação à escrita. Quando fizeram uma média do ranking de frequência das palavras usadas, os livros pré-escolares se mostraram mais complexos do que praticamente todas as formas de linguagem oral. E ao contar diretamente as palavras raras, os livros infantis tinham proporcionalmente mais delas do que todas as formas de linguagem oral.

Conhecer palavras é fundamental para compreender o mundo. A importância de aprender a dar nome para as coisas fica clara, por exemplo, nos exercícios de autocontrole emocional. É muito mais fácil conseguir se controlar quando se identifica a emoção que se está sentindo. Mas isso é quase impossível se não sabemos seu nome. Gosto do exemplo do teólogo Paul Tillich, que disse que “A linguagem criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho”. Mudando apenas uma palavra podemos descrever a mesma pessoa, na mesma situação, tendo sentimentos opostos.

Não sei como anda o hábito de ler para as crianças depois da revolução digital. Espero que os pais não abandonem os livros (seja em que formato for). Porque se, por um lado, a palavra escrita muda para se adaptar à velocidade da internet e da comunicação moderna, por outro o cachorrinho Pingo nos mostra que as crianças não mudaram tanto assim.

Publicado no Vida e Estilo

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