ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

O PLANETA DOS MACACOS E O EXISTENCIALISMO

Por Celso Fernandes

O filme em questão não é o escrachado filme do diretor Tim Burton, de 2001. Falamos aqui do primeiro O Planeta dos Macacos (1968), que teve Charlton Heston no papel principal. Trata-se do clássico que marcou época, gerando inclusive um seriado para a televisão; uma história simples na aparência que carrega um grande mensagem de pessimismo para a humanidade.

A mensagem a que me refiro está inserida no existencialismo, filosofia na qual todos os processos de sofrimentos humanos e desesperanças são justapostos paralelamente a uma vida que não terá outra saída para usufruir prazer senão em pequenos momentos de alegria que acontecem aqui e agora.

O filme começa com a espaçonave mostrando um futuro conquistado.

(…)

Ironicamente, depois de tanto avanço rumo ao desconhecido, a tripulação da espaçonave cai num planeta estranho, que os macacos comandam.

(…)

O tema central de O Planeta dos Macacos está mais fortemente marcado por sua última cena, em que o protagonista encontra o inesperado.

Tendo, ao longo de todo o filme, uma expectativa desarraigada – o momento de sair desse mundo para chegar a outro, seu mundo real, onde ele poderia viver melhor, sem ser aprisionado por macacos nem viver no desespero da fuga interminável -, ele descobre que o mundo em que estava era a terra, que não existia outro.

Ele estava o tempo todo em seu planeta, mas, de maneira catastrófica, dominado por macacos.

Sendo animais, apesar de sua semelhança com o homem, os macacos não tem inteligência nem o polegar opositor, o que nos leva a crer que nós, seres humanos, somos indubitavelmente superiores. Entretanto, há quem acredite que essa mensagem de O Planeta dos Macacos teve intenção alegórica para revelar os tempos em que vândalos irresponsáveis dominariam o mundo; assim como os bárbaros de outrora, eles venceriam e destruiriam as perspectivas de um mundo civilizado. Às vezes, parece mesmo que o mundo vai na contramão da civilização: basta olhar para as metrópoles com seus movimentos tribais, pichações, congestionamentos, poluições sonoras e visuais etc.

À parte essas ideias, o que interessa para este capítulo é o tema central do filme em questão, que contém mensagens como “não há esperança de outro mundo”, “o inferno é aqui mesmo” e outras frase do gênero.

O mais interessante em O Planeta dos Macacos é que, ao assistir a tal filme, somos levados a esperar com o coronel Taylor o momento de sair daquele planeta e voltar para o lugar de paz. Torcemos por ele, vivemos com ele, acompanhamos sua angústia, sentimos seu desespero e somos levados a ter plena certeza de que no final do filme ele vai conseguir voltar para seu lugar de origem.

Com exceção do momento em que o coronel é enjaulado, a história acontece num fôlego só; um filme de grande impacto, de aventura, para a época.

Seu drama é vivido pelo espectador desde o momento da primeira aparição dos macacos.

A expectativa, porém, frustra-se na cena final, com a aparição da Estátua da Liberdade, momento em que morre a única esperança: a de fosse possível uma outra vida além daquela.

Não crer que haja outra vida é ser completamente existencialista.

O mundo está recebendo essa mensagem ainda mais fortemente nos dias de hoje, e é sobre ela a sequência deste capítulo.

O QUE É EXISTENCIALISMO

É importante que se definam, antes de tudo, quais são as formas de pensar de um existencialista. Cabe ressaltar que muitas vezes a pessoa pensa desse modo e não sabe. O existencialismo mais nocivo é aquele que foi encabeçado pelo filósofo francês Jean Paul Sartre, na sociedade moderna da primeira metade do século 20, que discute também a questão da morte.

Diferentemente de outros filósofos existencialistas – como o dinamarquês Kierkegaard, conhecido como o pai do existencialismo -, Sartre vai dizer que depois da morte nada nos espera. A morte é a nadificação dos nossos projetos, ou seja, após a morte a pessoa simplesmente deixa de existir. E com esse absurdo que é a morte, em que tudo vira nada, Sartre prega que a paixão e o apego demasiado a coisas materiais são completamente inúteis.

