ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

MINDUIM, O SUCESSO DO FRACASSO

No dia 2 de outubro de 1950, Charlie Brown atravessou os quatro quadrinhos da primeira tira de Minduim (Peanuts) – nome imposto pela UPI e não aceito por Charles Schulz – para conhecer seu primeiro vexame: ser odiado pelos seus semelhantes. Mas apenas dentro da história, porque fora dela é amado pelos leitores dos comics.

Uma tira diária, de segunda a sábado, e uma página dominical em cores, num total de 17.888 desenhos. Sem contar os livros, as revistinhas, os cartões, as capas, as ilustrações, os invólucros e todo o licensing e merchandising, pois, como se sabe, esses personagens são dos mais reproduzidos em todo o planeta Terra, em termos de camisetas, bonecos, filmes de cinema e televisão, papelaria, publicidade, spots, pontos de vendas, anúncios de bancos e sorvetes, postais, piadinhas, pocket-books, álbuns e mais de novecentas possibilidades de comercialização.

A esse respeito, Schulz rebateu as críticas dizendo estranhar o fato de as pessoas o acusarem de super comercializar um produto que é, basicamente, um objeto comercial. É bom esclarecer que o autor é um dos raros artistas do gênero que não trabalhou com equipes de desenhistas e roteiristas. Fez tudo sozinho, por achar que os quadrinhos são uma Grande Arte. Admira estudos atuais sobre o fenômeno dos comics, aprecia ser exibido em galerias de arte, achando, porém, que o princípio básico dos quadrinhos é o divertimento e uma base comercial. O artesanato pode dar um toque pessoal a uma criação, na sua opinião. Os estudiosos, entretanto, acreditam que sua não-presença nos congressos para, obviamente, receber prêmios, devia-se ao fato de que cada sessenta segundos perdidos pelo autor em entrevistas representam uma perda de milhares de dólares por minuto. Pois Schulz foi, sem dúvida nenhuma, o cartunista mais bem pago do mundo.

Desde os seis anos se julgou um predestinado ao sucesso. Mas foi com suas falhas e lapsos como criança que criou seus personagens, que fazem a catarse diária de milhões de crianças crescidas e complexadas. É o divã diário do psiquiatra mais barato para os leitores do mundo.

Desde criança, incentivado pela professora, imitava Disney, Popeye, mas foi o traço de Roy Crane (em Wash Tubbs) que mais influenciou sua simplicidade. De 1948 até 1950, vendeu alguns desenhos para a revista Saturday Evening Post e começou a publicar na sua cidade natal, St. Paulo, em Minneapolis, para o Pioneer Press, um cartum semanal intitulado Li’l Folks, usando o pseudônimo de Sparky.

Remetia constantemente seus trabalhos para os Syndicates (distribuidores de materiais de imprensa), até receber uma carta de Jim Freeman, editor da United Feature Syndicate (UPI), de Nova Iorque, que gostou de seus desenhos.

Entre o cartum (um desenho com uma piadinha) e a tirinha de quatro quadrinhos, a UPI escolheu a tira e nomeou a criação, mantendo o nome do amigo de Schulz, Charlie Brown. O cãozinho Snoopy (que iria se chamar Snuffy) surgiu junto com o personagem principal.

(…)

O tema inicial de Peanuts era a crueldade existente entre as crianças. Um cachorrinho fuçador, embora pensador, não pode aumentar complexos infantis. Basta os das crianças-adultas mal crescidas.

Porque, como escreveu Schulz, estamos mais próximos dos perdedores do que dos vencedores na vida. Principalmente na competitiva sociedade norte-americana. “Enquanto um alegre vencedor é sem graça, existem centenas de perdedores, que usam historinhas alegres para se consolarem.” Centenas, milhares, milhões de perdedores, no mundo todo, consolam-se lendo, rindo e consumindo a criação de Mr. Charles Monroe Schulz.

Schulz confessou que, uma vez por ano, tal como um produtor teatral, repetia uma situação na sua tradicional historieta: Lucy segurando a bola de rúgbi para Charlie Brown chutar e, no último quadrinho, tirar a bola, fazendo-o chutar o ar. Mas todos os anos descobria uma nova fórmula de refazer a piada, graças a um velho fã: Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos. Este confessou que esta era a melhor situação da historieta. Com esse incentivo sádico, o autor se repetiu nos últimos anos e anos. Pois que, então, o sadismo era presidencial!

 

 

Extraído do livro “História da História em Quadrinhos”

Álvaro de Moya

Editora Brasiliense

Páginas 160 a 162

Baixar em PDF