ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

OS AZARADOS DOS QUADRINHOS

YADDAZARADOS8Gibi número um:
Depois de se inscrever em um concurso de alpinismo, o Pato Donald descobre que está um dia atrasado na competição. Vai, mesmo assim, atrás da vitória. Enfrenta despenhadeiros, tempestades e até o ataque de ursos, em busca do prêmio. Ultrapassa todos os demais competidores para chegar ao topo da montanha em primeiro lugar. Ou quase. Descobre que seu sortudo primo, Gastão, venceu a prova porque voou para o cume, sem esforço algum, levado por uma corrente de ar.

 

YADDAZARADOS2Gibi número dois:

O fotógrafo Peter Parker perdeu o emprego no jornal Clarim Diário depois de chegar atrasado a uma importante cobertura noticiosa. Naquele momento, vestindo o uniforme de Homem Aranha, ele evitou um assalto a banco e salvou uma família de um prédio em chamas. De volta para casa, descobre que foi deixado pela namorada, esqueceu de estudar para a prova final de amanhã, sua tia foi internada no hospital e está sem dinheiro para pagar as contas do mês.

 

Gibi número três:
YADDAZARADOS3Mortícia e Gomes decidem sair de férias, juntamente com o restante da Família Addams. Estão de olho no clima, e só colocam o carro na estrada quando começa o mais intenso temporal. É quase o fim do mundo, segundo os meteorologistas,  e os Addams comemoram quando as rajadas de vento parecem que vão destruir tudo. Escolhem o caminho mais íngreme e perigoso, até caírem num pântano rodeado de crocodilos. Resumindo, estão vivendo as férias dos sonhos.
Os quadrinhos tem muitos exemplos de azarados. Donald, Homem-Aranha e os Addams são alguns destes que, diariamente, passam pelo revés generalizado.  Mas de forma diferente. No caso do personagem da Disney, do herói da Marvel e de outros, é difícil compreender como uma vida dentro dos padrões de bondade pode ser recompensada apenas com tragédias. Donald nunca tem dinheiro, nem consegue dar uma vida digna para os sobrinhos. Em todo emprego que começa ele se dá mal. As poucas oportunidades que surgem lhe pagam tão pouco. E Peter Parker, que já salvou o mundo uma centena de vezes, nunca recebeu o reconhecimento por isso. Por que tanto esforço de homens e mulheres sem maldade só resulta em mais problemas e tragédias? Como podem acontecer coisas ruins a pessoas boas?

Essa pergunta é muito mais antiga que as narrativas dos quadrinhos. Está no Salmo 38:19 da Bíblia: “Mas os meus inimigos são cheios de vida e são fortes, e muitos são os que sem causa me odeiam”. Está também em Jó 21:7: “Por que razão vivem os ímpios, envelhecem, e ainda se robustecem em poder?”

A indignação do salmista e de Jó é a mesma da maioria de nós. Por que existem pessoas que parecem ser condenadas a viver debaixo de uma nuvem negra de problemas e provações, desde o nascimento? Quando não, são submetidas constantemente ao que já convencionamos chamar de “onda de azar”, “maré de má-sorte”, “fase ruim” ou “inferno astral”. Saem de uma pior para entrar em outra, pior ainda. Não encontramos explicações para isso. E a verdade é que não estamos preparados para sofrer, seja em qual for a esfera da vida. A menos que sejamos do tipo que prefere um estilo masoquista de vida, como os Addams. Nesse caso, quanto pior, melhor. Ninguém em sã consciência é assim.

Almejamos bons momentos, sucesso, paz, prosperidade, alegria. E até insistimos na pregação de um – frágil –
evangelho inspirado só nisso. O curioso é que nosso Salvador viveu por esse mundo sem ter onde ficar.  Andava a pé, dormindo por aí, sem travesseiro e sem o merecido trono de um rei. Dependia da ajuda de mulheres para sustentar seu ministério – as desprezadas mulheres, segundo a tradição da época. Cobertor nenhum ele tinha, o pó das estradas era o que o cobria. E depois de ensinar o amor a tantos, foi deixado só numa madrugada de tristeza. Ainda morreu crucificado.

É… pensando dessa forma, dá para arriscar até dizer que Jesus foi um “azarado”. Um profeta sem glória, humilhado na sua terra, não reconhecido pelo seu poder e autoridade, e perdendo, para o criminoso Barrabás, a chance de sobreviver à cruz. Os “azarados” dos quadrinhos são fadados às desgraças para que tenham sucesso de público e de tiragem. Personagens como estes sempre vão existir, e nos alegram com sua perseverança. Essa perseverança é o que não podemos deixar de ter.

O que Jesus ensina é que a noite escura da alma sempre pode existir, por maior ou menor tempo. E que não são os olhos que enxergam o sol da justiça brilhando – é o coração. Seja qual for a lágrima derramada, o cristão ainda é mais do que vencedor, por meio dAquele que o amou, mesmo que não entenda o propósito de tanta tristeza, provação e luta. Ou de tanto “azar”.

 

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