Se vamos morrer, nossa vida não tem sentido algum. Daí o conceito de ‘náusea’ que ele vai disseminar, escrevendo um romance de mesmo nome.

Com base nas ideias de que a vida é um absurdo, que o inferno não está em um outro lugar senão neste mundo, que vamos viver presos numa jaula à espera da redenção que, segundo os existencialistas, nunca ocorrerá; O Planeta dos Macacos vai se desenrolar até chegar ao ápice, quando mostra o desencanto do homem que espera um outro mundo, estando, ao contrário, no único mundo possível.

O Planeta dos Macacos agride nem tanto pela proposta de um mundo governado por animais, mas sobretudo pela aridez da cena que mostra a Estátua da Liberdade sugerindo que não há liberdade possível, senão a condição de viver neste mundo, simbolizando pela jaula onde o coronel Taylor fica preso.

O olhar de desespero e um grande silêncio vão temperar a angústia do protagonista diante da desesperança, final totalmente em desacordo com os filmes hollywoodianos de costumeiros finais felizes.

CARPE DIEM

Foi em “Sociedade dos poetas mortos”, filme de 1989, estrelado por Robin Williams, que vimos a história do cinema consagrar a frase ‘carpe diem’. Numa escola secundária, durante os anos 1950, os jovens alunos aprendem de um professor que nada vale a pena se não fizerem algo de que realmente gostem, aproveitando o momento, vivendo como se fosse o último dia de suas vidas, ‘como se não houvesse amanhã’.

Esse pensamento pode ter seu lado bom, pois aproveitar cada dia da vida para vivê-lo bem vivido e fazer coisas marcantes, a ponto de terminar o dia e poder ter cumprido o ‘carpe diem’, é muito virtuoso. Qual o lavrador que não gosta de terminar seu dia com toda a lavoura adiantada e em ordem? Qual o homem de negócios que não sente prazer de ter feito todas as reuniões necessárias? Ou qual vendedor não termina seu dia feliz da vida por ter fechado boas vendas? Todavia é grande o prejuízo que o existencialismo com seu ‘carpe diem’ causa na sociedade moderna.

ECLESIASTES: O EXISTENCIALISMO DE UM PREGADOR

Salomão, o grande e respeitado pregador, já experimentou algo parecido com o que chamamos de existencialismo. E desacreditou dele.

O velho pregador de Eclesiastes, depois de ter experimentado muitos dos gozos possíveis ao homem – posses, realizações, erudição, mulheres, juventude etc. – vê-se em meio a um tédio profundo da existência.

Nada tem sentido; tudo vale nada, e dessa maneira ele mesmo vai simplificando todas as conquistas como vaidades, não mais do que apenas e meras vaidades.

A ideia de aproveitar o momento e experimentar todas as coisas possíveis ao homem é provinda, principalmente, do fato de não se acreditar que haja um julgamento futuro.

Mas é preciso entender também que a experimentação de tudo em geral leva à busca cega de um prazer exacerbado, gerando, portanto, pessoas que não tem condições de passar pelo sofrimento.

É em Eclesiastes 12:13 e 14 que podemos entender a conclusão de vida do pregador, que se resume ao temor a Deus e à obediência a seus mandamentos. Nada do restante teria tamanha importância:

“Agora que já se ouviu tudo, aqui está a conclusão: Tema a Deus e guarde os seus mandamentos, pois isso é o essencial para o homem. Pois Deus trará a julgamento tudo o que foi feito, inclusive tudo o que está escondido, seja bom, seja mal.”

Lembrar do Criador nos dias da mocidade, antes que chegue a velhice, e se arrepender por não ter tido uma vida boa.

É esse o grande conselho que Salomão guarda quase para o final de sua exposição. Ele, o velho pregador, resume tudo o que foi mostrado nesse último ponto, de real valor.

 

 

Trecho do livro
“Luz! Câmera! Ação! Como usar filmes para ilustrar mensagens bíblicas”
Celso Fernandes
Editora Vida
2005
Página 88

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